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Quando Ricardo Hilário nasceu, em 2002, Victor Nogueira já praticava kickboxing há 12 anos. No entanto, quis o destino que os dois se encontrassem em Antalya, em novembro de 2022, para representar Portugal no Campeonato da Europa de kickboxing da WAKO. Dessa forma, Hilário, de 20 anos, e Nogueira, de 47, são, respetivamente, o mais novo e o mais velho da comitiva portuguesa na prova que decorre Turquia.
A disputar a categoria 'Masters', Victor Nogueira, que compete em Point Fighting -94 kg e Kick Light -94 kg, vincou que a decisão de participar na prova foi fácil de ser tomada. "A minha motivação é sempre a mesma: até hoje continuo a ter o bichinho de competir. Vamos ver se agora desaparece [risos], mas penso mesmo que será a minha última competição como atleta. Não tenho aspirações de títulos nem de medalhas, no fundo quero é dar o exemplo aos mais novos de que a competição no kickboxing pode ir muito além dos 20 e poucos/30 anos. É um orgulho para mim poder dizer que estou a representar o meu país com esta idade. Para mim é tudo, infelizmente o kickboxing está como está, mas tenho esperança que, um dia, as coisas voltem a ser como eram antigamente", começou por referir, indo depois mais longe na explicação: "Era para estar aqui como árbitro internacional, mas surgiu esta oportunidade de competir e quase fui obrigado pelos meus atletas e pela minha esposa, que sempre foi o meu braço direito. De forma oficial estou como atleta, mas estou também como árbitro, porque estou a estudar, e como treinador, ao acompanhar os meus atletas. Tenho quatro atletas que estavam há muito tempo sem competir porque foram expulsos da Seleção [referência ao diferendo qu existe entre a FPKMT e a FKNDA] e que tinham muita vontade de voltar à competição. Essa é a parte mais importante porque, para mim, são sempre crianças. São os meus 'Pokémon'".
Defendendo que "educação, capacidade, querer e atitude" dos jovens com que trabalha na Academia Pé de Chumbo, em Valongo, são o combustível que precisa para se manter ligado à modalide, Victor Nogueira partilhou ainda quais as maiores conquistas que tem nesta caminhada. "Tenho muitos alunos dos 6 aos 20 anos e sei que o meu papel como treinador é cada vez mais importante. Tenho muitos pais que me pedem para os ajudar a educar os filhos e tenho muitos alunos que começaram comigo aos 8 anos e hoje são doutores, médicos, pilotos, polícias... É isso que me dá vontade de continuar", asseverou.
Este tipo de ensinamentos, de resto, é bastante proveitoso para os mais novos, tal como realçou Ricardo Hilário. Apesar de não trabalhar diariamente com Victor Nogueira, o jovem não esconde a influência que colegas e treinadores mais velhos têm no seu crescimento. "O Raúl Lemos [técnico responsável pela Seleção na vertente de ringue] já conquistou provas na WAKO e é importante perceber que não são só os outros países que vencem. É importante trabalhar de perto com estas referências, mesmo no meu ginásio tenho o meu treinador, o João Diogo, e vários elementos mais velhos, como o Diego Freitas e o Bassó Pires, com quem aprendo. São exemplos, vejo o que fazem, o que querem e o que conseguem e tento ser como eles". disse.
Apontando ao ouro neste Europeu, isto depois da medalha de prata no Campeonato do Mundo da WAKO no ano passado, Ricardo Hilário fez ainda uma viagem ao passado para recordar como entrou na modalide: "Fazia karaté na escola, mas entretanto mudei de escola e estive um ano sem fazer nada. O meu pai fazia ginásio no Mr. Big, onde treino atualmente, e acabei por ir experimentar uma aula de kickboxing. Gostei e estou lá até hoje. No início nem era para competir, mas decidi tentar e fui gostando. As coisas acabaram por surgir com naturalidade".
Agora fica a pergunta: sendo tão novo, o que tem Ricardo Hilário para ensinar aos mais velhos? "Tenho um colega mais velho no ginásio que descolorou o cabelo depois de eu o fazer, já lhe disse que quer ser como eu [risos]. Fora de brincadeiras, neste momento sou muito mais um aprendiz", rematou.
Por Diogo Matos