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NO CARGO de seleccionador nacional há pouco mais de um mês, Vítor Hugo Barbosa Carvalho da Silva vai ter a sua primeira prova de fogo já a partir do próximo dia 5 de Junho, dada em que se inicia o Campeonato da Europa de hóquei em patins, na Suíça (Wimmis). O novo timoneiro da turma das quinas sucede a Jorge Vicente, herdando do seu antecessor o mesmo tipo de problemas. Pouco tempo para ultimar a preparação da principal equipa das quinas e a necessidade de fazer escolhas, facto que implica naturalmente a dificuldade em agradar a "gregos" e a "troianos".
Mas Vítor Hugo respira hóquei por todos os poros e conhece a modalidade como poucos. Foi um jogador de eleição, terminando prematuramente uma brilhante carreira aos 29 anos para abraçar a carreira de médico-dentista. O seu palmarés é, no mínimo, invejável: conquistou oito Campeonatos Nacionais ao serviço do FC Porto, um Campeonato de Itália pelo Novara (em 87/88), venceu dois Europeus de seniores (em 1987 e 1992) e um Mundial (em 1991, no Porto). E somou um total de 150 internacionalizações.
Agora, aos 37 anos, tem a responsabilidade de manter a selecção nacional na rota do sucesso. Um desafio que parece encarar sem hesitações.
- Muitos consideram que Portugal parte para a Suíça com uma equipa já velha e gasta, em que parte significativa dos jogadores (Vítor Fortunato, Paulo Almeida, Pedro Alves e Tó Neves) está na casa dos 30 anos. Não seria preferível fazer já uma renovação na principal equipa das quinas?
- Mas essa renovação já está a ser feita. Esta selecção é constituída por cerca de 40 por cento de jovens (n.d.r. Miguel Ferreira, Reinaldo Ventura, Sérgio Silva, Filipe Gaidão). Mas não podemos perder de vista a hipótese de ganhar a prova. Afinal, é para isso que competimos. Para já, queremos conquistar o penta. A renovação será gradual. Para mim não faz sentido lançar uma série de jovens para a "fogueira".
- A Espanha, o principal rival de Portugal no Europeu, teve a ousadia de já ter mudado o seu plantel...
- Mas não é uma mudança tão radical como se possa pensar à primeira vista. O seleccionador espanhol, Catxo Ordeig, também não abdicou de hoquistas experientes como são os casos de Ramón Benito e Alberto Borrégan, ambos do Barcelona. Aliás, não percebo porque é que toda a gente, agora, está preocupada com uma tão propalada renovação.
- Por outro lado, apostou no forte núcleo de jogadores do FC Porto. Pretende recriar na selecção a fórmula que fez dos dragões campeões nacionais?
- Isso não tem nada a ver. Irrita-me quando algumas pessoas da modalidade colocam as coisas nestes termos. Fiz o que outros seleccionadores antes de mim fizeram, que foi escolher os melhores. Não sei o que é que isso tem de estranho...
- Foi, no entanto, uma opção que suscitou alguma polémica...
- Isso não me incomoda. Não quero nem pretendo ser um treinador politicamente correcto, que reúna o consenso de todos. E digo mais: a decisão mais dolorosa da minha ainda curta carreira como seleccionador foi ter deixado de fora dos dez eleitos para o Europeu jogadores como o António Ramalho, o Sérgio Silva, o Ricardo Pereira, o Nuno Félix e o Guilherme Silva.
- Se calhar, o seu principal problema é estar conotado com o FC Porto, onde construiu uma grande carreira de jogador. O facto de estar na pele de portista e de homem do Norte não afecta o seu cargo?
- Homem do Norte? O que sou é um homem de Portugal. Não embarco nesse tipo de designações ou rótulos. Estou na selecção para a servir da melhor forma possível. Tenho outro argumento. Também optei pelos jogadores do FC Porto porque é o clube, dos chamados três grandes, que mais apostou, na última época, nos jogadores portugueses.
SELECCIONADOR SEM VÍNCULO
- Que tipo de vínculo possui com a Federação Portuguesa de Patinagem. Tem contrato por quantos anos?
- Quando aceitei o convite da Federação falaram-me de um projecto para quatro anos. Mas não assinei qualquer vínculo. Tanto eu como a FPP temos liberdade total. É melhor assim. Quando alguém não estiver satisfeito, cessa a ligação.
- Mas isso não é uma situação estranha? Não provocou polémica junto de outros treinadores, porventura com ambições de também orientarem a selecção nacional?
- Isso não me preocupa. Recebi uma carta da Associação de Treinadores e pouco mais. De resto, estou muito bem acompanhado na equipa técnica da selecção a todos os níveis. Da preparação física à metodologia de treino. As teorias não me interessam muito. De resto, no hóquei em patins não há razões para se colocarem as coisas nesse plano. Ao contrário do basquetebol ou do voleibol, só temos um curso de primeiro grau, onde apenas ensinam às pessoas os aspectos básicos. E esses, já os domino todos, em virtude da minha longa actividade como jogador.
- No hóquei em patins, os treinadores das principais equipas e os seleccionadores têm sido todos antigos jogadores de eleição. O seu caso, agora, não constitui excepção. É o empirismo levado ao extremo...
- Isso é verdade. Antes de mim estiveram neste cargo figuras brilhantes da modalidade com o Júlio Rendeiro, o António Livramento, o Cristiano e o Jorge Vicente. Mas na NBA, por exemplo, também não é assim? E o mesmo não acontece no futebol? Gostem ou não, um ex-jogador tem outra sensibilidade, entende melhor questões crucuais como a condução de homens, sabe medir o pulso aos atletas no balneário. Essas coisas não se aprendem nas aulas teóricas.
- Como é que caracteriza o hóquei que se joga actualmente? Não escasseiam os chamados artistas?
- O jogo, agora, está mais físico. A velocidade aumentou muito e os rinques mantêm as mesmas dimensões. Concordo que, actualmente, a força impera sobre a técnica. As equipas estão mais bem preparadas fisicamente e, por conseguinte, defendem melhor. Mas não concordo que escasseiem os chamados artistas. O que acontece é que o jogo está mais colectivo e os predestinados não têm tanto destaque.
- Mas os adeptos não possuem, nos tempos que correm, uma identificação tão grande com os grandes atletas de outrora. Os Livramentos, Cristianos, Rendeiros, Chanas, etc, não levavam muita gente aos rinques?
- A idolatria é um processo cíclico. Se calhar, daqui a uns anos, alguém irá dizer que já não há jogadores como os de agora, referindo nomes como os do Vítor Fortunato, Paulo Almeida, Guilherme Silva e outros.
- Quais foram os ídolos da sua juventude?
- Fundamentalmente dois. O já falecido António Livramento e o Cristiano, este último também pelo facto de ter sido um modelo como jogador portista e do Norte.
- A finalizar, como está a formação de jogadores em Portugal? Trabalha-se bem ou mal?
- Considero que se continua, de forma global, a trabalhar bem. E cito o exemplo do Paço de Arcos, um clube que tem efectuado um excelente trabalho ao nível da formação de jogadores. Penso que temos uma retaguarda segura em termos de futuro.
MODALIDADE REGREDIU
- Em termos de expressão internacional, a modalidade continua circunscrita a um reduzido número de países, só tendo dimensão competitiva em Espanha, Portugal, Itália e Argentina. Quando é que sentiu que o hóquei em patins poderia ter dado o “salto”?
- Em finais dos anos 80 e inícios de 90, o hóquei em patins atravessou um momento de grande expansão, o qual culminou com a entrada nos Jogos Olímpicos de Barcelona como modalidade de exibição. Nessa altura parecia que as coisas iam para a frente, poderiam evoluir. Estranhamente, aconteceu o inverso. A modalidade regrediu após Barcelona'92.
- Como é que estão as coisas actualmente?
- Em termos de mero interesse competitivo, só em Portugal, Espanha, Itália e Argentina é que há de facto hóquei de qualidade.
- Mas deixámos de exportar jogadores...
- Isso é verdade. Agora são os clubes portugueses que importam hoquistas estrangeiros. E isso apenas significa que o actual Campeonato português é o mais interessante da Europa. Não é por acaso que os bons jogadores começaram a vir para Portugal, como são os casos dos irmãos argentinos Panchito e Mariano Velasquez, e de outros.
COMEÇO NA GINÁSTICA
- Quem é que lhe colocou no corpo o vício do hóquei em patins?
- Foi o meu pai que, quando tinha eu nove ou dez, anos me levou para o hóquei em patins da Académica de Espinho. Nessa altura ele era director da secção e a minha entrada no clube acabou por ser muito fácil. Mas o hóquei em patins não foi a primeira modalidade que pratiquei.
- E qual foi então a primeira?
- Foi a ginástica desportiva, era então um menino com quatro ou cinco anos. A Académica de Espinho tinha uma boa secção, chegou a ficar em terceiro lugar nos Campeonatos Nacionais. Mas depois o meu pai obrigou-me a escolher. E acabei por optar pelos patins. Comecei na ginástica para acabar no hóquei.
- Não teve desejo de experimentar outros desportos?
- Não, com a idade a paixão pelo hóquei em patins foi sendo cada vez maior. Isto apesar de Espinho ser uma terra de voleibol e de muitos jovens optarem por esta modalidade, que aqui é muito popular. Mas gosto de outras modalidades, como são os casos do voleibol, basquetebol e do futebol.
OS RIVAIS
PORTUGAL: "Ostenta como principal vantagem a grande experiência e qualidade dos seus jogadores, os quais formam, porventura, o plantel mais valioso da competição. Rotinado a defender homem-a-homem, Portugal terá de apresentar outras soluções tácticas quando se encontrar em situação de inferioridade no marcador."
ESPANHA: "A Espanha vai apresentar uma selecção renovada, mas com jogadores extremamente rodados e experientes, como são os casos do Ramon Benito e do Alberto Borregan. Vão aparecer na Suíça com uma grande 'sede' de vitórias, pois há três anos que já não ganham nada. É sempre uma formação muito perigosa e ambiciosa."
ITÁLIA: "Será um opositor muito perigoso, devido à sua imprevisibilidade. A Itália forma um conjunto desconcertante, capaz do melhor e do pior. Tacticamente, é a única selecção que na defesa utiliza o sistema zona. E também possui bons hoquistas, como são os casos de Orlando, Riga, Cunegatti e mesmo Mirko Bertolucci."