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David Grachat: «Nasci assim e não sei viver de outra forma»

David Grachat: «Nasci assim e não sei viver de outra forma»

RECORD - Começou a nadar bem cedo. Ainda não se fartou da água?

DAVID GRACHAT – Não!

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+ Como é que a natação surgiu na sua vida?

DG – Não foi amor à primeira vista. Adoro a água, mas não era o desporto que eu mais gostava. Eu gostava muito do futebol e jogava numa equipa. Até que houve um ano em que me portei mal na escola e a minha mãe meteu-me de castigo e tirou-me do futebol, mas continuei sempre na natação. Passados alguns anos, comecei a ter resultados a nível nacional e a ser chamado para ir às Seleções. A partir daí passei a gostar mais da natação e foi uma paixão que se manteve até hoje.

+ Era um miúdo rebelde?

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DG – Muito, não parava quieto!

+ Se não tivesse nascido com essa malformação seria nadador?

DG – Não sei. Nasci sem uma mão, aprendi a viver sem ela e nunca imaginei como seria a minha vida se tivesse as duas mãos. Certamente seria diferente, mas nunca imaginei como seria.

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+ Faz uma vida normal?

DG – Completamente normal.

+ Nunca o impossibilitou de fazer algumas coisas?

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DG – Fiz sempre tudo, às vezes com mais dificuldades, mas sempre com o apoio familiar e dos amigos. Isso ajudou-me a ultrapassar os obstáculos que tinha pela frente. Ensinaram-me a fazer as coisas e hoje sou completamente autónomo.

+ Considera-se um exemplo de superação?

DG – Sim [hesita]. Eu digo: custava mais se eu tivesse perdido um membro do que ter nascido sem ele. Nasci assim e não sei viver de outra maneira. Sempre me consegui superar. Sempre que há uma dificuldade consigo superá-la com mais ou menor dificuldade. Se sou um exemplo de superação? Penso que sim! Há coisas que são difíceis e muitas vezes as pessoas perguntam: ‘Como consegues atar os sapatos?’ ou então ‘como é que consegues cortar o bife só com uma mão?’. Vamos aprendendo e vamos superando.

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+ E consegue fazer isso tudo? Cortar o bife e atar os sapatos ?

DG – Sim. O que é engraçado é que os funcionários notam que eu não tenho uma mão e já vem o bife cortado lá de dentro [risos]. É um gesto bonito e eu agradeço. Tenho menos trabalho. Nas piscinas as crianças perguntam também o que tenho no braço. Digo que foi um tubarão que comeu ou que a minha mão ficou na barriga da mãe.

+ Voltando à carreira. Apanhou uma grande desilusão em 2004...

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DG – Eu estava a começar. Era muito jovem, mas tinha a ambição de me apurar para os Jogos Olímpicos de Atenas. Estava a trabalhar para isso e tinha o meu treinador a incentivar-me constantemente nesse sentido. Consegui os mínimos com duas semanas de atraso. Sempre disseram que estava tudo bem e que eu ia. Tinha sempre aquela expectativa de ir, até que saiu a convocatória e vi que não estava lá o meu nome. Passei mal e chorei muito. Lembro-me de estar sentado a ver os meus colegas partir e eu a chorar em casa no sofá. Mais uma vez, fiz das fraquezas forças e disse para mim que veria pelo sofá. Foi um ano de muita visibilidade dos Jogos Paralímpicos.

+ Foi uma lição de vida…

DG – Sem dúvida. Percebi que não podia tomar nada por garantido e que tinha de lutar até ao fim. E assim foi.

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+ O David é treinador. A história que acabou de me contar passa-a aos mais novos?

DG – Sim. Estamos numa altura em que as redes sociais falam mais alto. Muitas vezes os mais jovens não estão tão disponíveis para sofrer. Antigamente não havia grandes distrações e estávamos lá sempre a dar tudo para conquistar o nosso lugar. Tento passar a mensagem de que para sermos bons naquilo que fazemos temos de trabalhar e empenharmo-nos. Temos de sair de consciência tranquila que demos o nosso máximo e que no futuro vamos recolher os louros.

+ Que relação que tem com o treinador?

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DG – Para ter uma noção, o meu treinador é o meu padrinho de casamento. O padrinho é aquela pessoa que vemos como um segundo pai, aquela pessoa que está sempre lá quando precisamos. É essa relação com o meu treinador. Estamos há 20 anos juntos enquanto treinador e atleta. É uma relação de confiança mútua e muito trabalho.

+ Qual o ponto mais alto da carreira ?

DG – A primeira medalha internacional. Foi num Europeu em 2009, medalha de prata nos 400 livres. Mas a representação nos Paralímpicos é sempre um ponto alto. Ganhei também duas medalhas em Campeonato do Mundo, Uma de bronze em Glasgow e outra de prata no México, em 2017.

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Por Rafael Godinho
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