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Carolina João: «Fui ‘largada’ num barco»

• Foto: Direitos Reservados

Record – Como é ser velejadora?

Carolina João – Psicologicamente, é muito exigente porque competimos muitos dias seguidos. Enquanto noutros desportos vão a prova um ou dois dias, na vela são seis. E seis dias a competir acaba por ser, não só fisicamente desgastante, como psicologicamente. E nesse aspeto é um pouco difícil de gerir.

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R – Diz-se que a sua classe, particularmente, é bastante exigente...

CJ – É verdade, no laser radial, comparativamente a outras, há imensa gente a competir. Como é o barco mais barato da campanha olímpica, é muito mais acessível a todos os países. Por isso, todos os países têm várias tripulações, o que faz desta classe a mais competitiva. Noutras modalidades da vela olímpica não há tantos velejadores. Depois há que sublinhar também que é um barco fisicamente exigente porque é muito simples, só tem uma vela, o que faz com as diferenças de velocidades sejam mais pequenas e andemos todos ‘à luta’.

R – E sente que a vela tem tido a devida atenção em Portugal?

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CJ – Tivemos uma geração muito boa há uns anos e conseguimos medalhas nos Jogos. Infelizmente, seguiu-se um período não tão bom e a vela caiu um bocadinho. Neste momento, as várias instituições estão a tentar fazer um esforço para que a modalidade seja mais notada e, de facto, parece-me que já estão a colher frutos nesta campanha. Não esquecer que, devido à crise, também terá havido menos pessoas a quererem juntar-se. É um desporto tão giro, que eu valorizo tanto, mas tenho consciência de que é um desporto muito caro. E acredito que tenha havido uma queda grande nos últimos anos.

R – Isso é algo em que pense? Preocupa-se com cativar novos talentos?

CJ – Muito. Penso que as entidades competentes estão a fazer os possíveis para dinamizar e trazer os ‘miúdos’ para a vela. No que puder ajudar, ajudarei, porque sou apaixonada por este desporto e sou daquelas que chateia toda a gente para o experimentar. Amigos, família, ando sempre a tentar arranjar malta.

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R – Como é que a convenceram? De onde veio esse ‘bichinho’?

CJ – Também é uma história curiosa. Em pequenina, com oito anos, fui largada num barco completamente sozinha. Adorava aquilo porque sentia que era a rainha daquele barco. E a vela, para além de ser um desporto muito giro, faz-nos crescer também enquanto pessoas, traz-nos um conjunto de coisas de que precisamos... e naquela altura deu-me uma independência gigante. Comecei a competir com 10 anos e a ir para as provas apenas com o meu treinador, sem os meus pais e quando somos pequenos tudo isto dá-nos uma independência muito grande. Cresci muito com este desporto.

R – A vela é um desporto tipicamente familiar. Foi a sua família que a "largou" num barco?

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CJ - Na minha família foi tudo ao contrário. Ninguém andou à vela, tinha apenas um tio que se interessava mas ninguém fez competição. Tudo começou quando passámos a ir de férias a Espanha. O meu irmão começou a andar, gostou muito e disse ao meu pai que queria ir para a vela. Lembro-me que o meu pai me perguntou se também queria ir e eu disse prontamente que não. ‘O rio é sujo, tem alforrecas... aquilo é horrível’ dizia eu, e então o meu irmão foi sozinho. Mas comecei a vê-lo regressar muito feliz dos treinos e decidi, então, voltar com a minha palavra atrás [risos]. ‘Se o Miguel vai, eu também vou’. Agora, o meu irmão é treinador e bem lhe posso agradecer porque se hoje ando é graças a ele. Grande parte dos velejadores portugueses têm uma tradição familiar por trás, mas no meu caso não foi assim, foi apenas o meu irmão que me puxou.

R – Apesar de ser, naquela altura, muito nova, começou-se a construir cedo o sonho de chegar longe?

CJ - Sempre fui uma pessoa que odeia perder, sempre fui muito competitiva. Desde o começo que dou o meu melhor e sonho alto. 

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Por Rita Pedroso
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