Diogo Ribeiro e o Europeu de Paris: «No nível em que estou, já não posso ficar satisfeito com qualquer tempo»

Diogo Ribeiro
• Foto: FPN

Diogo Ribeiro nadou duas finais nos Europeus de Paris, ambas com recorde nacional. Este domingo nos 50 metros livres, depois de ter sido quinto nos 50 metros mariposa.

A Record falou da final deste domingo, bem como do balanço que faz dos Europeus e dos próximos objetivos.

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Record - O que se pode dizer da final dos 50 metros livres?

Diogo Ribeiro - Mais uma vez, não sei se tive sorte ou se tive azar, fiz um grande tempo. Na minha cabeça com este tempo [21.59] até estaria a lutar pelo pódio, mas esta foi a final mais rápida de sempre nesta prova. As minhas provas estão num nível astronómico neste momento em que para fazer pódio, tens de ficar ali a cinco décimos do recorde do mundo. É uma coisa que nunca se viu antes na natação. Estou super feliz. Foi uma prova muito bem conseguida desde o princípio até ao fim. Se sinto que não dei tudo, não foi por não dar tudo, mas foi ali, se calhar, no ‘breakout’, devia ter rompido a água mais cedo, mas, mesmo assim, acho que foi uma prova muito bem conseguida. Acho que acertei tudo o que tinha para acertar. Houve momentos que até fechei os olhos para ver se conseguia mais força, outros em que a visão ficava assim meio turva. Mas estou super contente. E lá está, como disse, quando deixamos tudo de nós na água, não há como ficar triste. Sensação de dever cumprido neste Europeu. Que venha o próximo Mundial, no próximo ano, o Europeu e a seguir os Jogos Olímpicos.

 R - Falou em alguns detalhes  mas, mesmo assim, fez 21.59 segundos, recorde de Portugal?

Diogo Ribeiro - No nível em que eu estou, já não posso ficar satisfeito com qualquer tempo. Foi o que eu disse ao meu treinador. Estava em risco de não vir ao Europeu, porque quando vou a uma competição deste nível, um Europeu, um Mundial ou nos Jogos, é para estar lá bem e é para tentar lutar sempre por uma medalha. A verdade é essa. Por mais que não digamos em entrevistas e às pessoas que vão perguntando. É sobretudo para evitarmos aquilo que vem a seguir, caso haja provas não bem conseguidas. De qualquer forma, neste momento, estou num ponto da minha carreira em que começo a perceber e a ver a natação de outra forma. Já é o meu trabalho a 100%. Mas acho que já estou a ficar um bocado mais maduro naquilo que é entender o tempo, entender o porquê que foi aquele tempo. Se foram cinco centésimos acima, se foram centésimos, o porquê? Onde é que falhei? Onde é que posso melhorar? Quando era mais novo, nem pensei que ia estar nestes níveis. Por acaso, antes da prova estava a comentar com os meus colegas de Seleção que é engraçado pensar na altura que recebi o meu primeiro fato no Natal, disse à minha mãe: 'Mãe, é mesmo isto que eu quero'. Sei que é difícil, na altura acho que eram 250 ou 295 euros, e lembro-me da minha mãe dizer que é difícil, mas que ela ia ver. E depois pensava que nem ia receber e recebi o fato. E hoje em dia, estamos numa posição em que podemos ter os fatos que quisermos, não pagamos. Mas sinceramente, o que me faz mais feliz é poder estar com estes atletas, aprender novas coisas destes atletas, não só os atletas de todo o mundo, mas os atletas da nossa Seleção. Até dos atletas que não vão à Seleção em Portugal, para entender as novas novas estratégias, estatísticas e tudo. Acho que podemos aprender sempre um bocado com os outros. Não é por um não se qualificar, o outro qualificar ou por um ser campeão do mundo ou por um fazer recorde regional que não há sempre alguma coisa para aprender. Não falo só de natação, mesmo na vida.

R - Duas provas com recordes, duas finais, está 100% satisfeito?

Diogo Ribeiro - Eu ainda estou estupefacto com esta final [50 metros livres]. Acho que ainda não caíram em mim os tempos que aconteceram nesta final. Foi uma coisa absurda o que acabou de acontecer. 21.50, há uma ou duas edições atrás era medalha nos Jogos Olímpicos e agora estamos aqui a falar de sete atletas para 21’’ 50, é uma coisa astronómica que eu ainda estou a tentar perceber. Agora se queremos chegar lá, às medalhas, sempre que venho cá quero lutar por isso, temos que lutar. Cada eliminatória, cada meia-final, cada final, não é para brincar. Aqui, mesmo na eliminatória, tens que dar tudo, se não tens o risco de ficar de fora. Estou muito feliz pelo que tenho feito na minha carreira até aqui, não só como atleta, mas especialmente como pessoa, como ser humano. O meu foco sempre foi agradar às outras pessoas e estou a perceber que, às vezes, não importa o quanto tentes agradar às outras pessoas, vai haver sempre alguma coisa mal. E estou agora a aprender a pensar naquilo que eu quero fazer, naquilo que eu gosto, naquilo que eu me sinto bem. E estou feliz por começar a pensar assim. Estou feliz por ter a família que tenho, a apoiar-me, mesmo nestes momentos difíceis, neste ano que foi muito difícil para mim e para a minha família. Estou feliz pelos meus treinadores, que também não foi um ano fácil para eles, sempre a levar comigo em cima. Agradecer a essas pessoas que estão sempre lá presentes, o staff todo, os meus colegas de treino no CAR Jamor. Acho que tem sido uma jornada incrível. Agora quero pensar nas férias. Não sei quando volto. Não sei se volto rápido, se volto devagar. Mas agora estou focado em fazer uma pausa e aproveitar um pouco daquilo que perdi durante muitos anos. Mas tenho a certeza que isto não é o fim. Não quero que seja o fim. E tenho a certeza que vou voltar. E quando voltar, vou trabalhar outra vez para melhorar os meus tempos todos.

R - Após estes Europeus, vai com a mente mais leve para as férias?

Diogo Ribeiro - Eu, neste Europeu, sobretudo, aprendi uma coisa muito importante, que é uma coisa que eu nunca tinha percebido. Eu sou sincero, a minha cabeça durante este ano todo, em 2026, não esteve nos treinos, não esteve na natação, esteve em outras coisas na minha vida pessoal. E, mesmo assim, agora é que me apercebo que eu chego aqui e consigo corresponder aos objetivos, até melhores para mim, pelo menos para mim. E tenho a certeza que para os meus treinadores, 21"50 era uma marca que nós já sabíamos que queríamos há muito tempo. Eu até digo que, no Nacional de Coimbra este ano, eu pensava que eu ia fazer 21’’ 20. Acabei por fazer 21’’ 90 à rasca. Agora chego aqui e faço duas vezes 21’’ 70 e 21’’ 50 numa prova em que eu não estava nada à espera. Trabalhei, mas o que eu trabalhei não foi nem de perto o que eu trabalhei nos outros anos. E é isso que eu aprendi: a cabeça manda em tudo. Eu tive uma guerra muito grande contra a minha cabeça este ano, em 2026. Mas sinto que cheguei aqui e consegui ganhar esta luta. Estou muito satisfeito, volto a repetir, peço desculpa, mas estou mesmo muito, muito, muito satisfeito comigo mesmo, com a minha cabeça. Estou supercontente por ir agora de férias (risos).

Por Marco Martins
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