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Foi já de madrugada, depois de 6 horas ao volante pelas estradas da Califórnia, que Hugo Vau respondeu a Record. Nascido e criado em Lisboa, há 17 anos apaixonou-se pelos Açores e foi para lá que se mudou, de mala e prancha, respondendo a um anúncio pedindo mão-de-obra para a pesca. Falta só dizer o mais importante. Nas horas vagas, viaja até onde há ondas grandes. Hugo Vau foi o primeiro português nomeado para os World Surf League Big Wave Awards, prémios internacionais de ondas grandes. Não ganhou mas ficou perto.
Entre as cerca de 800 ondas nomeadas a concurso, o surfista de 37 anos ficou nas cinco finalistas. "Fiquei feliz, apesar de não ser o meu objetivo quando vou surfar", diz Vau, que faz parte da equipa de Garrett McNamara. "Temos o objetivo comum de nos divertirmos, surfarmos as maiores ondas de sempre e, mais que tudo, regressar a casa em segurança", conta.
Depois da viagem pela Califórnia, onde marcou presença na gala dos XXL Awards, Hugo regressa à ilha Terceira, nos Açores, onde gere a empresa Gigante Expeditions. "A aventura começou há 17 anos quando comecei a viajar para os Açores e a explorar as ilhas em busca de novas ondas. Numa dessas viagens conheci a Terceira, pela qual me apaixonei e onde há seis anos acabei por passar uma temporada maior. Obviamente que precisava de ter uma atividade nesse tempo que permitisse a minha subsistência, pois as ondas e o surf satisfaziam a alma, mas não pagavam as contas. Foi então que vi um anúncio que pedia mão-de-obra para pesca profissional", avança.
Juntamente com a mulher, comprou um barco com cerca de 58 anos, o "Gigante", que recuperaram integralmente durante um ano e três meses. "Foi um grande desafio para um casal nascido e criado em Lisboa", recorda. Atualmente pesca de forma profissional apenas no inverno, para garantir as descargas em lota. Nos meses de verão, com os turistas, faz pesca mas com uma "vertente e sensibilização ecológica". "Desenvolvemos atividades ligadas à natureza e ao mar, desde passeios e pesca de barco, trilhos pedestres, surfguide, birdwatching e passeios de jipe pela Terceira", enumera.
Apesar de não viver sem o mar, este "pescador-surfista" não tem quaisquer raízes ou antepassados ligados ao mar. "Esta paixão nasceu cedo e veio de dentro da alma de uma criança, portanto paixão mais pura não há. Limitei-me a seguir esse sentimento e tornei-me naquilo que sou hoje, um homem do mar, que vive de e para o mar", diz ainda.
COMO FOI A ONDA FINALISTA DO XXL?
Foi um momento mágico. Parecia que a onda estava pré-destinada. Poucos minutos antes tinha sido rebocado pelo Garrett para uma das maiores da sessão, e na qual Benjamin Sanchis protagonizou o wipeout do ano. Mas por não estar na posição ideal não consegui descer a onda. No entanto disse ao Garrett : ‘Se não foi esta, era porque não me estava destinada. Vamos esperar por uma gigante, sinto que o mar vai enviar a ‘minha’ onda!’. E poucos segundos depois surgiu uma montanha no horizonte, fiz sinal ao Garrett que era aquela mesmo... e arrancámos. Larguei a corda e consegui surfar, partindo por detrás do pico até ao canal...