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Pete Sampras já entrou para a história do ténis ao ser o único jogador a conquistar 14 títulos do Grand Slam, mas este ano a sua actividade no circuito profissional vai ficar associada ao facto de ter mudado de raqueta pela primeira vez em 17 anos, mantendo-se, no entanto, fiel à sua marca, a Wilson.
Enquanto a grande maioria dos jogadores de topo mundial muda quase todos os anos de raqueta por exigência das marcas, ligando pouco importância aos modelos, no caso de Pete Sampras a sua "teimosia" durou precisamente 17 anos. A força intimamente ligada ao controlo da bola combinaram na perfeição para "Pete Pistol" não prescindir de usar a Wilson Pro Staff 6.0 85, uma raqueta que os especialistas dizem ser extremamente dura.
A mudança para Sampras - que na pré-temporada chegou a testar raquetas de outras marcas - não será assim tão evidente. A Wilson comprometeu-se a arranjar um modelo próprio para o recordista dos torneios do Grand Slam e o que vai fazer a diferença é a área de batimento. Antes, Sampras jogava com uma raqueta de 85 polegadas e agora vai tentar conquistar o 15º titulo do Grand Slam com uma raqueta cuja área de batimento é ligeiramente maior: 90 polegadas.
As explicações para a mudança têm a ver com a força que era preciso fazer para bater na bola. "O ano passado já tive muitas dores no braço", queixou-se Sampras, compreendo que a nova raqueta até o pode ajudar a melhorar a eficácia do seu jogo assente no serviço-rede. "Já sei que não voltarei a ter a mesma raqueta que quando fui número um do Mundo, entre 1993 e 1998. Já jogava com ela há 14 anos", observou o vencedor do US Open em 2002.
Pete Sampras já deverá utilizar o novo modelo da Wilson no regresso ao Tour, no Siebel Open, que começa a 10 de Fevereiro, em San Jose, California e, mais uma vez, terá a seu lado o inseparável encordoador Nate Ferguson, que se ocupa das suas raquetas desde 1990, viajando com ele para os principais torneios.
O homem do braço-de-ferro
O australiano Roy Emerson foi considerado o homem de braço-de-ferro no ténis. E isto muito simplesmente porque viveu a sua juventude numa grande quinta com os seus pais em Blackbult, a 200 quilómetros de Brisbane. Para ajudar os seus pais mugia regularmente 160 vacas, o que, ao fim de alguns anos, fez com que ele tivesse uma grande força no braço e utilizasse uma raquete com uma pega enorme. Dizem as crónicas da altura que os seus adversários até tinham algum receio em lhe apertar a mão no final do encontro. Mesmo que "Emmo" não fizesse muita força, aquela mão, impunha respeito. Traduzido isto para o ténis de competição, Emerson foi dos jogadores mais completos até aparecer Pete Sampras (14 títulos no Grand Slam). Ainda hoje é o jogador com o segundo maior número de títulos no Grand Slam (12).
Quem privou de perto com Roy Emerson é disso testemunha. Foi o caso de João Lagos que o chegou a defrontar em pares em Roland-Garros e que lhe apertou a mão várias vezes. "De facto, a mão dele era uma tábua. O Emerson era um atleta de eleição, bastante completo. E não era o único nesse tempo", diz Lagos.
BJORN BORG - Donnay Pro - A marca belga ficou com a sua imagem ligada à ascensão de Borg, que conquistou os seus títulos do Grand Slam com raquetas de madeira. Borg utilizava tensões de 40 quilos e partia cordas com muita frequência. Em Roland Garros chegou a partir cordas de 60 raquetas em duas semanas! Por força dos seus contratos publicitários, Borg utilizava Donnay na Europa e raquetas da marca Brancroft no Japão, Canadá e Estados Unidos. Tinha um encordoador pessoal, o sueco Mats Lafman, em Estocolmo. Quando viajava transportava cerca de 20 raquetas e, às vezes, a meio da noite, o treinador acordava com o som de uma corda partida, tal era a tensão posta nas cordas. Nunca deixava as raquetas expostas ao Sol ou perto do ar condicionado.
JIMMY CONNORS - Wilson T-2000 - A ligação de Connors ao famoso modelo da Wilson T-2000 quase se assemelha a uma paixão. Foi com esta raqueta de aro metálico que "Jimbo" viveu os seus melhores momentos da carreira. Durante 10 anos foi feliz e nunca pensou que um dia esta raqueta saísse do mercado. A industria, porém, encarregou-se do "divórcio", a raqueta deixou de ser comercializada e Connors teve de socorrer-se de vários pedidos. Os seus adeptos mandavam-lhe raquetas Wilson T-2000, que depois eram acertadas com os padrões da competição. Mas, como tudo tem um fim, no início dos anos oitenta, o "Furacão do Texas" foi obrigado a separar-se. "Foi como se me tivessem cortado o braço esquerdo."
JOHN MCENROE - Dunlop Maxply Fort - Foi durante anos a fio considerada a "rainha das raquetes". John McEnroe foi o jogador modelo da marca até à introdução da era da grafite, que desenvolveu posteriormente raquetes com o seu nome, as célebres Max 200G. A Maxply Fort foi lançada no mercado em 1954 e durou até metade dos anos oitenta. Dizem as estatísticas que foi a raquete com o maior número de títulos em torneios do Grand Slam: 213 vitórias. "As madeiras eram cuidadosamente escolhidas. Provinham de árvores de freixo, de macieira ou de nogueira da América do Norte. A Dunlop era fabricada na Inglaterra, África do Sul e Austrália", disse-nos o seu representante em Portugal, Appleton Figueira, um coleccionador de raquetas antigas.
BERNARDO MOTA - Puma Pro - O tenista português chegou a ser conhecido no circuito por, em determinada altura, ter atrás da linha de fundo uma raqueta. Chegava a utilizar uma para servir e outra para responder. Foi um período algo confuso devido à "crise" por que passou com a escassez de raquetas do modelo Puma Pro, que utilizou durante dez anos consecutivos. Estas raquetas eram os seus "filhos" e Mota chegou a comprar raquetas a pessoas, escreveu para a Puma internacional a pedir raquetas, o "manager" de Boris Becker, Ion Tiriac, ainda lhe ofereceu cinco, mas um dia assaltaram-lhe a garagem e roubaram-lhe todas as raquetas. Ficou frustrado e chegou a pensar em mandar fazer um molde, mas garantiram-lhe que o modelo original fora destruído e que a cópia não seria a melhor solução, além de ser muito caro (125 mil dólares).
Raquetas do século XXI
A raqueta faz alguma coisa e a publicidade o resto. A Head chama-lhe a raqueta "inteligente" e a palavra-chave é utilizada nestes termos: "Raqueta inteligente; melhor jogo."
O novo modelo representa um corte radical com o passado em termos de materiais e de concepção com a introdução do tal "chip" electrónico que ajuda a corrigir erros técnicos, proporcionando ao jogador um extremo conforto.
De qualquer maneira e em face do passado, estas raquetas são as mais adequadas aos jogadores regulares e de idade mais avançada do que propriamente em relação aos de competição, que continuam a preferir as raquetas mais convencionais que asseguram velocidade e controlo da bola.
Sabia que?
1 - Em Wimbledon, o torneio mais conservador entre os Grand Slam, a utilização das raquetas de madeira durou até mais tarde. 1988 foi o primeiro ano em que não se jogou com raquetas de madeira.
2 - Ilie Nastase foi o primeiro jogador a quebrar uma longa série de vitórias consecutivas do argentino Guillermo Vilas, em 1977, utilizando uma raqueta com cordas duplas, provocando golpes inesperados. Rapidamente foi abolida e proibida de ser utilizada.
3 - A raqueta de madeira de Jack Kramer - apontado como o pai do ténis profissional - foi introduzida no mercado, em 1948, e teve vendas superiores a 10 milhões de unidades. Recentemente a Wilson fez uma série limitada e numerada que rapidamente esgotou.
4 - Jack Kramer, hoje com quase 80 anos, ofereceu duas dessas raquetas autografadas com o seu nome ao jogador de golfe, Jack Nicklaus, e ao antigo presidente dos Estados Unidos, George Bush, um grande entusiasta do ténis.
5 - A Dunlop Maxply Fort foi outro exemplo de estrondoso sucesso no mercado, sendo a raquete de madeira mais vendida no Mundo até à adopção e introdução da grafite nos anos oitenta. Ainda hoje, a Dunlop tem uma pequena oficina em Inglaterra onde se fabricam raquetas Maxply Fort para os marajás na Índia. Preços rondam os 400 euros.
6 - A madeira recomendada para a feitura das raquetas era de freixo branco dos Estados Unidos, Canadá ou das florestas francesas de Pas-de-Calais. Os modelos eram compostos por várias lâminas, que eram depois trabalhadas e soldadas a uma pressão de várias toneladas.
7 - O processo de construção das raquetas de madeira obedecia nesse tempo a várias operações algo morosas. Até à saída para o mercado, tornavam-se necessários 33 dias e 154 operações para se obter uma raqueta.
8 - O engenheiro Howard Head foi o responsável pelo "boom" de novos conceitos, tendo criado, em 1977, a raqueta com um aro maior (110 polegadas), o que foi considerado a primeira grande transformação desde os primórdios do ténis. A "Prince Pro" foi o melhor exemplo.
9 - No final dos anos oitenta foi criada pelo alemão Siegfried Kuebler, um inventor e poeta que trabalhou no desenvolvimento de mísseis, a raqueta de perfil largo. A espanhola Arantxa Sanchez foi a primeira jogadora a ganhar um torneio do Grand Slam (Roland Garros, em 1989) com uma raqueta com perfil largo, a Slazenger Sillouette.
10 - A única tripa utilizada no fabrico das cordas é a de carneiro, e isto porque não foram satisfatórios os ensaios feitos com as tripas de boi e de porco. Para se fazer uma corda com o comprimento de 10,50 m, torna-se indispensável abater 6 carneiros!