Volvo Ocean Race: Mulheres sem medo

Volvo Ocean Race: Mulheres sem medo
• Foto: Pedro Simões

Uma circum-navegação ao globo é uma aventura fantástica, que apenas os mais destemidos conseguem concretizar. Mas nem mesmo Fernão de Magalhães, o primeiro a empreender tal projeto, conseguiu sair vivo da aventura, morrendo na expedição em 1.521, no século XVI. Muita coisa mudou desde os Descobrimentos, ao nível tecnológico e de mentalidade, mas a vida a bordo continua a ser uma experiência no limite, onde ninguém pode recuar. Nem mesmo uma tripulação exclusivamente feminina, como a do veleiro SCA, que disputa a regata Volvo Ocean Race (VOR), cuja frota está, até domingo, na Doca de Pedrouços, em Lisboa.

"Não gosto da palavra medo, porque se tivesse medo não faria parte desta equipa. Há momentos com muita tensão e nervos, mas nunca me passou pela cabeça ficar em casa. É uma oportunidade única para estas mulheres, pois desde há 12 anos que não existia uma tripulação feminina na VOR. Estamos a diminuir a diferença de experiência em relação aos homens nas regatas transoceânicas", explicou a holandesa Carolijn Brouwer, uma das 11 mulheres que navegam no veleiro.

PUB

Tal como Magalhães, o barco sueco encontrou situações complicadas na Terra do Fogo, na América do Sul.

"A etapa entre Auckland, na Nova Zelândia, e Itajaí, Brasil, foi muito dura, porque encontrámos condições climatéricas diferentes de qualquer outro lugar no Mundo. Situações que não se podem treinar. Enfrentámos ondas enormes, ventos muito fortes, perdemos a vela maior que nos fez falta para o resto da etapa. Foi horrível. Os sistemas de baixa pressão fazem com que tudo mude repentinamente", descreveu Brouwer, de 41 anos, olímpica nos Jogos de Sydney’2000, Atenas’2004 e Pequim’2008.

Mas perante tantas dificuldades, o que leva uma mulher a trocar o conforto do lar pelo mar revolto? A holandesa, que viveu 10 meses em Lisboa e fala fluentemente português – parte da infância foi passada no Brasil com os pais, também velejadores –, não vacilou:"No oceano encontramos a Natureza em estado puro, respirando e sentindo uma liberdade única. Natureza e competição são a minha paixão. A vela faz parte da minha vida", justificou Brouwer, com um sorriso transparente como os seus olhos azuis.

PUB

O grande obstáculo é conciliar a VOR com a vida familiar:"Deixar o meu filho de 4 anos para trás custa-me. Mas concentro-me nas chegadas, fazendo com que o barco ande mais rápido. Tem uma ama que é como uma segunda mãe, dando o amor que ele precisa. Ele está a aprender, com uma educação muito diferente mas cheia de oportunidades. Ele não tem cama fixa. Viaja pelo Mundo para nos encontrarmos. Desta vez, quando o vi, ofereceu-me um delicioso pastel de Belém", revelou a mãe babada.

Treino durou ano e meio

Num veleiro com homens, o patrocinador elege um skipper e este escolhe pessoas da sua confiança. No SCA foi diferente, pois a tripulação é uma seleção de 400 entrevistadas. As escolhidas treinaram ano e meio em Lanzarote, testando o barco e os condicionalismos da vida a bordo. Uma velejadora trabalha 4 horas, descansa outras tantas, altura em que come alimentos desidratados, faz a sua higiene e dorme 2 horas. Depois, volta ao trabalho no convés.

PUB

NÚMEROS

7 - É o número de quilogramas que uma velejadora pode perder de peso corporal numa regata.

12 - São as toneladas de peso do veleiro SCA, que tem ainda uma capacidade para 1.100 litros de água no interior do casco, para equilibrar o barco.

PUB

13 - É o total de velejadoras que fazem parte da equipa SCA, mas apenas 11 competem em cada etapa, sendo feitas substituições devido a lesões.

30 - Altura em metros do mastro do veleiro, que suporta uma vela principal com 163 m2.

Deixe o seu comentário
PUB
PUB
PUB
PUB
PUB