É tempo de balanço.
O fim de uma época desportiva convida sempre a reflectir, medir, comparar os resultados alcançados com os resultados desejados.
Vencedores ou vencidos precisam de avaliar o desempenho em toda a dimensão do projecto, seja no seu foco principal, a prestação desportiva, seja na função acessória, mas determinante para o sucesso, que é a vertente financeira.
Não há boa gestão desportiva sem uma sólida gestão financeira, da mesma maneira poderemos dizer que não há boa gestão financeira se for conseguida por sacrifício dos resultados em campo.
É neste equilíbrio que se encontrará a chave para o êxito.
Em Portugal o conformismo capturou a ambição, alguns até se congratulam, com vendas fabulosas de direitos desportivos a clubes estrangeiros. Quase que representam um segundo campeonato entre os grandes, saber quem conseguiu o maior volume de vendas e quem conseguiu a venda mais elevada.
São, claramente, falsas conquistas. Quando vendemos os melhores estamos também a vender o futuro, o futuro onde gostaríamos de encontrar o sucesso.
Alguns dirão que é inevitável porque somos pequenos, não somos! Só somos pequenos quando pensamos pequeno, quando abdicamos da vontade de vencer.
Quem abdica de vencer está condenado a perder.
Fará esta época 20 anos desde que um clube português venceu a "Liga dos campeões". E fez 12 anos desde que um clube, o mesmo FCP, venceu a Liga Europa.
Curiosamente, ou não, nos últimos 20 anos a selecção portuguesa apresentou-se sempre extremamente competitiva, alcançando os melhores resultados de sempre, conquistando o Campeonato Europeu de 2016 e o segundo lugar em 2004. Este desempenho é o testemunho do grande valor dos jogadores portugueses, jogadores que, infelizmente, jogam em clubes estrangeiros.
Formamos jogadores, formamos homens, formamos os melhores do mundo, mas não os conseguimos manter em Portugal. É uma realidade que nos deve fazer pensar, pelo menos parar e reflectir.
Todos sabemos que as transacções de jogadores envolvem muitos milhares de milhões de euros, são grandes verbas que animam o mercado de agenciamento e toda a indústria que se move paralelamente ao futebol.
São valores tão elevados que não encontram qualquer paralelo nas outras actividades económicas. Valores que podem fazer cair em tentação quem tem de gerir uma tesouraria quase sempre deficitária, onde as despesas chegam primeiro que as receitas. Mas, não se pode confundir o principal com o acessório, os clubes de Futebol (SAD´s) existem para ganhar jogos, conquistar títulos, não é para vender "passes" de jogadores.
E é, não raras vezes, uma falsa solução. A venda do passe de um jogador importante pode representar um desafogo momentâneo na tesouraria, mas pode ser um grande cavalo de Tróia que, lá dentro, apresenta uma pesada fatura. Veja-se o exemplo da venda de Mateus Nunes no início da época que agora terminou.
O Sporting encaixou cerca de 40 milhões de euros, mas acabou em quarto lugar, sem acesso à Champions onde tinha recebido, pela participação em 2021/2022, cerca de 46 milhões.
O valor da venda de Mateus Nunes foi anulado pelo afastamento da Champions para 2023/2024.
Comparando o peso da venda de direitos desportivos, vulgo passes, no volume de receitas dos clubes portugueses com os de outros clubes de referência pela Europa, verificamos que nos estamos a afastar ao invés de aproximar das boas práticas.
Em Portugal o peso da venda de passes no total da receita varia entre os 32% e os 42% (Benfica – 42%, Porto – 36% e Sporting 32%, valores da época 2021/22), no Manchester City é praticamente irrelevante, sendo que a receita com direitos televisivos representa cerca de 50% da receita total, cerca de 300 milhões em 569 milhões.
Os exemplos que nos chegam dos clubes vencedores mostram à evidência que a principal fonte de receita é a que resulta do seu principal objecto: conquistar o sucesso desportivo proporcionando um grande espectáculo de futebol.
As vendas de passes de jogadores são instrumentais, fazem parte de ajustamentos naturais das equipes, mas não são nem podem vir a ser um objectivo.
A análise comparada entre os três maiores clubes portugueses e os três dos maiores clubes da europa, nomeadamente o real Madrid, o Bayern Munique e o Liverpool, é muito esclarecedora.
Nos últimos 10 anos os três clubes portugueses registaram um saldo positivo, entre venda e compra de passes de jogadores, de mais de Mil Milhões de Euros, assim repartidos: Benfica 731 milhões; Porto 437 milhões e Sporting 324 milhões.
Em sentido Contrário, os três grandes da Europa registaram um défice entra compras e vendas de Mil milões de Euros (Real Madrid -126,65 M; Bayer Munique -411M e Liverpool -441M). É um défice que representa mais investimento, ou seja, gastaram mais no reforço das equipas do que o valor realizado pelas vendas.
O Sinal é muito claro, enquanto os três grandes de Portugal apostaram na venda de passes, os 3 maiores da europa apostaram no reforço do plantel.
Os resultados desportivos não deixam margem para quaisquer dúvidas, os 3 grandes da europa ganharam 8 "Champions League" em 10 anos, enquanto os portugueses não ganharam nada, absolutamente nada em matéria de competições internacionais.
Do ponto de vista financeiro também não há mérito que justifique as opções tomadas, o somatório dos resultados de exploração dos últimos cinco anos, dos três grandes, é de menos 19 milhões de euros, tendo o Benfica um resultado positivo de 38 milhões, o Sporting um resultado negativo de 4 milhões e o Porto um resultado negativo de 53 milhões.
Mais do que as palavras, a dureza dos números mostra à evidência que a venda de passes de não é solução, é recurso, pode ser uma necessidade, mas não pode ser um objectivo.
Por Nuno Correia da Silva