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A alma criativa de William

A alma criativa de William

Leonardo Jardim está a apetrechá-lo com sentido tático e a agregar-lhe ciência para esfriar a paixão exacerbada pela glória. Aos 21 anos, é uma figura do Sporting e do futebol português. Não tarda será o novo Yaya Touré do futebol mundial...

1 O médio-centro pode ser estrito, posicional, gerador de equilíbrios e garante da segurança; pode acrescentar à eficácia a mais-valia de uma liderança a partir da qual a equipa desenvolve a sua organização e defende segredos posicionais e de funcionamento; e pode também ser um talento superior disfarçado de funcionário que, jogando à frente da defesa, desempenha papel orientado pelo instinto criativo, assumindo o desígnio de pôr a máquina a funcionar desde zonas mais recuadas. William Carvalho é herdeiro da estirpe que fez evoluir a função e a dignificou nos últimos 30 anos, uma longa dinastia da qual fazem parte, entre outros, Guardiola, Redondo, Paulo Sousa, Xavi, Pirlo e Busquets, figuras marcantes da história do futebol, que jamais aceitaram reduzir-se a meros empregados de limpeza.

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2 Ao contrário de outros, que só existem para pôr fim aos intentos agressivos do adversário, William é a génese da construção e de muitas decisões com efeito prático no coletivo. Pode escolher se joga curto ou longo; para trás, para o lado ou para a frente; mais depressa ou mais devagar; seguindo a lógica da circulação criteriosa ou de lançamentos fraturantes para as costas da defesa. Mas falta-lhe agressividade de recuperador e disponibilidade total para sacrificar-se como defesa mais adiantado. Tendo vocação e talento para integrar qualquer grupo de trapezistas, deve entender que, em certas ocasiões, o papel que lhe está destinado é o de rede que ampara o voo dos outros; alguém que, sendo referência da ação defensiva, está obrigado, entre ter e não ter a bola, a fechar com firmeza a porta da grande área.

3 Para quem defende que o futebol começa no médio-centro, William é um projeto fascinante. Como número 6 que tem sido nesta época de afirmação ao mais alto nível em Portugal, beneficia de experiências anteriores como 10 e 8. É um jogador com potencial infinito, que transporta para função eminentemente defensiva o saber e o raciocínio de quem está habilitado a cumpri-la com imaginação e criatividade. Para início de conversa impôs-se de leão ao peito; para acentuar a esperança de um futuro grandioso, Paulo Bento acaba de convocá-lo para a Seleção Nacional, dando sinal inequívoco de que é ele a primeira alternativa a Miguel Veloso.

4 William percebe a dinâmica do jogo e antecipa boa parte dos acontecimentos em cadeia que lhe estão adjacentes, razão pela qual chega primeiro à bola e interceta sucessivas linhas de passe. Porque tem alma de artista, nem sempre avalia a importância de uma falta feia ou de um pontapé para a bancada; porque tem elegância e classe a mais para assumir a totalidade do trabalho sujo, revela por vezes défice de vigor, contundência e convicção nos duelos individuais. A experiência funcionará como apelo à sensatez que traz equilíbrio e travará o ímpeto para atos heroicos fora do contexto; Leonardo Jardim está a apetrechá-lo com sentido tático e a agregar-lhe um toque de ciência para esfriar as paixões mais exacerbadas pela glória. Um dia tudo se conjugará. Aos 21 anos, William é uma figura do Sporting e do futebol português. Não tarda será o novo Yaya Touré do futebol mundial.

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Lucho é enorme em menos tempo

Estão à vista os fundamentos de Paulo Fonseca para as mexidas no miolo portista

Lucho não tem o fulgor físico de outros tempos mas mantém a classe, o talento, a influência, a visão e o poder de síntese dos predestinados. Numa função com menos responsabilidade defensiva, que lhe exige um tipo de esforço menos violento, El Comandante surge mais disponível para fazer a diferença na zona de definição, onde a qualidade para executar o último passe é mais preciosa. O jogo de Guimarães disse-nos também que, para ser decisivo e desequilibrador, não precisa de estar 90 minutos em campo. Uma hora pode ser suficiente para exercer e estar na base da vitória portista.

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CR7 tem jogado como nunca o fez

Há jogadores a quem a estatística, por mais exuberante que seja, nunca fará toda a justiça

Cristiano Ronaldo tem jogado como nunca mas é por estar a marcar na mesma proporção do futebol exibido que tem arrebatado elogios aos adeptos mais céticos e o reconhecimento de muitos daqueles que não morrem de amores por ele. A figura universal de um dos melhores jogadores da história do futebol constitui a maior esperança para a presença de Portugal no Mundial do Brasil. O momento de CR7 é tão exuberante e especial que, por circunstâncias várias, cumpriu o primeiro terço da liga espanhola com 16 golos. Precisamente o dobro de Lionel Messi, o outro deus dos relvados.

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Todo o talento de Ruben Amorim

É mais difícil o reconhecimento de grandes estrelas quando não têm uma imagem associada

Há futebolistas que resolvem jogos medíocres com um toque de magia e que a televisão perpetua com repetições exaustivas. Muitas vezes não é justo reduzir hora e meia a um segundo de inspiração. Mas são essas as leis do mundo em que vivemos, mesmo reconhecendo que se trata de uma visão mentirosa da realidade. Vejamos a dificuldade de Ruben Amorim. Para enaltecê-lo com o esplendor que merece, é preciso ver hora e meia do jogo em Atenas – o que é excessivo. Ou ver a primeira parte do dérbi. Ou medir a preocupação benfiquista agora que estará ausente nas próximas semanas.

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