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1 Há uma luz que o acompanha em campo, sendo que, nos melhores dias, há mesmo fogo-de-artifício a estrepitar à sua passagem; ao brilho do que os olhos veem junta-se então o som de plateias rendidas à surpresa dos magistrais golpes de magia e ao modo como satisfaz a inteligência com a perfeita execução do senso comum. Jonas vive segundos adiantado aos factos e, por ser um excecional leitor de indícios, pensa cinco toques à frente; a participação no bordado, feita de tabelas e fintas que aproximam a equipa do golo, serve também para acumular veneno e descarregá-lo quando a bola lhe volta aos pés, mais à frente, a implorar por um último toque. É um génio de armas subtis, encantador por vocação, que impressiona companheiros, público, jornalistas e até adversários. Toda uma construção cujo efeito mais relevante é camuflar a verdadeira natureza de assassino profissional.
2 Sem espírito nem físico para caçador solitário entregue a lutas desiguais com feras sem pudor, não tem perfil para ser efeito sem causa, isto é, decidir do nada, sem a contribuição dos outros. Mas é um atacante milagroso porque, integrado nos mecanismos instituídos da equipa, não só acrescenta soluções para todos os gostos como também multiplica a produção de quem o rodeia. No seu padrão criativo, por técnica, habilidade, influência, espontaneidade e abrangência, há elementos que remetem para João Vieira Pinto: genial, imprevisível, intenso, tanto mais perigoso quanto a equipa for capaz de se unir para dar eficácia ao ataque posicional. Quase tudo ao contrário de Rodrigo, o seu antecessor, mortífero em deslocamentos mais amplos, que o tornam perfeito para um jogo direto e feito de transições.
3 Talvez por isso, por extrair o máximo de si próprio com a equipa virada quase em exclusivo para a frente, o Benfica seja tão deslumbrante e esmagador na Luz e tão suscetível de expressar-se na plenitude longe do lar. Não será por acaso que, analisando os 22 golos de águia ao peito, Jonas apontou 14 em casa (repartidos por 11 jogos) e só 8 fora (em apenas 6). O brasileiro é um futebolista de exaltação perpétua, que navega ao sabor de uma esplendorosa maturidade, precisamente porque mantem o entusiasmo juvenil de toda a vida e a impertinente convicção de ser grande naquilo que faz. A influência diferenciada exercida na produção coletiva não tem a ver com os 31 anos mas com o estilo de sempre – está ainda longe de suscitar o sentimento de injustiça quando um artista entra na reta final da carreira.
4 Jonas é um prodígio iluminado por uma auréola de inocência, que se movimenta com malícia e trata a bola com o esmero de quem guarda um tesouro nos pés. Nessas ações em que purifica sistematização e ordem com virtuosismo e magia contagiantes, revela articulação motora perfeita e o deambular enigmático que lhe permite passar por zonas de altíssimas tensões, cheias de barreiras eletrificadas, com minas e armadilhas espalhadas por todo o lado, como se estivesse a passear no quintal de casa. Avançado com descaramento, convicções, talento e pontaria, deu ao Benfica versatilidade e contundência nos processos ofensivos. Por tudo quanto tem feito, está a construir na Luz um império grandioso pelo futebol que oferece mas também pelos afetos criados junto dos adeptos. É um jogador de outra dimensão, candidato a estrela maior da época 2014/15.
Tanto Quaresma frente ao Estoril
Raras vezes uma individualidade é tão influente na produção coletiva e no resultado final do jogo
Quaresma pintou a manta com o Estoril e o Dragão sublinhou a demonstração de classe daquele que é o seu herói mais querido. Sem exibicionismos, Harry Potter foi brilhante a cumprir tarefa estritamente futebolística, que passou por dois golos, duas assistências e uma surpreendente demonstração de liderança. Mas mesmo sem recorrer a devaneios artísticos que só a ele são permitidos, o extremo portista tirou um coelho da cartola: isso de pôr Óliver a marcar um golo de cabeça não é para todos.
Tobias Figueiredo procura eficácia
Há lances nos quais se torna fácil exemplificar a diferença entre inexperiência e maturidade
Tobias Figueiredo é tremendo no jogo aéreo. Em P. Ferreira assinou dois momentos espetaculares em ação ofensiva: chegou primeiro, saltou mais alto e parou no ar, com tanta exuberância que, numa visão cinematográfica, pareceu o único jogador em movimento. Para Angel Cappa, treinador argentino, "o atleta quando chega acaba e o futebolista quando chega começa". Porque só tem 21 anos, basta ao jovem central refletir sobre o conceito do discípulo de Valdano. O tempo encarregar-se-á de apetrechá-lo com armas para, em breve, dar à beleza e às boas intenções a virtude da eficácia.
CR7 é fenómeno para a história
O tempo e a obsessão defensiva deram ao golo o valor da raridade. Até surgirem CR7 e Messi
Ronaldo resolveu de uma penada a relação conturbada com os adeptos do Real Madrid. Levantou-se bem-disposto, despertou com os sentidos em alerta, inspirou-se com a manhã de sol e deu largas ao talento: jogou como um deus, marcou como um predador. Cinco golos no total, feito sem precedentes na sua já longa carreira. É incrível que, na sexta época em Madrid, já tenha ultrapassado mitos como Hugo Sánchez, Puskas e Santillana, estando a 8 golos apenas de Di Stéfano e a 23 de Raúl, que ocupa o topo da lista. Um fenómeno para a história do futebol.