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A dura ironia do destino

A dura ironia do destino

Lucho González é um grande jogador. Um dos melhores que passou pelo futebol português na última década. As suas qualidades desportivas e pessoais sempre geraram consenso entre os amantes do futebol em Portugal. Com ele, o meio-campo do FC Porto ganha outra dimensão, inteligência, passes de qualidade e uma liderança que se impõe de um modo quase que natural. Não é por acaso que o apelidam de El Comandante.

É difícil não simpatizar com Lucho, por tudo aquilo que já vimos dele. Na passada terça-feira, em Zagreb, tivemos mais uma prova do seu caráter e brio profissional. Num momento de enorme transtorno emocional para o jogador, ao saber do falecimento do pai, o argentino pediu para jogar. Mesmo em sofrimento, o atleta sentiu forças para entrar nas quatro linhas e arrancar para um jogo notável, coroado por um golo, tal e qual havia prometido ao progenitor.

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Por mais exemplar que seja um jogador, a notícia da morte de um familiar ou amigo é algo que mexe com o seu íntimo. Não jogar seria compreensível. Deve ser dos últimos lugares em que se quer estar durante aquele momento de dor. Porém, a entrada em campo acaba por ter um significado extra. É um ato de revolta, um refúgio da dor e uma oportunidade de homenagear aqueles que acabaram de nos deixar.

Um treinador dificilmente abdica de um jogador nestas condições. Sabe que o atleta se encontra fragilizado psicologicamente, mas que, por outro lado, se apresenta com os índices de motivação a 300%. Além disso, este tipo de notícias “mexe” com todos os jogadores da equipa, tornando o grupo mais solidário e fortalecendo o jogo coletivo.

A equipa do FC Porto uniu-se em redor do seu capitão. E Lucho respondeu à altura com uma exibição personalizada, em que assumiu o controlo das operações no centro do terreno e não se inibiu de ir à frente para aparecer em zona de finalização e assistir os companheiros. Foi um motor de alta rotação que ajudou o coletivo a aumentar a sua produtividade.

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No final da partida, Lucho González referiu ter vivido “um momento em que vieram muitas coisas à cabeça”. Sei bem do que ele fala. Nos meus tempos de futebolista, nos anos 80, foi precisamente contra o mesmo adversário, o Dínamo Zagreb, momentos antes de entrar em campo, que tive conhecimento do falecimento do meu pai. Estava no Sporting e terá sido o dia em que fiz, provavelmente, um dos melhores jogos da minha vida.

Os jornais da época falaram numa exibição fabulosa. E uma frase minha ficou célebre depois do jogo. Por todas as razões e mais algumas, esse dia teve um significado muito especial para mim. No momento, surgiu-me um conjunto de sensações: um misto de raiva, desgosto e talento. Ainda hoje, várias pessoas que se cruzam comigo e gostam de futebol, independentemente da sua cor clubística, recordam essa partida em que marquei 3 golos.

São momentos que marcam. Que guardamos na memória. E por mais que o tempo passe, não conseguimos esquecer. Uma partilha de sentimentos, onde o profissionalismo e a genialidade se envolvem de uma forma irrepetível. Os campeões, além da sua qualidade e preciosidade, também sabem libertar lágrimas. E por isso Lucho merece ainda mais a nossa admiração.

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