A estética preguiçosa de Talisca

A estética preguiçosa de Talisca

1 - Gregório Marañón, intelectual espanhol do século passado, não pensava em pontapés na bola quando encontrou a definição perfeita para relativizar a importância de uma das características mais aclamadas do futebol: “A velocidade, que é uma virtude, cria um vício, que é a pressa”. A técnica individual poupa tempo à execução e talvez seja esse o ponto de partida para fazer as coisas depressa e bem. Talisca é daqueles que nunca se deixaram seduzir pelo cronómetro porque, não sendo corredor de 100 metros, é capaz de voar com a bola nos pés. Ao contrário de outros, que se entregam a exercícios de choques e correrias desenfreadas, orientados pela urgência de chegar primeiro, ele confia no instinto e prefere sempre chegar melhor.

2 - Prova de que os grandes jogadores nunca têm pressa, porque a velocidade é inimiga da precisão e os craques envergonham-se com erros desnecessários, o primeiro golo do Benfica na Amoreira confirmou o desfasamento entre as pernas com motor a gasóleo e a inteligência que funciona à velocidade do som. Talisca tem dotes de ilusionista que desestabiliza a rotina, mas não rejeita a lógica do condutor que cumpre o senso comum; desequilibra nas imediações da grande área, mas faz o que deve nas zonas neutras. Porque o seu talento se expressa pela via do engano e da mentira, quanto mais adiantado no terreno mais perigoso se torna. Aí, toma decisões contrárias às que sugere, como se vivesse em sintonia diferente dos outros. Só fala verdade quando não tem alternativa – e esse momento costuma chamar-se golo.

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3 - Recebeu a bola de costas para a baliza do Estoril, ainda no meio campo do Benfica; virou-se e acelerou para escapar à fúria de um adversário cujo instinto foi travá-lo a qualquer preço; quando se desembaraçou dele, iniciou longa viagem que parecia condenada ao fracasso; em contramão numa autoestrada pintada de amarelo, em vez de encostar para não infringir mais regras de trânsito, prosseguiu o slalom, desviou-se como pôde e continuou a galgar terreno. Quando deu por ele estava a chegar ao destino; percebeu nesse instante que não fazia sentido fugir mais e entendeu que chegara a hora de consumar o crime perfeito: baixou as pulsações e, porque já não tinha fôlego nem para correr nem para pensar, fez o que a ocasião justificava: um golo inesquecível.

4 - Talisca assenta numa estética preguiçosa, que recusa os méritos do sacrifício demagógico e da vertigem da velocidade. É apenas uma característica do padrão criativo de quem transporta ideias maquiavélicas para desestabilizar o jogo e aniquilar o adversário à mais leve distração. Porque o futebol caminha para a uniformização metalúrgica, como se as equipas fossem fábricas de produção em série, o instinto dos grandes talentos está em risco de ser triturado em nome de segurança, equilíbrio e eficácia. Talisca rema contra a corrente e prescinde dos derivados mais relevantes da modernidade (urgência, agressividade, potência...) para iluminar o palco à custa de requintes só ao alcance de artista sublime. Com jogadores assim, o adepto pode ficar descansado: continuará a ter obras-primas para alimentar as emoções.

A retribuição de André Gomes

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Há jogadores que só precisam de um clique para fazer explodir o talento que possuem

André Gomes nunca foi titular absoluto do Benfica. Era reconhecido como jovem de potencial ilimitado mas não foi aposta definitiva do seu treinador, razão pela qual a saída para Valência não foi golpe duro na solidez das águias. As notícias que têm surgido apontam, desde o início, para o reconhecimento consensual sobre as suas qualidades. Acaba de integrar a equipa do mês de setembro da liga espanhola. A história repete-se: quando recebem provas de confiança e são reconhecidos por quem os rodeia, os talentos retribuem com futebol superior.

Urreta não era daquele filme

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Foi um verdadeiro extraterrestre na merecida vitória do Paços de Ferreira sobre o Belenenses

Urreta assinou hora e meia fabulosa. Nem parecia daquele filme. Se ninguém o conhecesse, todos desejariam contratá-lo; para quem o conhece menos bem, fica a eterna dúvida sobre o que lhe falta para jogar numa equipa grande. Com todo o respeito e admiração pelo P. Ferreira, a balança pendeu para o lado de quem tinha o melhor jogador. O golo que marcou foi um monumento de inspiração divinal. Simples mas deslumbrante. No fim, explicou que, mal recebeu a bola, já sabia o que ia fazer. Prova de que os génios, por norma, estão centésimos de segundo à frente de gente normal como nós.

Grande arranque de Leonel Pontes

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O Marítimo cilindrou o V. Guimarães, colocando-se atrás do Benfica e ao lado do FC Porto

Honra ao mérito de Leonel Pontes, que está a construir uma equipa temível, principalmente quando atua no seu reduto – três vitórias em outros tantos jogos, 8 golos marcados e só um sofrido. Mas o sucesso parcial dos insulares começa a ser preenchido com nomes próprios, desde logo Fransérgio, que já leva 4 golos e lidera o prémio Record para melhor jogador da Liga, a par de Gaitán. Nas listas dos jogadores em maior destaque no arranque da época estão também Salin, Ruben Ferreira, Danilo Pereira e Edgar Costa, sinal de que o Marítimo pode tornar-se um outsider a ter em conta.

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