_
Hoje, podemos apregoar à viva voz o sol que tão pouco dura na predestinada carreira dos treinadores chamados a encabeçar os célebres projetos futebolísticos no nosso país.
Precipitámos os fogos quando, à oitava jornada, constatámos surpreendentemente a ausência de despedimentos na primeira liga. Caso único desde a longínqua temporada 2002-2003. Apressámo-nos a encontrar prerrogativas estratégicas, a procurar diferenças de comportamento e a avançar com o nascimento de uma nova vaga de mentalidades projetistas sem ligação à tradicional e vigorosa técnica do chicote.
Pois é, por vezes, a única surpresa surge mesmo da grande capacidade lusitana para surpreender ainda mais. Vejamos: concluídas 17 jornadas (com um jogo ainda por realizar) da principal liga de futebol profissional, estão já consumadas 11 mudanças de treinador. Na época desportiva anterior, ao cabo de 25 jornadas registavam-se apenas mais três mudanças, ou seja, no início do mês de abril tinham-se registado 14 alterações de liderança entre o grupo de 18 equipas daquele campeonato.
Isto significa, tendo em conta que no período homologo a segunda liga já apresenta também uma marca muito interessante de 14 mudanças de técnicos, que talvez estejamos apenas a ser nós próprios e a agir de acordo com a nossa particular cultura desportiva.
Se assim é, deixemos então para segundo plano a questão recorrente dos despedimentos e debrucemo-nos mais atentamente sobre a dança de treinadores. Poderá até parecer uma abordagem circular, contudo se pensarmos nas verdadeiras implicações disruptivas dos valores da justiça causados por esta onda de despedimentos levianos, observamos que nos deparamos com uma ameaça verdadeiramente assustadora.
É claro que o despedimento de um trabalhador preocupa, mas o que se poderá dizer sobre um técnico abandonar o comando de uma equipa num dia, no dia seguinte ser o timoneiro de outra equipa do mesmo campeonato e que, por mera e infeliz coincidência, a sua anterior equipa e o seu novo emblema se defrontam no fim de semana seguinte?
Demos conta desta ocorrência na semana transata na segunda liga e vimos assinalando situações semelhantes no futebol português ao longo desta e das épocas anteriores. Quando pensamos e exaltamos os valores positivos do desporto. Quando afirmamos que a competitividade é um bom indicador das provas com qualidade. Quando reconhecemos que o futebol deve ser uma festa, um espetáculo com forte impacto social e de agregação familiar, também temos de ser capazes de avaliar se esta rotação inebriante de treinadores concorre para o desenvolvimento global da modalidade.
Na verdade, parece difícil encontrar respostas que justifiquem esta apetência dos dirigentes desportivos para a constância da mudança. Estudos mostram-nos os efeitos efémeros das "chicotadas psicológicas" que na generalidade não ultrapassam as duas a três jornadas ou jogos seguintes de discutível sucesso. Por outro lado, aos treinadores também será difícil entrar e conduzir uma locomotiva já em andamento, sabendo que o chefe da estação poderá fácil e rapidamente voltar a fazer cair a cancela antes do final da viagem.
Já para a competição em si, é com grande habilidade que se poderá disfarçar as consequências eticamente reprováveis e até as questões morais implicadas no facto de termos na lapela do mesmo líder vários emblemas ainda muito lustrosos.
Ainda que muita pela rama, alguns indicadores são aparentemente reveladores: médias de assistência incomparavelmente inferiores às ligas europeias mais competitivas, campeonatos com diferenças abissais entre os tradicionais candidatos a vencer sempre, médias de golos e tempo útil de jogo francamente nivelados por baixo e clima irremediavelmente hostil sem qualquer interesse para a promoção do espetáculo.
De facto, o caminho percorrido com artimanhas como a mudança dos técnicos, ao invés de nos trazer o conforto da esperança num trabalho que resultará num melhor futebol para todos, remete-nos para a desmotivação do mais do mesmo e, como se vê, vai afastando sem retorno aqueles que valorizam o jogo e a competência dos que o tornam um espetáculo cada vez mais digno.
Salvaguardadas as devidas distâncias inerentes aos diferentes contextos, parece-me legitimo que o futebol seja capaz de requerer para si cada vez mais capacidade de resposta a todas as ameaças à sua raiz humanista assente nos valores olímpicos da excelência, amizade e respeito sem diferença. Nesse sentido e à semelhança de outras atividades será mais justo promover soluções de nojo temporário como a impossibilidade de assumir o comando técnico de equipas da mesma competição por um determinado período de tempo, do que permitir a dúvida moral de confundir liderança com chefias interessadamente avulsas, tendo como maior premissa não obstar a qualquer liberdade do direito ao trabalho, mas sim a defesa intransigente da honra da classe e de um desporto limpo e assente nos valores da justiça e da igualdade.
Por Pedro Peres