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ARTE – Domina gama tão variada de dribles e é tão perfeito a enganar os adversários que não está dependente do físico para prosseguir a rota nos caminhos estreitos e povoados de acesso ao golo. Quaresma tem a magia da finta incorporada; quando finge que vai fazer uma coisa e faz outra, o defesa fica tão longe e desequilibrado que a única solução para o travar é pedir ajuda a outro; esse corre o mesmo risco do companheiro anterior, e assim sucessivamente... Naquele futebol feito de magia, o risco maior é o seu próprio entusiasmo, acentuado pela juventude, de criar maior empatia com a bola e a plateia do que propriamente com a equipa e o jogo.
EXUBERANTE – No dia da estreia como titular na I Liga, Ricardo Quaresma marcou no primeiro minuto e protagonizou, até ao intervalo, um dos mais exuberantes recitais de que há memória no futebol português. Devia estar envergonhado, à procura de ajuda, pedindo aos companheiros para não se esquecerem dele, mas contrariou a lógica e acabou por obrigar a equipa a centralizar a criação ofensiva na sua arte. E se na primeira parte o casamento foi perfeito, depois do intervalo esteve muito acima da produção colectiva. Merecia ter sido ele o herói do fim-de-semana, mas os árbitros não deixaram.
GOLO – No manual das reclamações não existe alusão aos casos em que a bola entra na baliza e nenhum elemento da equipa de arbitragem dá por isso. É um caso extremo, definitivo na influência sobre o resultado, importante de mais para admitirmos sequer a possibilidade de acontecer. Não se trata de um erro de interpretação, como no Farense - Belenenses, em que Hassan, partindo de posição irregular, fingiu mal uma falta transformada em "penalty" escandaloso, ou da falta para expulsão de Pinho sobre Mantorras que o árbitro transformou em amarelo. Em Guimarães, Deco marcou um golo que não valeu e todos nos sentimos pequenos por não termos meios para repor a justiça. Incluindo o árbitro.
ALUCINAÇÃO – Apesar de enquadrado nos mesmos parâmetros, este erro não chega para desalojar do topo da lista das indignidades da história recente do futebol português o lance marcante do já longínquo Belenenses - Benfica da época de 1997/98: golo sancionado a Edgar sem que a bola tivesse entrado na baliza de Valente. Mesmo que o efeito prático tenha sido o mesmo - alterou grosseiramente o resultado do jogo - os dois momentos estabelecem uma diferença fundamental entre a distracção fatal (não ver o que devia ter sido visto) e a alucinação pura e simples (inventar o que, de facto, não aconteceu).
POLÍCIA – No Bessa, depois de derrota consentida frente ao Marítimo, falou-se de roubo, Deus, Jardel, Ministério Público e Judiciária. Acusações que têm menos a ver com a certeza dos prejuízos provocados pelo árbitro e mais com alertas sobre alegados factos da véspera. E para que o fim-de-semana ficasse mais composto de casos estranhos, ainda houve um jogador do Gil Vicente que viu o cartão amarelo por duas vezes e ficou em campo até ao fim. Chamem a polícia, dizem eles - e talvez tenham razão. Mas tragam um psicólogo, acrescento eu, cada vez mais convencido de que estamos todos a ficar loucos.