A opção arriscada pelo empatezinho

Estava em Madrid à conversa com o João Marcelino e com o Sérgio Figueiredo e facilmente nos pusemos de acordo quanto à estratégia que José Peseiro devia adoptar para não perder a partida da Luz e ser, muito provavelmente, campeão nacional: jogar ao ataque desde o primeiro minuto e tentar marcar cedo um golo. Parecia-nos óbvia essa opção. Mas se é a táctica que deve servir a estratégia, quando vi que Pinilla ficava no banco – e ia entrar em campo uma equipa que já não tinha Liedson – percebi para que lado estava voltado o técnico leonino: para as cautelas e caldos de galinha. Um tiro de Petit, um raio de geniozinho de Simão, uma aberta inventada por Nuno Gomes ou uma molhada com Luisão – tudo eram ameaças capazes de, mesmo até ao cair do pano, dar cabo dos planos do nosso bom Peseiro. E a verdade é que o Sporting não criou oportunidades claras de golo, não esteve ao seu nível, conteve as forças para poder ficar esta noite na história europeia. Se calhar, pedir aos jogadores verdes-e-brancos para entrarem “a abrir” era pedir de mais nesta altura da época. Talvez fosse mesmo preciso agarrar o empate. Mas a sorte, que inegavelmente – com falta de Luisão ou sem ela (sem ela, pareceu-me) – sorriu ao Benfica, só protege os audazes.

Luisão

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Tanto mal se escreveu e se disse do rapaz e, afinal, ele é um gigante. Sim, só uma girafa dessas podia subir como subiu ao nível das nuvens para perturbar o guardião contrário, enredá-lo na neblina e arrumar a bola na baliza sem interessar sequer se foi mesmo ele quem a meteu lá dentro. Luisão tornou-se numa mais-valia do plantel do Benfica – conseguirá o clube mantê-lo em Lisboa? – e a sua altura é de facto um trunfo, a limpar a sua área e a profanar com perigo o espaço aéreo do adversário. Pesadão? Lento? Tosco? Sempre lesionado? Ora, ora, quem é que já se recorda desses mimos... Hoje, Luisão, “capitão sem braçadeira”, já conquistou todos os anéis da Luz. E até dos arredores.

Ricardo

0 guarda-redes do Sporting é sensível às críticas como qualquer mortal, embora eu tenha a opinião de que as leva demasiado a sério. Não devia. Eu já expliquei aqui que vi jogar dois dos maiores dez guarda-redes portugueses de todos os tempos – José Pereira e Costa Pereira – que foram também dois frangueiros de se lhes tirar o chapéu. Como qualquer guardião de nível internacional – veja-se os casos de Oliver Kahn ou de Vítor Baía – Ricardo está sujeito a falhar e já se sabe que, ao contrário do que sucede com todos os seus companheiros, quando falha o homem que toma conta da baliza já não há ninguém atrás dele para lhe salvar a pele. Nem sei se foi Ricardo a falhar no sábado, só sei que ele é mesmo bom. Ponto final.

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Couceiro

Lá do alto da Torre das Antas, no mais reservado canto da sua mente brilhante e imprevisível, Pinto da Costa assopra ainda o fogo mortiço de uma última réstia de esperança: talvez o atarantado Boavista derrote o Benfica, talvez a libertada Académica não pregue mais uma partida ao Porto... Depois de ter considerado o Sporting como futuro campeão nacional, o País talvez pulse hoje mais forte com o “regresso” do Benfica à glória 11 anos depois. Mas não está preparado para o tremor de terra de um eventual insucesso benfiquista e para o ressurgimento mediático do presidente portista... três treinadores depois de Mourinho e mais agressivo do que nunca. Mas sabem uma coisa? José Couceiro merecia esse momento de glória.

Amo-te Sporting!

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O relator desportivo Jorge Perestrelo – de cuja narrativa futebolística devo confessar que nunca fui grande entusiasta – despediu-se de nós com uma lição absolutamente magistral. Dizem-me amigos comuns que o Jorge tinha um feitio difícil, sabe-se que não cuidava muito de si, confidenciava-se que a vida não era para ele um sorriso. Aliás, Portugal não tem dimensão para Perestrelos, para Rangéis, para La Férias, para Mourinhos e para muitos outros que recusam viver dentro da lata do cinzentismo e do que parece bem, e se arriscam a deitar a cabeça de fora. Inveja-os e persegue-os com uma sanha implacável. Bem, mas foi muito bonito ouvir o JP, um homem do Benfica, um profissional isento mas não indiferente, a fazer, na TSF, o relato do jogo dos leões em Alkmaar e a gritar após o golo de Miguel Garcia – por dever profissional, é certo, mas também com uma emoção genuína e arrebatadora – qualquer coisa parecida com “Sporting, te amo, te amo!” Chama-se a isto morrer em combate, no campo da honra. E cair de pé. É em sua homenagem que este belenense, modesto e indefectível como me orgulho de ser, estará hoje, de alma e coração, com o Sporting – e pronto a amá-lo como se fosse meu. E exijo uma contrapartida: logo, às 21 horas, quero sentir-me no Céu.

Belém

Só posso estar errado ao achar que o Belenenses teve esta época um rendimento abaixo das suas possibilidades. Mas todos parecem satisfeitos com o 8.º lugar e com o trabalho de Carvalhal, pelo que o erro deve ser meu. O que é certo é que bastava ao “Belém” ter vencido apenas um dos jogos que perdeu em casa – com o Gil Vicente, por exemplo – e ter ganho um dos dez (!) desafios em que baqueou fora – com o Estoril, por exemplo – para entrar agora na última jornada a discutir a 5.ª posição com o Vitória de Guimarães. Mas não, o equilibrado plantel do início da temporada parece afinal não ser grande coisa e os veteranos foram chamados a ocupar o lugar dos novos... Mistérios da bola e do azul.

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