A perfeição segundo Marco Silva

1 A Taça de Portugal é apenas um pormenor: o Sporting 2014/15 confirmou que o futebol é muito mais do que uma questão de ganhar ou perder. É jogar ou não jogar; defender um estilo e um modo de estar ou defender rigorosamente nada; ter uma estética e um conceito ou apostar no resultado e na sorte. Mesmo sem experiência de nunca ter convivido com a pressão muitas vezes insustentável num grande clube, Marco Silva soube gerir os elementos fundamentais para a avaliação de um treinador: não oscilou perante o mediatismo do cargo; fortaleceu o discurso e transmitiu imagem de competência, coerência, inteligência e razão para o exterior. No meio das tempestades por que passou foi um timoneiro sereno, seguro e conhecedor; o líder aglutinador em quem todos confiaram; e o mestre com poder de persuasão sobre os jogadores, muitos deles melhorados para sempre pela sua intervenção. 

2 Se o futebolista vive a dificuldade de dar concertos sem partitura, reconheçamos que os do Sporting, quando sobem ao palco, não têm dúvidas: atuam segundo uma linha clara e um estilo identificável; formam um exército assente em convicções inabaláveis, convicto de que não há obstáculos inultrapassáveis. MS construiu equipa à imagem das suas tendências plásticas, unida à volta da bola, com opções compreendidas, aceites e aprovadas por quem lhe dá forma, primeiro passo para que todos acreditem nas suas potencialidades - valores que explicam, em última análise, boa parte do que aconteceu na final ganha ao Sp. Braga. E ainda conseguiu, cumprindo esse ideal de compromisso e harmonia, cativar os adeptos e chamá-los para o lado certo da barricada.

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3 MS fez do Sporting uma equipa tão perfeita na ação coletiva; tão profunda nos princípios de jogo; tão clara nas ideias e segura na sua operacionalização, que tornou felizes os jogadores cujo talento, por norma, é reprimido em nome de segurança e equilíbrio. A equipa assentou em elementos para salvaguardar a sua integridade (ordem, disciplina, entrega e responsabilidade) mas conseguiu acrescentar-lhes disponibilidade para estimular aventura, risco, invenção e magia, conjugação através da qual atingiu momentos de grande exaltação durante a época. Se o jogador pede sentido de orientação ao treinador, a resposta de MS foi tremenda, porque indicou o caminho sem precisar de gritar ou ser grosseiro. No fundo, porque conquistou autoridade, respeito e admiração junto dos seus pela única via aceitável: a do conhecimento, do bom senso e da boa educação.

4 Num desafio de exigência máxima, acrescido pelo clima de guerrilha interna que esteve sempre à vista, MS confirmou classe superior e estatuto intocável em termos de gestão, decisão, liderança, comunicação com o exterior e relacionamento com a estrutura de apoio à equipa. Pode não servir ao projeto do Sporting e não ser o homem certo para a sensibilidade e os interesses do presidente do clube - pode até ser ostracizado pelo líder na hora da celebração. Mas é inquestionável que mostrou, numa temporada em Alvalade, talento para comandar qualquer grande equipa. No final do primeiro troço de uma carreira previsivelmente longa e ganhadora, foi perfeito a lidar com uma situação muito exigente a todos os níveis. Já mostrou ser um treinador de topo. Confirmará por certo, num futuro próximo e em contextos mais favoráveis, que será ainda melhor.

Taça de Portugal

na vida de Sérgio

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Há treinadores tão racionais que, de tanto quererem ter os pés no chão, nunca tocarão o céu

Sérgio Conceição tem horizontes mais amplos. E não é por perder a Taça daquela maneira que é melhor ou pior treinador; terá um futuro mais ou menos risonho; aceitará mudar a atitude perante a vida e a profissão. Aliás, desde que mantenha os princípios, continue a evoluir e não traia a genuinidade que o caracteriza, não vejo inconvenientes em renovar a admiração e insistir na convicção de que será um dos melhores treinadores portugueses do seu tempo. Agora, é levantar a cabeça e seguir em frente.

A qualidade de Ola John 

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O obstáculo de muitos jogadores de talento é a leveza com que encaram o futebol

Ola John poderá ter feito em Coimbra o último jogo pelo Benfica. Foi suplente utilizado, como tem sido regra, mas com uma diferença substancial: entrou e decidiu a final da Taça da Liga. O holandês é um caso excecional, porque tem condições técnicas e físicas notáveis para a vida que escolheu junto às linhas laterais. Expressa o talento enganando mas também pela perfeição de gestos e movimentos que todos antecipam mas não conseguem travar. É um jogador da bola, que se realiza com obras-primas dispersas mas não se revolta quando tocam as sirenes do rigor e da responsabilidade. 

Daniel Carriço chega ao topo

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A justiça, quando chega tarde, também pode ser encarada como uma forma de injustiça

Daniel Carriço foi convocado para a Seleção e dessa chamada resulta a ideia de que o jogador do Sevilha chega com atraso ao ponto mais alto do futebol português. Já pouco resta do futebolista pouco fiável que iniciou a carreira no Sporting. Titular indiscutível de uma das melhores equipas espanholas da atualidade, vencedora das últimas duas edições da Liga Europa, beneficiou da consolidação como defesa, função para a qual se apetrechou com melhores argumentos: liderança, autoridade, confiança, regularidade. Aos 26 anos, o futuro pertence-lhe.

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