A vitória de Simão

PAIXÃO – Desde que os jogadores de futebol, em nome de valores económicos, se tornaram escravos dos seus representantes, aceitaram ser controlados pelos clubes e se convenceram de que tudo na vida é um negócio, a palavra paixão passou a estar sublinhada com um risco vermelho. E quando alguém se lembra, contra todas as regras, de fazer comentários não orientados apenas na lógica dos cifrões, que obedeçam ao mais genuíno sentimento resultante do sentido de justiça ou de qualquer outra convicção, pode ver-se envolvido num verdadeiro terramoto: ser multado pelos órgãos competentes da Liga, severamente punido pelo seu próprio clube ou até ser chamado por quem lhe trata da vidinha para levar um puxão de orelhas que lhe sirva de emenda.

SOBREVIVENTE – Quando Simão partiu para Barcelona levou a ilusão de triunfar noutra galáxia. Não foi apenas um negócio irrecusável mas a opção de quem queria ser ainda melhor jogador e dimensionar o estatuto à escala internacional. Dois anos depois viu-se no meio de uma guerra que não desejou, não tanto pela saída de Camp Nou mas pela traição ao passado sportinguista, cuja consumação, aliás, atrasou até ao limite das possibilidades. Em nome da carreira aceitou o negócio, pedindo apenas um tempo para se recompor das emoções e readquirir ritmo. Deixou passar a euforia, geriu a situação e começou a jogar. Quando parecia inevitável o desmoronamento do edifício encarnado, a sua resposta foi espantosa. E hoje ele é o sobrevivente do sonho original: o único jogador do Benfica a reunir magia, talento, juventude, alegria, ambição e regularidade.

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SUBLIME – Dito de outra forma, Simão é o único componente da célebre equipa maravilha, anunciada em Julho, que chega a Fevereiro intocável. Mais do que isso, está até a exceder as expectativas, apesar da classe já demonstrada em Portugal e que lhe valeu 45 jogos na I Liga espanhola com a camisola do Barcelona. Na Catalunha especializou-se na arte de explorar os flancos. Há poucos como ele, e não apenas em Portugal, a dominar os princípios básicos da acção do extremo: é sublime na espontaneidade do arranque, espantoso na velocidade alucinante que o mantém à frente dos adversários e no engano provocado pelo modo como valoriza a travagem e a mudança de direcção. Armas acrescidas da intuição, do drible e, principalmente, da excelência do cruzamento, sempre feito de cabeça levantada, com critério no desenho da jogada e perfeição absoluta na execução.

PROTAGONISTA – Mas no Benfica 2001/02, Simão não tem sido apenas um extremo em estado de graça, a descarregar tudo o que aprendeu na universidade de Barcelona. A confiança gradual levou-o a assumir protagonismo com outro tipo de influência, aproximando-se do centro de decisão do jogo, sem estar tão dependente da bola que chega ou não aos flanqueadores. As grandes estrelas benfiquistas foram deixando argumentos pelo caminho: Drulovic não encontra o sorriso; Zahovic perdeu saúde; Sokota nunca sorriu e não há meio de ter saúde; Mantorras lida cada vez pior com o sonho de ser um grande goleador. Por isso e porque Fernando Meira partiu, Argel está no banco, Pesaresi nem isso, etc., etc. etc., Simão está a cometer o milagre de, à custa de talento e do peso cada vez maior na equipa, assumir o enquadramento de Jankauskas, Fernando Aguiar, Tiago, Armando, Carlitos...

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