DIZ a mitologia grega que Epimeteu era o mais inábil e desastrado de quatro irmãos - os outros eram Atlas, Menécio e Prometeu - que pertenciam à raça dos Titãs e foram punidos por Zeus. Só Prometeu enganou Zeus por amor aos homens e foi por ele agrilhoado no cimo do Cáucaso. Atlas era violento, monstruoso e desproporcionado e foi condenado por Zeus a sustentar a abóbada celeste sobre os seus ombros. Menécio caracterizava-se pela arrogância e brutalidade e foi fulminado por Zeus e afundado no Tártaro.
Quanto a Epimeteu, apesar das advertências do seu irmão Prometeu, que o aconselhara a nunca aceitar qualquer presente de Zeus, deixou-se seduzir pela beleza de Pandora, que Zeus destinara à punição da raça humana. Em Pandora, a beleza, a graça, a destreza manual e a capacidade de persuasão confundiam-se com a astúcia e a mentira. Mas foi a sua imensa curiosidade que a impeliu a destapar a boceta ou pequena caixa que continha todos os males. Levantada a tampa, todos os males começaram a espalhar-se sobre a humanidade. Diz ainda a mitologia que, quando Pandora voltou a colocar a tampa, a esperança ficou lá dentro porque estava no fundo da caixa. Ou seja: é de males que se fala quando se fala em abrir a boceta de Pandora. Não sei se o doutor Vale e Azevedo é versado em mitologia grega e romana. Mas o certo é que, ao destapar a “caixa dos medicamentos” para se vingar do treinador Manuel José, é bem capaz de ter destapado uma “boceta de Pandora”. Desta só saiu, por enquanto, o “BÊ-SUPRA Fortíssimo”. Mas ninguém pode garantir que não venham a sair outras surpresas da “caixa dos medicamentos”. E é pouco provável que os treinadores de futebol sejam os maiores responsáveis por essas surpresas. Já se sabe que a Vitamina B Supra não faz parte da lista de substâncias dopantes. É apenas um “choque vitamínico” que “dá mais força anímica” aos futebolistas, antes dos jogos, por “ter uma acção possivelmente mais rápida e mais forte” sobre eles. Mas também se sabe que o futebol profissional, tal como outras modalidades do chamado “desporto-espectáculo”, está há muito sob suspeita de utilização sistemática e desenfreada de substâncias dopantes. Por cá, tal como em todo o mundo.
Oportunamente, Record transcreveu, na sua edição de domingo passado, passagens de uma entrevista concedida, em Abril de 1995, pelo doutor Bargão dos Santos, então responsável clínico da selecção nacional de Esperanças e médico coordenador da área de formação da Federação Portuguesa de Futebol, em que era denunciado o comportamento de alguns clubes relativamente a jovens jogadores (sub-20) aos quais “foram administradas injecções endovenosas (nas veias) de complexos vitamínicos”. O doutor Bargão dos Santos referia-se, concretamente, a injecções de Vitamina B Supra, considerando-a “um reconstituinte ultrapassado”, que “não faz bem nem mal”. Mas salientava: “O perigo encontra-se no facto de serem administradas através de injecções nas veias.” E acrescentava: “Injectar uma pessoa deveria ser, ou melhor, é a última forma de administrar um medicamento.” Porque - salientava ele - “a abordagem a uma veia é o veículo mais rápido para o aparecimento de infecções e outras complicações.” E o certo é que, também em Abril de 1995, o doutor Bernardo Vasconcelos reconhecia, em declarações a este jornal, que “no Benfica existe esse e outros métodos”, embora ressalvando que “injecções de polivitamínicos já têm sido utilizadas em casos específicos, mas nos seniores, nos juniores nunca”. E explicava:
“Não condeno que tal aconteça quando há debilidade física e o jogador vai ser utilizado.” Nem mais.
A bizarra acusação feita pela Direcção do Benfica a Manuel José refere-se à época de 1996/97. As declarações do doutor Bernardo Vasconcelos datam de um ano antes. Não sei se o doutor Vale e Azevedo e os seus colegas e conselheiros meditaram bem no assunto antes de lançarem a acusação. O que sei é que podem ter aberto uma “boceta de Pandora” e que o mal que espalharam pode vir a ter um efeito perverso, do tipo “boomerang”. Não sei se o Zeus do futebol - se é que ele existe - ou, mais prosaicamente, o tribunal competente, os irão castigar. Também não sei ao certo quem, nesta história súcia, desempenha o papel de Epimeteu inábil e desastrado e quem terá sido impelido pela irresistível curiosidade de Pandora. O que me parece é que o doutor Vale e Azevedo deve ter destapado a “caixa da tesouraria” do Benfica e, como só lá encontrou “esperança” mas não dinheiro para pagar indemnizações, é capaz de ter achado que o melhor era mesmo destapar a tal “caixa dos medicamentos”. E, enfim, como há males que vêm por bem, até pode ser que este seja um deles!