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ANTÓNIO DUARTE PINHO (*): Totogolo - O fiasco total

O lançamento de uma nova modalidade de aposta mútua desportiva com o início da anterior época futebolística de 1998/99 representou uma derradeira (e desesperada) tentativa de contrariar/inverter as tendências do passado no sentido de quebras sucessivas nas receitas/lucros geradas nesse tipo de jogos e que coincidiram no tempo, praticamente, com o lançamento entre nós do popular Totoloto em 1985.

O Totogolo apresentava-se, na opinião de alguns, como uma prometedora alternativa, por um lado, e um complemento, por outro, ao tradicional Totobola do “1X2”. O apostador, ao prever o número de golos de cada uma das equipas em 5 ou 6 jogos de futebol, passava a ter ao seu alcance uma nova forma de dar vazão aos seus fantasiosos conhecimentos da realidade futebolística, à semelhança do que ocorria noutros países, embora sem qualquer sucesso, como na Hungria, reino unido, Itália ou, mais recentemente, na Espanha (Quinielagol).

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O Totogolo, ao ser gerido em conjunto com o Totobola sempre apresentaria, à partida, o risco de vir a dividir um nicho de mercado, um “bolo”, já de si em redução acelerada. Poderia acontecer que, com essa divisão, os primeiros prémios do Totobola se tornassem ainda menos apelativos do que já vinham sendo, sem que, por compensação, os prémios do novo Totogolo se tornassem minimamente atraentes. Exactamente aquilo que veio a acontecer!

Sintomático das graves ameaças que continuam a pairar sobre o futuro das apostas mútuas desportivas, mau grado a existência comprovada de um pequeno núcleo de apostadores resistentes, é aquilo que se tem vindo a constatar em concursos recentes. Assim, no concurso nº 44/99 o primeiro prémio no Totobola foi de 54 mil contos mas o valor das apostas registadas foi inferior a 100 mil contos... isto quando no mesmo concurso de 1998 em que o prémio era de apenas 5 mil contos as apostas atingiram os 70 mil. Ou seja, o prémio aumentou cerca de 11 vezes mas as vendas só cresceram 40 por cento. Por outro lado no Loto 2 os primeiros são frequentemente daquela mesma ordem de grandeza (entre 50 e 60 mil contos) mas as apostas registadas são cerca de seis vezes superiores às indicadas para o Totobola. Com a agravante de as probabilidades de acertos nas apostas mútuas serem, de facto, até por haver elementos de análise previa às apostas a efectuar, várias vezes superiores às existentes no Totoloto.

Decorridos que estão neste ano os primeiros 12 concursos do Totogolo após o início da presente época futebolística (concursos nº 34 a 45) é muito preocupante constatar que a média semanal da apostas é da ordem dos 16 mil contos (que se compara com 70 mil no Totobola) o que representa uma quebra superior a ...60 por cento face ao conjunto dos concursos homólogos de 1998! Coisa nunca vista no historial dos jogos da Santa Casa pese embora as quebras ocorridas ocasionalmente com as “raspadinhas”.

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Totogolo, tal como algumas pessoas alertavam, acabou por prejudicar ainda mais as receitas do Totobola, já então em plena crise de vendas, e que persistem no corrente ano, com novas quebras da ordem dos 6 por cento, com a agravante de nunca ter chagado a constituir-se como uma modalidade apelativa e de interesse para atrair novos apostadores que se juntariam ao velho, reduzido e “sofrido” núcleo dos resistentes das apostas mútuas desportivas. Tudo isto num contexto desfavorável de renascimento e fulgurantes subidas das vendas das diversas Lotarias associadas a esse êxito mediático que tem sido a “Roda dos Milhões” na SIC.

A manutenção do Totogolo, com o seu “low profile” actual, agravado com o desperdício semanal de milhares de contos nos mais de 90 por cento de boletins de jogo deitados ao lixo, por deles constarem injustificadamente os nomes das equipas (o que não ocorre noutros países) assim como outras despesas associadas, acaba por fazer reduzir ainda mais a rentabilidade e os lucros a distribuir pelos seus beneficiários, a começar pelo futebol que tem direito que tem direito a 50 por cento dos mesmos.

No início do corrente ano alguém afirmou em plena sessão do Conselho de Jogos da Santa casa da Misericórdia de Lisboa, na presença dos representantes dos diversos ministérios nela representados, que: “ou se liquidava o Totogolo no final da época futebolística 1998/99 ou então esse jogo viria a morrer nas mãos dos responsáveis da Santa Casa”. Está agora à vista de todos que eram avisados esses conselhos e quer foi má política persistir no erro. E cabe perguntar, no interesse de todos, nesta parte final de mais um ano em que as apostas mútuas desportivas vão cair cerca de 12 por cento e os lucros nelas gerados quase 20 por cento, apesar desta nova modalidade existente, mas que não chega a representar sequer 0,5 por cento do conjunto dos jogos da Santa Casa, se não haverá ninguém que decida, com carácter de urgência, acabar com a agonia do Totogolo e, de uma vez por todas, terminar com aquilo que, tendo nascido muito torto, nunca deveria ter começado. Acabar com o Totogolo poderá vir a revelar-se como um primeiro passo para tentar salvar, se tal for possível, o Totobola.

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Isto, claro, no interesse de todos...

(*) Economista - ex-administrador do departamento de Jogos da Santa Casa. Actual presidente da Docapesca - Portos e Lotas, AS

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