Eu nestas coisas sou como São Tomé: quero ver para acreditar. Pode a PJ investigar quem quiser – e como sei que há lá muitos profissionais que levam o seu trabalho a sério, acho muito bem que investiguem – e o Ministério Público indiciar quem quiser que isso a mim pouco me diz. Já cá ando há algum tempo, já vi muita coisa que julgava não existir e portanto só com as provazinhas em cima da mesa é que me convenço. E provas materiais, que essa coisa de um dizer que o outro é mauzão, outro ter ouvido alguém repetir que sim senhor, e outro ainda achar que alguém fez o que parece que fez ou que se deseja que tenha feito, não é artilharia que eu aceite.
Dito isto, quero acrescentar que operações como o Apito Dourado deviam alargar-se a outras áreas da nossa sociedade, como por exemplo o Imposto Dourado, que teria como provável consequência aliviar a classe média do esforço de suportar sozinha a política social que protege tanto (justamente) os pobrezinhos como (injustamente) os calões.
O grande problema do Apito Dourado é que a avidez pelo sangue vai levar a absolvições (de inocentes e de eventuais culpados) e estas vão permitir que tudo continue na mesma. Como é possível que tantos se queixem das arbitragens e as cúpulas permaneçam intocáveis? Não por serem culpadas de nada, mas porque estão, simplesmente, no meio da barafunda.
Como o simples bom senso não existe ou não é aplicado, o melhor é deixar o apito para o comboio e lançar nova cruzada: a operação Vassoura Dourada.
Liedson
A pouca sorte instalou-se em Alvalade e perseguiu durante 90 minutos a equipa do Sporting. Creio ser justo dizer isto, já que a turma de Peseiro jogou bem, pressionou, foi dinâmica, empenhada e lutadora, mas não teve a sempre necessária pontinha de felicidade. Bem, e a verdade é que também não teve Liedson – o brasileiro que conta, na Liga de Clubes, com uma santinha protectora que acaba de lhe atribuir mais um golo: o que Auri diz ter marcado com a canela... Bem, mas o matador não esteve de facto em Alvalade, quem sabe se a contas com o famoso “jet lag”, porque se estivesse, e ao seu nível, os leões teriam ganho. As viagens-relâmpago ao Brasil em vez dos treinos e dos estágios têm dois preços: o do avião e o da falta de sorte...
Nuno Assis
Pois... o talento é algo que se tem ou não se tem. Esta coisa de contratar “reforços” por atacado, muitos deles positivamente corridos de outros clubes, é bom para entusiasmar os lorpas. Mas bom, mesmo, é o Benfica ter tido a lucidez de aproveitar a qualidade de um jogador como Nuno Assis, que não é brasileiro, nem africano, nem sérvio, nem coxo. O ex-vimaranense tem depois uma característica importante para a carreira intermitente dos encarnados: joga com alegria e para a frente, contagia os companheiros e pode, a todo o momento, inventar a jogada que resolve a partida. Veja-se o caso de Jorginho – quantos jogadores marcariam aquele golo a Ricardo? Apostar nos artistas que ainda por aí há é o caminho. Antes que fujam todos.
Rui Águas
Isto dos treinadores que são bestas ou bestiais é tão velho como o futebol. Agora é Jesualdo Ferreira o alvo de todos os solos de harpa, um génio que nunca devia ter saído do Benfica. O que ninguém pensa é que já não tendo os grandes os craques de outrora e dispondo já os pequenos de condições de treino e de técnicos semelhantes aos dos clubes mais populares, o nivelamento está feito e Sp. Braga, Boavista, V. Setúbal, V. Guimarães, Marítimo, Rio Ave ou Belenenses podem hoje ganhar em qualquer campo. Mas na bela carreira dos arsenalistas e nas merecidas loas a Jesualdo há que reconhecer o mérito do homem invisível, o mestre na discrição e na modéstia, o exemplo no trabalho e no estudo que dá pelo nome de Rui Águas. Parabéns!
Partiu um homem
Talvez Víctor Fernández não fosse o treinador ideal para gerir o futebol de um Porto de transição, fragilizado pela saída de meio plantel, abalado pela chegada de várias caras novas, dominado ainda por meia-dúzia de pesos muito pesados, órfão de José Mourinho e da filosofia de rigor e profissionalismo que levou consigo – a cabeça perdida de um Maniche vindo do banco (logo duas situações anormais) chegou para se compreender onde já iam os dragões... Mas o técnico agora de malas-aviadas não foi “mais um” que passou pelo futebol português. Fernández deixa a imagem de um homem sereno e esforçado, disciplinado e respeitador. Quando Pinto da Costa precisava de um falcão, depois do estrondoso falhanço de totó Del Neri, saiu-lhe uma pomba, indefesa na selva. O treinador espanhol ter-se-á perdido também por isso, mas a grande razão da sua queda está, antes de mais, naquilo que sempre trama os líderes: os resultados negativos. Seja como for, vamos sentir a falta do discurso tranquilo e da postura afável de um homem que prestigiou o futebol, os treinadores e o seu país. Até sempre.
Xuxu
O gabonês, com 12 golos marcados, claro que já não quer renovar pelo Belenenses. A assinatura de alargamento do contrato devia ter acontecido na época passada, agora tarde piaste. A propósito, gostava de saber o que se passa com Gonçalo Brandão, Ruben Amorim ou Eliseu, que de grandes promessas já nem convocados são (e Rolando para lá caminha), mas enfim, isso são contas de outro rosário. O que quero mesmo é relembrar o golo da vitória azul sobre o Rio Ave, com Antchouet rodeado por 6-adversários-6 e com mais o guarda-redes pela frente, a arranjar maneira, já de ângulo difícil, de enfiar a bola na baliza. Tirando Nuno Gomes, Liedson e McCarthy não vejo por aí melhor.