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As lições de Eusébio e Cristiano Ronaldo

As lições de Eusébio e Cristiano Ronaldo

O futebol não inverte a realidade do dia-a-dia mas cria outra que, parecendo insignificante, preenche o Homem e atravessa-o de um lado ao outro. É nestas alturas que o fenómeno “de analfabetos e selvagens”, como tantos o julgam, confirma a sua força descomunal.

1 Como escritor, poeta e ensaísta, Jorge Luis Borges (1899-1986) só tinha um defeito: odiava o futebol. Certo dia marcou uma conferência sobre imortalidade em Buenos Aires e, como figura maior da cultura sul-americana, achou estranho que a sala estivesse vazia. Tinha pensado em tudo menos num pormenor: à mesma hora, a Argentina jogava a final do Campeonato do Mundo de 1978. A data não fora bem escolhida mas Borges não aceitou a conclusão. Em Portugal, o divórcio entre uma certa elite (política e intelectual) e o fenómeno futebolístico foi confirmado com o adeus de Eusébio. Houve mesmo até quem se referisse ao maior ídolo popular do século 20 português como se estivesse a falar de um velho criado lá de casa, simpático, inculto e que bebia uns copos.

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2 Há camisolas e bandeiras incorporadas nos mais puros sentimentos que ligam o Homem ao futebol. As lágrimas derramadas pela morte do King e as que Cristiano Ronaldo deixou cair (e multiplicou) ao ser coroado em Zurique confirmam a relação quase tribal, de quem se une à volta dos seus mitos e ritos. O adepto é fiel pela memória da infância, pela eterna busca de uma identidade, pelo desejo de afirmação e até de vingança. É estranho que pessoas inteligentes desprezem a força de um fenómeno social e cultural só pelo preconceito de que um simples jogo de multidões possa manchar-lhes a imagem. Melhor seria se entendessem as razões que levam à entrega incondicional a causas menores com a convicção que os homens não costumam ter na defesa de valores muito mais importantes nas suas vidas.

3 Será pelo futebol que a sociedade vive aterrorizada pelo desemprego, pela corrupção e pela insensibilidade social? Terá o jogo do pontapé na bola responsabilidade nas malfeitorias de quem desgoverna, empobrece, estupidifica e vai matando aos poucos aqueles que deveria proteger? Será assim um crime tão grande que o povo se agarre a uma paixão lúdica nestes tempos miseráveis em que os seus líderes perderam a vergonha e se tornaram hostis? O antropólogo e etnólogo Desmond Morris vê o futebol como metáfora de guerra, ritual de caça e cerimónia religiosa. Sendo legítimo não gostar de uma atividade lúdica, é incompreensível que muitos intelectuais recusem o esforço para entenderem melhor o ser humano; o significado das raízes que o ligam à comunidade e as razões que levam cada um a escolher símbolos para o resto da vida.

4 O adeus de Eusébio e a grandeza de tudo quanto envolveu a sua despedida, bem como a manifestação de júbilo pela coroação de CR7, confirmam o futebol como potencial orgia de sensações: amor, orgulho, raiva, desespero, paixão, revolta, vingança... À semelhança de tudo o que mexe com felicidade e frustração, alegria e tristeza, esperança e revolta, euforia e depressão, o futebol pode assumir importância transcendental. Não inverte a realidade, por vezes cruel, do dia-a-dia mas cria outra que, parecendo insignificante, preenche o homem da cabeça aos pés e atravessa-o de um lado ao outro. É nestas alturas que o fenómeno “de analfabetos e selvagens”, como tantos o julgam, confirma a sua força descomunal. É essa a lição que muitos teimam em não querer aprender.

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Os 30 segundos de homenagem

Perdoem a crueza da declaração, mas mais valia que o órgão máximo do futebol mundial tivesse ficado quieto: recordar em 30 segundos um dos maiores génios da história, desaparecido há pouco mais de uma semana, não é digno do Pantera Negra nem da nobre intenção de lhe prestar homenagem. Quanto ao prémio Puskas, o de melhor golo de 2013, ganhou Ibrahimovic. O sueco assinou obra de arte inesquecível, de valor incalculável, que fica bem em qualquer galeria. O problema é que o lance aconteceu a 14 de novembro de... 2012. Tirando isso, nada a dizer.

Quando Platini abre a boca

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Mas Platini criticou também a alteração de critérios para eleger o melhor do Mundo. Recuperou assim argumento que recusou noutras alturas, só porque, desta vez, não teve nojo de ser parcial na defesa de um compatriota. Falou em vinte anos de mudanças mas podia ter ido às décadas em que as regras excluíam a possibilidade de Pelé e Maradona vencerem os troféus que outros foram ganhando, ele incluído. Como futebolista, Michel Platini foi um menino mimado que, sendo bom, tinha-se na conta de um deus que nunca foi; como dirigente, é uma tristeza de homem que jogou futebol.

A liderança e o desfalque

Foi assim quando teve de vender os passes de Javi García e Witsel no início de 2012/13, volta a ser a meio de 2013/14. Então como agora os alvos dos ataques exteriores não são artistas que desequilibram mas elementos com influência nos princípios básicos do funcionamento coletivo – Matic e Garay muito mais do que Rodrigo. Não são peças insubstituíveis mas muito dificilmente um clube a precisar de dinheiro para equilibrar as contas terá condições para ir ao mercado repor a qualidade perdida. Do súbito desfalque, em plena liderança, resulta novo grande desafio para Jorge Jesus.

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