_

As lições do príncipe Moutinho

As lições do príncipe Moutinho

1 - O futebol, que durante anos foi um jogo com impacto social, evoluiu para espetáculo de massas e indústria que movimenta milhões. O tempo acentuou o protagonismo do jogador e conferiu-lhe, nos casos mais extremos, valor mediático ao nível das maiores estrelas de Hollywood. Os adeptos costumam registar com desagrado os desvios comportamentais daqueles que veem apenas como ídolos do pontapé na bola; desconfiam deles e passam a julgá-los a partir de motivações não futebolísticas: frívolos, novos-ricos, meninos mimados, egocêntricos e até arrogantes para os casos mais drásticos. Quem combate e resiste a essas tentações conquista a admiração dos seus e o respeito dos outros. É nesse lote que encontramos João Moutinho.

2 - Dele se foi dizendo que não ganha jogos sozinho, dele se passou a dizer que muitas vitórias dos exércitos que serviu só foram possíveis pela sua inestimável contribuição. Durante anos impôs-se com armas de gregário e geómetra; assente em equilíbrio e segurança; eficácia e respeito pelas emoções. Na Suécia o herói foi Ronaldo: fez os três golos de Portugal e relançou a candidatura à Bola de Ouro; confirmou que é um dos melhores jogadores do Mundo e um dos mais extraordinários da história do futebol. João Moutinho foi o delfim do imperador mas desta vez com argumentos mais sofisticados: preservou a inteligência mas satisfez a estatística; cumpriu o senso comum mas agregou-lhe a arte de surpresa, engano, perfeição e decisão, tudo sintetizado em dois passes magistrais para outros tantos golos de CR7.

PUB

3 - Como diz Jorge Valdano, ao futebol é preciso inventá-lo a cada instante, com a dificuldade acrescida de utilizar a parte do corpo mais distante do cérebro: os pés. Talvez por ser baixo – a viagem é mais curta entre o que concebe e executa –, Moutinho tenha melhores condições para pensar mais depressa e decidir sempre de acordo com as necessidades da equipa; de obedecer a um plano previamente estudado e acrescentar-lhe o toque dos passes sublimes; de fazer o que deve e dar largas ao instinto cada vez mais depurado. É verdade que sempre melhorou qualquer bola que lhe passasse pelos pés, mas não era expectável vê-lo com frequência a interferir no jogo com argumentos de maestro como Zidane, Rui Costa, Deco, Riquelme, Sneijder ou mesmo Özil.

4 - João Moutinho rema contra a corrente e vive o futebol para dentro (treino, jogo, bola, balneário...) nesta época de aparência que impele o futebolista a olhar mais para fora (marketing, publicidade, televisão...). Poucos como ele são importantes mesmo quando não aparecem na fotografia: é fundamental a atacar porque tem talento, visão e capacidade para intimidar; a defender porque é solidário, inteligente e comprometido; quando ganha porque o êxito não o estupidifica e quando perde porque a derrota não o debilita de modo algum. Dele podemos extrair lições como príncipe de tronos ocupados por Nani, Hulk, Falcão, James e CR7. Com uma diferença: antes zelava apenas por equilíbrio, coesão e segurança coletivas; hoje oferece o bónus de sucessivas ações que valem golos, vitórias, títulos e até uma presença no Mundial. Vai ter lugar na lenda do futebol português.

Slimani pode ser caso muito sério
Costuma dizer-se que a ciência é adulta em demasia para os gostos infantis do futebol

PUB


Slimani jogou oito minutos em Guimarães e 50’ na Luz (com o prolongamento). Nesses 58’ marcou dois golos e fez outro anulado por posição irregular; atirou uma bola ao poste e desperdiçou cabeçada fácil na cara de Artur. É um agitador dinâmico e intenso, que sabe aproveitar o antagonismo entre a frescura com que entra em cena e o desgaste de quem está em palco há mais de uma hora; que corre mas não perde orientação; que luta mas não se distrai. Tem um pacto secreto com a bola e estimula a intuição como velocidade de ponta da inteligência. É só isto. Como se “isto” fosse pouco.

Djuricic precisa de autoridade
O clã sérvio do Benfica não vive com o conforto correspondente ao reconhecido talento

Djuricic é o caso mais problemático, porque o seu padrão criativo requer uma equipa à volta – logo não pode exercer se não tiver autoridade para levar os outros atrás das suas ideias, dos seus gestos e dos seus movimentos. O que saltou logo à vista foi a vontade em assumir os cordelinhos das operações e poucos obedecerem às suas ordens. Falta-lhe estatuto, o que, aos 21 anos, não é grave. Pelo futebol que tem, merece que o Benfica espere por ele. Mas, para isso, está obrigado a entender que a culpa para a desafinação pode ser da orquestra mas também do maestro.

PUB

Herói Luís Leal pronto para voar
Vila do Conde trouxe boas e más notícias para uma das equipas mais estruturadas da Liga

O Estoril de Marco Silva é uma comunidade perfeita, composta por jogadores notáveis e onde todos têm papel que desempenham na perfeição. A vitória sobre o Rio Ave confirmou Luís Leal como avançado temível, que faz golos à bomba, à ponta-de-lança e com requintes de malvadez no aproveitamento do mais pequeno deslize dos adversários – sinal de que o bom futebol estorilista vai de uma ponta à outra do campo. No fim, o herói canarinho sustentou que tinha chegado o momento de dar o salto. O poder de equipas em superação comporta o risco da instabilidade. São estas as leis do mercado.

Deixe o seu comentário
PUB
PUB