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As mentiras de Djuricic

As mentiras de Djuricic

O engano, o dom de adivinhar e a capacidade para ver mais à frente são manifestações de talento. A maioria das grandes estrelas do futebol marcam diferenças porque raramente concretizam o que ameaçam e antecipam-se ao tempo; porque mentem da cabeça aos pés e chegam aos lances centésimos de segundo antes de ocorrerem.

Djuricic é um caso de quem se expressa dando informações falsas aos adversários e que, para ter êxito, precisa apenas que os companheiros lhe decifrem as intenções. Quando se cruzaram no Boavista, Manuel José costumava dizer a João Vieira Pinto para ter a noção de que nem todos o compreendiam; era um adiantado mental que pensava cinco toques à frente e que, por isso, devia fazer um gesto prévio subtil antes de executar.

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Djuricic é uma peça de inserção difícil, porque o seu futebol reclama o envolvimento de quem o rodeia. Se o génio de Markovic tem soluções individuais contundentes na aproximação à baliza, o compatriota alimenta a circulação, procurando um dos ideais mais difíceis do futebol: elevar o engano à dimensão coletiva, para o que precisa da cumplicidade de quem o rodeia. Envolto numa estética preguiçosa, Djuricic concentra no cérebro prodigioso um cocktail de ideias capaz de destruir a lógica. Há nele algo de Michael Laudrup, na forma como decide inventando a solução contrária à que parecia ter escolhido; no modo como olha para a direita para depois colocar a bola na esquerda, transformando a facada na defesa adversária numa prenda de ouro para o companheiro que o entenda.

Sinisa Mihailovic, selecionador sérvio, incluiu Sulejmani num eventual problema de incompatibilidade do clã na mesma equipa. Mas a questão reduz-se aos dois artistas que pisam terrenos semelhantes (Djuricic inicia a ação cinco/dez metros atrás), com armas, estilos e intervenção no jogo suscetíveis de se anularem. Colocar Markovic encostado à linha não é solução, porque o afasta do centro de decisão e Jorge Jesus tem extremos de qualidade superior – Salvio, Gaitán, Sulejmani e Ola John. Se um é deslumbrante na zona de finalização e tem ótima relação com o último toque (Markovic fez 4 golos na pré-época), o outro (que ainda não marcou) tem um futebol mais aglutinador e que, quando integrado na plenitude, será multiplicador da produção coletiva.

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