Opinião
Rui Santos

As prendas aos árbitros

Os árbitros podem aceitar recordações sem valor comercial, tais como emblemas, galhardetes, miniaturas da camisola da equipa, medalhas comemorativas ou lembranças regionais, mas somente depois do jogo. Igualmente procedimento deve ser seguido se forem alvo de abordagem dos agentes desportivos, antes do jogo, no sentido de influenciar a sua actuação.

(in capitulo III, ponto 5.1, de Normas e Instruções para Árbitros, do Conselho de Arbitragem da FPF)

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Os árbitros e a arbitragem continuam a ser as figuras e o sector que suscitam maior discussão. Não é apenas em Portugal, uma vez que as regras são universais e elas contêm uma parte de subjectividade que 'dá para tudo' - e daí os mecanismos de influência tentados pelos clubes - mas em Portugal o tema está sempre no topo da actualidade, atinge proporções inigualáveis, em razão de nomeações pouco claras, desempenhos duvidosos, declarações incendiárias de dirigentes e outros agentes desportivos, todos com baixíssimo sentido ético e uma nulidade em pedagogia.

O futebol português perdeu uma grande oportunidade de expiar todos os seus pecados (e nem todos cometidos por responsáveis do FC Porto) com o processo Apito Dourado. Nesse processo, cuja montanha pariu um rato por causa da não validação das escutas telefónicas, contudo suficientes para se perceber como funcionava o sistema nas suas relações com os árbitros e os responsáveis pela arbitragem, ficou claro - independentemente dos méritos de gestores, treinadores e jogadores, que eram muitos - como era possível adulterar a Verdade Desportiva. Todos os protagonistas, entre árbitros e jornalistas, sobretudo os que não estavam comprometidos com esse sistema, sabem como eram complicadas as deslocações ao Estádio das Antas e o ambiente hostil, às vezes de provocação e confrontação, que os aguardava. 

Foi um tempo em que quase todos se demitiram das suas responsabilidades: forças policiais, Governos, partidos políticos. Os que não se demitiram ficaram - com razão e sem ela - marcados pelo ferrete da motivação clubística. Os procedimentos foram alterados e os próprios árbitros sabem que há um 'aAP' e um 'dAP', isto é, um antes do Apito Dourado e um depois do Apito Dourado, embora continuem a ser cúmplices e vítimas de 'sistemas de organização' que são parturejados pela FIFA, pela UEFA (no caso europeu) e pelo International Board.

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Enquanto esses sistemas não forem alterados no seu paradigma - reformas no sentido da aquisição de transparência no sector de arbitragem - é muito complicado às Federações e Ligas nacionais introduzirem factores de correcção verdadeiramente eficazes. Este 'sistema de organização' pressupõe graus de comprometimento e de compromisso enormes com a FIFA e a UEFA (no caso europeu) e é por isso que, por exemplo, Pedro Proença - que chegou onde chegou sob patrocínio dos dois organismos - não consegue fazer nada na Liga que seja distintivo dos outros. A encenação é total. Proença está engessado e quem não aceite o gesso é excluído e humilhado pelo 'aparelho', como aconteceu com o seu antecessor.

Segundo as Normas e Instruções para Árbitros, cujo ponto 5.1 introduz este artigo, "os árbitros podem aceitar recordações sem valor comercial". O espírito dessas Normas e dos Regulamentos é que os árbitros só podem aceitar pequenas prendas de mera cortesia (e são dados exemplos como emblemas, galhardetes, medalhas, miniaturas) e, no artigo 55 do Regulamento Disciplinar da FPF, fica claro que "o clube que, através de oferta de presentes (…) ou de, em geral, qualquer outra vantagem patrimonial ou não patrimonial para qualquer elemento da equipa de arbitragem, directa ou indirectamente, solicitar uma actuação parcial de forma a que o jogo decorra em condições anormais, ou com consequências no seu resultado […] é sancionado com a sanção de exclusão". O advérbio de modo 'indirectamente' pode ser muito comprometedor. A edição do 'CM' de ontem assegurava que "Carlos Xistra recebeu prenda na Luz', no recente Benfica-Sporting, isto é, o pack Premium Eusébio - camisola vintage, mais 'voucher' para quatro refeições no restaurante Museu da Cerveja, em Lisboa.

Mantenho a minha posição inicial, quando o 'caso' eclodiu: não entendo, neste caso concreto, o 'voucher' para quatro refeições no Museu da Cerveja. Da mesma forma que não posso aceitar formas de coacção sobre os agentes desportivos, com criação voluntária e estratégica de ambientes hostis, também não entendo depósitos de verbas em contas de árbitros-assistentes com um determinado objectivo (situação muito grave) nem compreendo a razão pela qual se oferecem refeições a árbitros, delegados e observadores. Uma camisola vintage de Eusébio é uma enorme cortesia. O resto precisa de ser explicado.

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* Texto escrito com a antiga ortografia

JARDIM DE ESTRELAS

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Mundial de râguebi

Estádios cheios, vibrantes e dominados pelo desportivismo; equipas técnicas com um papel fundamental na preparação e na condução dos jogos; jogadores supercompetitivos, sempre no limite da doação desportiva; e árbitros empenhadíssimos em decidir bem, auxiliados pelas novas tecnologias e em permanente diálogo com os jogadores. Tudo às claras. Um Mundial de grande sucesso, de uma modalidade moderna e em crescente desenvolvimento, que é um grande exemplo e um incentivo para a quebra do conservadorismo (potencialmente corrupto) do futebol.

O CACTO

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Sporting 'zero'

O Sporting está há mais de 13 anos sem ganhar um título de campeão nacional. O clube de Alvalade descolou, nessa luta, de Benfica e FC Porto, que protagonizam um fenómeno de bipolarização desde que Pinto da Costa chegou à presidência do clube nortenho. Por força de uma mudança radical na visão estratégica, no discurso e nas acções do novo presidente, Bruno de Carvalho, o Sporting apontou à reconquista do campeonato.

Com Jesus, a equipa endureceu a linha competitiva e, no plano doméstico, as diferenças são óbvias. O foco está no campeonato e, perante mudanças tão abruptas, é preciso elencar prioridades. O Sporting está num processo evolutivo. Interromper o endurecimento dessa linha competitiva seria um desastre. Não está em causa a rotatividade de Jesus. A rotatividade faz sentido. O que não faz sentido é o divórcio geral do jogo. A falta de concentração e empenhamento. A rotatividade não implica demissão. Todos são responsáveis e é estranho que Jesus não dê um murro na mesa perante a apatia geral.

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Por Rui Santos
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