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A escolha de Fernando Santos para a substituição de Paulo Bento no comando técnico da Selecção Nacional correspondeu a um dos processos mais pacíficos vividos nas entranhas do futebol português até hoje. Havia a questão do castigo ainda como seleccionador da Grécia, mas nem isso suscitou qualquer tipo de discussão pública. À data, havia três candidatos maiores (Manuel José, Jesualdo Ferreira e Fernando Santos), mas rapidamente se percebeu qual iria ser a escolha, porque a FPF nunca gostou de 'candidatos de ruptura' e Manuel José tinha esse anátema de não deixar que ninguém ouse sugerir qualquer tipo de convocação, como aliás deveria constar do perfil de qualquer seleccionador, cujo cargo, porém, obriga a algum 'jogo político', mas sem colocar em causa o essencial. E o essencial, neste caso, é convocar pelo mérito, através de critérios que sejam claros e justos.
Sempre defendi que a Selecção Nacional, por fazer de algum modo a extensão da imagem do país, deve ter muito cuidado com os seus procedimentos e acções. Por isso fui tão crítico à inacção da FPF relativamente à cobertura dada a uma condenação por fraude fiscal relativamente a um dos seus dirigentes. O país e as instâncias políticas (onde se meteu o secretário de Estado do Desporto?) não quiseram saber e e esta direcção nunca se vai livrar de uma mancha tão negra, que resulta nas fortes reminiscências do 'porreirismo nacional'. No caso concreto da escolha de Fernando Santos, e apesar de Jesualdo Ferreira se encaixar melhor no perfil sugerido - um 'formador', com vasta experiência nos domínios do futebol nacional e internacional -, parece-me que o importante era interromper um ciclo que já estava a criar fortes danos na Selecção e desenvolver uma dinâmica de recuperação de alguns jogadores que, entretanto, tinham sido colocados à margem pelo ex-selecionador, na maior parte dos casos sem justificação (técnica) aparente.
Fernando Santos fez isso de uma forma equilibrada e competente. Recuperou jogadores que ainda podiam ser importantes para a Selecção Nacional e, com eles, acabou por fazer também o seu próprio 'núcleo duro'. Mesmo num grupo de qualificação fácil e no formato de apuramento mais acessível de sempre (mesmo assim, Holanda e Dinamarca ficaram de fora) e sempre a vencer, nos jogos oficiais, pela diferença mínima, Portugal cumpriu a missão. Sem brilho, mas cumpriu.
Quer isto dizer que Fernando Santos, beneficiando de uma conjuntura sem críticas e poucos reparos, cumpriu competitivamente o seu primeiro ano à frente da Selecção Nacional com indiscutíveis méritos. Fez o que tinha a fazer e o que todos os portugueses lhe pediam: qualificar Portugal para a fase final do Euro'2016.
Já com a Selecção apurada, Fernando Santos iniciou o seu segundo ciclo como seleccionador nacional, e não o fez da melhor maneira. O distanciamento que revelou no primeiro ano de actividade, não olhando a nomes ou a especificidades para fazer as suas escolhas, perdeu-o totalmente neste final de ano.
Tudo começou com a não convocação de Cristiano Ronaldo, Ricardo Carvalho e Tiago para o jogo na Sérvia. Fernando Santos é o seleccionador nacional. Não é o treinador nem do Real Madrid, nem do Monaco, nem do Atlético Madrid. Quando um seleccionador nacional começa a fazer concessões e a olhar não apenas para a contabilidade dos minutos de utilização mas também para o 'estatuto' dos jogadores, está tudo estragado. Porque estamos a falar de um equilíbrio impossível. Porquê a dispensa daqueles jogadores e não de outros?
Ainda por cima, Fernando Santos enfatizou na véspera do jogo com a Rússia que "o Europeu começa agora"! Se começa agora, isto é, num momento de jogos particulares, o grupo tem de estar completo.
Esta visão de se olhar para a Selecção Nacional como se olha para os clubes não é boa.
Pior a emenda que o soneto foi Fernando Santos, questionado sobre as opções, ter falado em 'respeito pelos clubes', como se lhe coubesse administrar a situação. O Sporting-Benfica é um jogo importante do calendário futebolístico, mas não cabe ao seleccionador nacional desvalorizar o Angrense-FC Porto.
O seleccionador nacional tem a obrigação de utilizar os mesmos critérios para todos os clubes e jogadores.
O FC Porto 'caiu em cima' do seleccionador e tem todas as razões para o fazer, independentemente dos objectivos de continuar a querer visar a FPF, pelas razões que todos conhecemos. Espero, sinceramente, que Fernando Santos não se transforme em mais um veículo instrumental dos interesses e das influências que se movem na Selecção Nacional. Já temos disso que chegue.
* Texto escrito com a antiga ortografia
JARDIM DE ESTRELAS - ***
Rui Vitória - sim ou sopas
Desta vez, no dérbi, não é tanto Jorge Jesus que está em foco, mas o treinador do Benfica, Rui Vitória. Depois de todas as condicionantes que estiveram na base da sua contratação e do embate que tinha de ressaltar a partir do momento em que Jorge Jesus foi reforçar a equipa do Sporting, perder um terceiro jogo com o rival histórico e ainda por cima perante o ex-treinador dos encarnados que continua a afirmar a sua marca no futebol do Benfica, corresponde a um desaire demasiado duro e brutal, porque neste caso valeria uma eliminação prematura da Taça de Portugal.
O dérbi desta noite não tem muito que saber: ou Rui Vitória prova que é capaz de colocar o Benfica a fazer o papel de dominador junto do Sporting, ou ficará numa posição demasiado frágil, principalmente junto dos adeptos. É o sim ou sopas, que… Jesus não quererá desaproveitar.
O CACTO
Ataque à Liberdade
Um ataque à Liberdade. Um ataque à vida. A tragédia foi enorme e não podemos relativizá-la, porque diz respeito a todos nós, às nossas vidas, aos padrões ocidentais. Não quero ser romântico e absolver responsabilidades daqueles que alimentam interesses vários e que, perante o valor da vida, também são selectivos. Quando a vida não for um bem universal, o Mundo perderá todo o sentido. Não nos podem tirar o prazer de sorrir ou de desfrutar das coisas boas do dia-a-dia. Este é um momento crucial na história da Europa. Ou agimos e assumimos as responsabilidades, com coragem, ou ficaremos reféns de uma vida sem sentido. Se o que estava planeado para o França-Alemanha tivesse acontecido, o impacto seria muito maior a todos os níveis. Mas isso não invalida a dor que sentimos pelos parisienses, por França e por todas as vítimas (inocentes) do terrorismo.
Por Rui Santos