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Opinião
Manuel Boto

Benfica: reflexões na pausa das Seleções

Ponto prévio: a vitória sobre o FC Porto foi uma bela joga (já lá vamos), mas não há como fugir a uma questão: pelo minuto 39, um conjunto de tochas provenientes de adeptos benfiquistas são atiradas para o campo, interrompendo (bem) o jogo. Uma coisa é a alegria manifestada por cânticos de apoio, outra, bem diferente, são estas manifestações inaceitáveis de clubismo que o Benfica tem de erradicar.

Nem sequer me refiro ao facto de a interrupção ter claramente beneficiado o nosso adversário que estava a ser subjugado no jogo e, ao recompor-se, até conseguiu a seguir empatar a partida. Refiro-me exclusivamente ao que, no meu entender, devem ser os apoios dos adeptos, pelo que daqui lhes faço um apelo: enxerguem-se (!), evitem estas idiotices e utilizem o melhor que vocês têm, ou seja, os vossos cânticos de apoio que criam um ambiente fantástico no Estádio e motivam os jogadores, até porque o fazem como ninguém.

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1. Vamos lá então ao jogo com o FC Porto, cujo resultado nos deixa vivos na luta pelo campeonato. A vitória começou em Munique, quando Lage, conhecedor do plantel do Benfica como ninguém, percebeu o que era óbvio para alguns e que uma larga maioria de adeptos não que perceber: este plantel é curto para fazer 2 jogos seguidos contra Bayern e FC Porto ao mais alto nível.

Sabendo que a joga contra o FC Porto era crucial para o campeonato, sabendo que no domingo teríamos mais 24h de descanso, Lage não inventou muito em Munique. Equipa fechadinha cá atrás para a defesa correr menos atrás dos avançados alemães, 2 avançados para serem municiados pelo miolo composto por Renato e Kokçu, além de Aursnes, a teoria estava corretíssima. Falharam as transições, o ataque nunca conseguiu ser municiado por mérito do miolo do Bayern, uma máquina de jogar futebol, e o resultado foi o possível – uma derrota que o tempo irá esquecer e a base da equipa sem se desagastar demasiado, mas pronta para o jogo contra o FC Porto.

Não foi bonito? Claro que não, porque nenhum adepto benfiquista gosta de ver um Benfica encolhido. Mas foi realista e Lage merece os créditos por isso, ao jogar em 2 tabuleiros em Munique que me fez relembrar uma célebre frase de Béla Guttmann quando um dia questionado sobre as opções técnicas entre a Champions e o campeonato: "Signorr, Benfica não ter cu para 2 cadeirras!".

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Ontem correu bem, porque presentemente somos melhores e só tínhamos de o provar em campo, Lage conseguiu preservar a condição física para 2 jogos intensos, como foram Bayern e FC Porto, pelo que só temos de dizer: "Salvé, Lage!".

2. As eleições para a FPF já mexem há muito e os candidatos, Pedro Proença e Nuno Lobo vão-se posicionando, arregimentando votos cheios de promessas aos seus apoiantes, como em qualquer eleição que se preze. No meio disto, o "meu" Benfica, aparentemente perdido sobre quem apoiar, titubeando receios entre um Proença que os seus Sócios e apoiantes conotam com o rival FC Porto, jamais esquecendo diversas arbitragens em que se sentiram prejudicados e um Nuno Lobo que tem a imagem de benfiquista (nem sequer sei se o será).

Como líder do futebol português que se deveria assumir, o Benfica deveria ter a coragem assumir uma candidatura independente, com gente que não estivesse conotada a um passado nada abonatório do futebol português e esta seria uma enorme oportunidade, mais uma, para Rui Costa se libertar da imagem de continuidade do Vieirismo. Se apoiar Pedro Proença, como tudo o indicia até pelas movimentações que em público vão surgindo com figuras gradas do Benfica a caucionar a candidatura,

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será "um prego" na sua presidência que assim perde mais uma oportunidade para se libertar dos fantasmas do passado e darão argumentos a uma oposição ávida destes "tiros nos pés" para se afirmar como alternativa em outubro de 2025.

3. A discussão dos estatutos do Benfica vai fazendo o seu caminho, com assembleias gerais mais ou menos tumultuosas, em que Pereira da Costa (sucessor de Seara que vinha fazendo um bom trabalho, sobretudo nesta matéria e se demitiu por razões para mim insondáveis) tem tido o mérito de as orientar com sapiência. Um processo que nasceu da fusão de várias alternativas de Estatutos (ainda com Seara), em que o produto já consensualizado vai sendo paulatinamente sufragado, sobretudo pela dificuldade de vingarem propostas alternativas a vários artigos, ao lhes ser exigida a percentagem de 75% para vingarem.

Devo referir que, de uma maneira geral, estou de acordo com a proposta de consenso, embora lamente que se tenha dificultado tremendamente a votação eletrónica, ao exigir-se consenso entre todas as listas. Acho um regredir na modernidade do Clube ao prevalecer a suspeição sobre a bondade das votações quando aquilo que se deveria exigir seria uma auditoria independente ao processo (lá está, o defeito de ter sido profissional nesta área e saber do que falo).

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De resto, do que se aprovou até aqui, vou tecer uns considerandos:

(i) acho que o tema dos equipamentos ao prevalecer da emoção sobre o racional, mais do que compreensível no definir de regras no equipamento principal, causa alguns embaraços ao "marketing" sobre o alternativo, ferramenta essencial para gerar receitas.

(ii) considero hoje que a proposta de atribuição do número de votos por antiguidade é mais razoável do que a que existia anteriormente, embora infelizmente outra que me parecia ainda melhor apenas tivesse tido 71% e consequentemente tivesse sido rejeitada.

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(iii) congratulo-me a limitação de mandatos que considero absolutamente fundamental.

(iv) vejo com agrado que o tema de as Contas serem "chumbadas" passa a ter consequências.

Ainda faltando discutir muita coisa, aqui deixo algumas ideias para discussão:

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(i) entendo como relevante que o número de anos para se ser Presidente de qualquer órgão social seja reduzido para 15 anos.

(ii) aguardo com expectativa o tema da atribuição dos votos às Casas do Benfica, cujos princípios louváveis da atribuição de benesses têm servido, na prática, ao se atribuírem 50 votos, para a distorção da vontade dos Sócios; a extinção de votos, pura e simples, parece a solução; outra possibilidade, seria a ponderação os votos pela sua dimensão.

(iii) entendo como benéfico a existência de uma 2ª volta eleitoral, caso não exista maioria absoluta entre listas concorrentes.

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(iv) defendo que a eleição dos Órgãos Sociais seja efetuada em listas separadas, ou seja, Assembleia Geral, Direção e Conselho Fiscal.

(v) gostaria que os Estatutos inserissem a obrigatoriedade da existência de uma Comissão de Análise de Risco (negócio e operacional) que integraria obrigatoriamente o Presidente da Direção, o Presidente do Conselho Fiscal e um terceiro elemento, profissional em "full-time".

Mas o caminho faz-se caminhando e, pese as vicissitudes do processo, vamos por bom caminho!

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Por Manuel Boto
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