Bernardo já entrou em órbita

Bernardo já entrou em órbita

Aos 20 anos, é um milagre da natureza, um mago que transforma em ouro tudo aquilo em que toca; é um génio que só precisa de limar arestas para ser um dos mais extraordinários jogadores portugueses de sempre e uma referência mundial para os próximos dez anos.

1 Quando perguntaram a Johan Cruyff por que motivo Michael Laudrup, sendo uma estrela universal, não atingira o nível de Maradona, a resposta foi toda uma tese a merecer reflexão: “A única coisa que talvez lhe tenha faltado foi sentir e viver o futebol como se nada existisse de mais importante na vida.” Diz-se que o futebol é o mais democrático dos desportos, o mais acessível, aquele que não faz distinções e acolhe toda a gente: egoístas e generosos; corajosos, cobardes e inseguros; exibicionistas, responsáveis e melancólicos; rápidos, lentos, grosseiros e senhores; desajeitados, elegantes, gordos e magros; novos, velhos, altos e baixos; fortes, fracos, ricos e pobres. Debrucemo-nos, então, sobre Bernardo Silva, um baixote com centímetros e quilos a menos, oriundo de boas famílias, que joga futebol como os deuses.

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2 Há nele um toque sobrenatural no modo como resolve situações difíceis por habilidade; pelo recurso a fantasias inventadas no momento; pela magia instantânea que o diferencia dos outros. Mas quando sai dos apertos e escapa às armadilhas espalhadas pelo terreno não o faz só pela eficácia do talento: revela visão e inteligência para antecipar e resolver o que vem a seguir. Falta-lhe estimular ao máximo o sentido estratégico mas já entende o jogo como vasta cadeia de factos previsíveis, cuja gestão faz evitando a surpresa. No Benfica, Bernardo viveu condicionado pelo receio de não cumprir as orientações do treinador, não agradar às bancadas e desiludir as expectativas gerais. Porque o medo nunca é totalmente educado mas a experiência ajuda a dominar os nervos, o Monaco pode ter sido a melhor solução.

3 Em França, encontrou confiança para se expressar e espaço para se afirmar ao nível mais elevado – cruzou-se com um treinador que valorizou mais as competências já consolidadas do que os elementos que lhe faltam para atingir o patamar para o qual está destinado. Longe de casa, foi-lhe mais fácil resistir à pressão e perceber que a juventude serve para nada, porque os adeptos não vão ao estádio para perguntar a idade dos jogadores mas para vê-los jogar bem e ganhar. E mesmo sabendo que os jovens são mais vulneráveis às inibições, há sempre exemplos de maravilhosos irresponsáveis que, na adolescência, agem com o saber de veteranos de muitas batalhas.

4 Bernardo Silva é um milagre da natureza, um mago que transforma em ouro tudo em que toca e melhora quem habita no seu raio de ação. Precisa agora de concluir a formação como atleta para que o físico não trave a expressão total do futebolista que pode vir a ser. Como elemento de difícil inserção no coletivo, é válida a ideia segundo a qual precisa de tempo, trabalho, atrevimento e sacrifício para acrescentar intensidade ao jogo, agressividade à atitude e golo à folha de serviço – está obrigado a aumentar o número, a variedade e a abrangência das ações para aumentar o peso no funcionamento coletivo. Mesmo estando ainda à mercê de várias contingências para cumprir o destino já entrou em órbita. Aos 20 anos, é um génio que só precisa de limar arestas para ser um dos mais extraordinários jogadores portugueses de sempre e uma referência mundial para os próximos dez anos.

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Quaresma já não surpreende

Pretender que um génio rebelde, irascível, aventureiro e eterno candidato a herói da comunidade se comporte como um mordomo da casa real britânica é um disparate. Quaresma não é um jogador qualquer e Fernando Santos faz muito bem em reabilitá-lo para a Seleção. Convocá-lo, dar-lhe tempo de jogo, manifestar confiança e conceder-lhe o privilégio de marcar o penálti em Paris, significa apenas que tem uma visão diferente do treinador do FC Porto. E que, ao contrário do basco, acredita que só tem a ganhar se o defender, motivar e responsabilizar.

Os 35 anos do Imperador

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A dificuldade de Júlio César não é a idade. O brasileiro é um enorme guarda-redes que interrompeu a carreira durante um ano (esteve no Toronto FC) e que, mesmo dono da baliza do Brasil no Mundial, está agora a readaptar-se a exigências competitivas superiores. As expectativas elevadas e o significado para o Benfica de ter um Imperador a defender-lhe as costas tornou-o boa solução para responder às dificuldades. O problema não são os 35 anos. O problema é que dois meses na Luz conduzem a uma conclusão óbvia: não estava em condições de corresponder a tão grande responsabilidade.

Montero temível por jogo e golos

Montero pertence a outro ramo da mesma comunidade: sendo atacante como os outros, não se reduz à afinação da pontaria, justamente porque tem outras formas de se sentir útil, por vezes decisivo. O colombiano apenas exagerou no jejum que quase chegava a um ano. O mais impressionante foi perceber que, apesar do período em que esteve em branco, não foi crucificado pela plateia; teve sempre a admiração e o respeito dos companheiros; nunca deixou de merecer a confiança dos treinadores. Agora que desencravou a arma, voltará a ser temível pelas duas vias: pelo que joga e pelo que marca.

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