Paulo Assunção e José Mourinho estão fora da Liga dos Campeões. Atlético de Madrid e Inter tinham legítimas esperanças em chegar longe (pelo menos os quartos-de-final), mas ficaram-se pelos "oitavos". A eliminação, por si só, não envergonha. Os espanhóis caiaram aos pés de um FC Porto que, não há muito tempo, conquistou a competição e os italianos soçobraram diante dos actuais detentores do troféu. Tudo normal. O único senão é que os dois protagonistas atrás referidos, aquando do lançamento das eliminatórias agora disputadas, não foram devidamente prudentes nas respectivas análises. Como se costuma dizer, abriram demasiado a boca, tipo jacaré, e deram-se mal...
Não vejo nada de errado em ouvir jogadores e/ou treinadores a dizer que as suas equipas têm condições para derrotar quem quer que seja. O contrário, aliás, é que me causa alergia, pois quando os intervenientes começam, antes da bola rolar, a queixar-se da falta de experiência, das diferenças de orçamentos, do clima, da sobrecarga de jogos, das lesões, da falta de sorte e de mais não sei o quê... tal significa que nem os próprios acreditam que podem vencer. Por isso, sublinho, acho muito bem que Assunção e Mourinho tenham afirmado, sem reticências, que seria possível seguir em frente.
Mas, se ser profissional e estar convicto nas suas possibilidades é normal e desejável, convém perceber que "esticar a corda", sendo pouco cordato e mesmo arrogante... já não se aconselha.
Assunção saiu a mal do Dragão e aproveitou os dias anteriores ao jogo da primeira mão para "malhar" no seu antigo clube. Acredito que tenha razões de queixa, mas podia e devia ter sido mais comedido. Se não tivesse garantido que a sua equipa era bem mais poderosa que o FC Porto, talvez não sentisse necessidade de, após o afastamento, qualificar a formação portuguesa como "muito forte". O médio mudou de opinião num ápice ou não fazia ideia do que estava a dizer quando exibiu tanta confiança. Terceira hipótese: pretendeu apenas pressionar a equipa nortenha. Pois bem, por esta ou aquela razão, a verdade é que apostou mal. Viu a sua equipa levar dois "banhos" indiscutíveis (é difícil perceber como é que o FC Porto não ganhou nenhum dos jogos, já que foi bastante superior em ambos), passou os 90 minutos no Dragão a ser assobiado e, indirectamente, viu fugir o apoio da grande maioria dos adeptos portistas para uma eventual chamada à Selecção Nacional.
Mourinho também não perdeu apenas uma eliminatória na "Champions". O Inter mudou de treinador para ser campeão europeu. Conquistar "scudettos" já de pouco vale. Para atingir essa meta, os milaneses não precisavam, seguramente, de contratar o português. Quer isto dizer que, mesmo que vença todos os jogos até ao final da temporada, Mourinho nunca poderá dizer que cumpriu o sonho de dirigentes e adeptos.
Ainda por cima, este desaire surge num momento em que Mourinho, fiel ao seu estilo de sempre, resolveu comprar guerras com tudo e todos. Em Itália, ninguém escapa aos seus ataques. O problema é que para travar tantas batalhas, o técnico devia ter contado bem as "munições" disponíveis. A goleada sofrida na Taça de Itália e este precoce adeus à "Champions" não o ajudam. Bem pelo contrário. E se ele gosta de "picar" os outros, sabe como ninguém que, mal tropeça, a vingança não tarda. Quem vai à guerra...
E quis o destino que o Inter deixasse a Europa aos pés de um clube inglês, poucas horas depois de Mourinho criticar uma pretensa estagnação do futebol britânico após a sua saída do Chelsea. Que raio de "timing"! Então o campeão europeu não é o Manchester United? E quantos emblemas ingleses estão nos "quartos" da "Champions"? Italianos é que não vemos lá nenhum...
Para completar o ramalhete só faltava que na equipa do United pontificasse um tal Cristiano Ronaldo. Mourinho, numa atitude verdadeiramente deselegante, desvalorizou o título de melhor do Mundo atribuído a um compatriota. Aceito que tenha tentado valorizar o "seu" Ibrahimovic - provavelmente já a pensar no prémio de 2009 -, ou que não morra de amores pelo madeirense, mas não precisava de ter tido uma postura tão fria e distante. Agora deve estar esclarecido: o sueco é excelente, mas ainda está a léguas de Ronaldo ou de Messi. Nos títulos conquistados, no futebol exibido e na eficiência.
E entre as grandes figuras da actualidade do futebol português, Mourinho também tem de perceber que, agora, ocupa o segundo posto. O trono é do rapaz que neste duplo United-Inter marcou um golo e ameaçou mais meia dúzia de vezes!