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Olha-se para o Bruno César e parece tudo menos – como se diz em futebolês? – ‘jogador da bola’. Não é não ter pinta de craque. É não ter perfil de jogador de futebol. Parece ter (sempre) quilos a mais, mesmo quando não tem. A ‘morfologia de… roupeiro’, com todo o respeito pelos roupeiros, não ajuda nada e faz com que muitos achem que Bruno César, regressado a Portugal pela porta do Estoril, ainda devido às relações com a Traffic, já estaria na fase descendente da carreira e destinado a pequenos voos. Eis que aparece o Sporting a garantir os serviços de um jogador que, na minha perspectiva, tem tudo para dar certo no clube de Alvalade.
Porquê? Em primeiro lugar, porque Jorge Jesus já trabalhou com ele no Benfica e conhece-o bem. Em segundo lugar, porque o próprio Bruno César já conhece muito bem o campeonato português e em que situações pode fazer a diferença. Em terceiro lugar, porque começando a trabalhar de imediato sob as ordens de Jorge Jesus, pode melhorar os seus índices físicos, de modo a aparecer em boas condições de competir, no começo de 2016.
Parece-me, pois, uma boa contratação e vai ajudar a resolver um dos problemas que o Sporting tem no seu onze-base: a falta de velocidade sobre as alas – que só aumenta com a entrada de Gelson –, agravada com a ‘suspensão’ de Carrillo, cujas arrancadas provocavam importantes desequilíbrios.
Sem Carrillo e com a derivação de João Mário para a direita, não obstante as presenças prometedoras de Gelson e Mattheus sobre os corredores, o Sporting precisava de mais ‘explosão’ nas alas. Muita gente não gosta de Bruno César, porque o acham um jogador parado. Ilusão. As mudanças de velocidade são muito importantes no futebol. Bruno César é, erradamente, aquilo muitos chamam de ‘falso lento’. Acresce que o ex-estorilista não é apenas um jogador de faixa, que poderá jogador da esquerda para a direita e, principalmente, da direita para a esquerda. É um jogador que, se for necessário, faz de 8 e pode jogar como segundo ponta-de-lança. A ver vamos se não se tornará no mais importante apoio de Slimani, porque se trata de um jogador de passe certo, de excelente visão periférica, que coloca a bola à distância com enorme facilidade. E há uma outra grande virtude. Possui um pé esquerdo fortíssimo e vai ser muito importante – crucial – nas chamadas ‘bolas paradas’. Rui Patrício já viu, recentemente, em Alvalade, um chutão de Bruno César passar rente à barra…
Não haverá muitos treinadores que consigam tirar do Chuta-Chuta aquilo que ele tem para dar, por força até do que se tinha visto na sua passagem de uma época e pico pelo ‘Benfica de Jesus’. Nessa temporada (2011/12), o Benfica tinha, do meio-campo para a frente, jogadores como Javi García, Matic, Witsel, Gaitán, Aimar, Rodrigo, Nolito e Saviola (Enzo Pérez ainda marcou presença por três vezes no respectivo campeonato), para além do inevitável Cardozo, claro, e, mesmo perante tão excelsa concorrência, Bruno César ainda realizou 1.643 minutos na prova, o que significou ser, nessa época, o décimo jogador mais utilizado por Jorge Jesus na Liga. Na Liga dos Campeões, Bruno César foi o 11.º jogador mais utilizado pelo Benfica.
Se se confirmar que a operação resume-se ao pagamento do salário do jogador, estou convicto de que se tratou de uma ‘grande jogada’. Bruno César acaba de completar 27 anos e a sua maturidade pode ser um argumento importante no meio da juventude leonina. Não esquecer que o Benfica, em Janeiro de 2013, conseguiu vendê-lo ao Al-Ahli, da Arábia Saudita, por 5 M€, mais ou menos o valor da sua aquisição ao Corinthians.
Com Bruno César, o Sporting não resolve todos os seus problemas. É bom recordar que os leões atamancaram a situação na defesa mas não a solucionaram. Em razão dos bons resultados alcançados no plano doméstico, deixou-se de falar de Carrillo, que passou de ‘indiscutível’ a ‘dispensável’. Continuo, no entanto, a pensar que o Sporting, com Carrillo, seria muito mais candidato. Bruno César talvez ajude a fazer esquecer o peruano.
NOTA - No ‘caso das prendas’, os árbitros agem como sempre: escondendo a cara. E os questionários da CII servem exactamente para isso: para esconder a cara. Alguém iria sair da sua ‘zona de conforto’ para confessar algum incómodo? O futebol precisa mesmo de uma reforma absoluta.
* Texto escrito com a antiga ortografia
JARDIM DAS ESTRELAS
Ter memória... com Mourinho
Mourinho está a atravessar uma fase difícil, a pior da sua carreira, e isso até já valeu a exteriorização de uma postura generosa por parte de Cristiano Ronaldo. Nem mesmo a arrogância excessiva de Mourinho, que o torna às vezes inconveniente e letal, nos pode fazer esquecer a sua verve de ganhador. É bom ter memória e não confundir as coisas.
O CACTO
Justiça desportiva?
O futebol português não consegue viver sem um caso por semana. É um futebol ‘alka-seltzer’, que se esgota na efervescência do momento. Os protagonistas já se habituaram: o ruído ferve, mas a chama apaga-se e a memória nada preserva. Não se aproveitam os incidentes para se cultivar uma certa pedagogia. E é neste jogo de cotoveladas entre clientelas que a ‘justiça desportiva’ se anicha e acaba por não cumprir o seu papel. Duvido que a ‘justiça desportiva’ reúna condições necessárias para sair da ‘zona de conforto’. São diversos os casos em que é fácil perceber que os regulamentos não são cumpridos e os castigos são quase sempre brandos. 40€ de multa a Lito Vidigal é a negação (e a anulação) da Justiça. Nessa brandura clássica e normativa é bom de ver que ninguém aceita ser excepção e ser duramente punido. O poder político não ousa meter-se (sempre apoiado na jurisprudência da autonomia do movimento associativo) e a corporação do futebol não consente que lhe retirem a indecência. Os casos que abalam a ‘justiça desportiva’ vão, outra vez, parir um rato. E nem sequer há vontade para se discutir se há alternativas a este hermetismo. A FIFA tem de colapsar (mais do que já colapsou) para se sentirem os efeitos nas Confederações, nas Federações e nas Ligas.
Por Rui Santos