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A prolongada paragem de inverno num país com o clima de Portugal faz das ligas profissionais de futebol a melhor metáfora da nossa comunidade subprodutiva.
Durante duas das semanas do ano em que há mais dinheiro nos bolsos dos consumidores e mais tempo livre. Em dias onde se tornaria fácil um apelo à promoção do futebol como espetáculo que pode juntar famílias, os estádios fecham as portas graças a esta extraordinária vitória da classe operário-futebolística. Com as finanças cada vez mais depauperadas, há nesta altura do ano clubes que estão mais de um mês sem qualquer jogo em casa. Sem um euro que chegue à tesouraria. Porém, não se ouve qualquer protesto das entidades patronais e o baile segue assim já nem sei há quantos anos.
Se a memória não me trai, este extraordinário avanço no direito dos jogadores ao descanso, contra a necessária produtividade, resultou de um acordo entre o então homem forte da Liga, Valentim Loureiro, e o mais hábil presidente do Sindicato dos Jogadores, José Couceiro.
Alguma coisa de muito relevante o presidente do Sindicato terá dado em troca neste negócio. Talvez a sua gorda talhada de votos na assembleia geral da FPF, para um qualquer “chito” genial.
À época ainda se ganhava bastante bem em clubes da classe média e baixa. Qualquer jogador de um Salgueiros ou V. Setúbal ganhava mais, em escudos, do que a média do que é pago agora a jogadores semelhantes. Isto década e meia depois.
Mas se os jogadores ganham menor salário, não é razão para jogarem cada vez menos em época de festa e subsídio de Natal.
Só a produção efetiva torna mais justa a reivindicação salarial. Mas não. O nosso futebol é como o país: um conto de fadas em que o dinheiro parece brotar por golpes de mágica sem resultar do esforço e competência de cada agente ativo.