LOUCURA – Filippo Inzaghi é um dos mais caros e bem pagos jogadores do futebol mundial. Ainda bem para ele e que lhe faça bom proveito – o rapaz tem lá culpa que outros não estejam bons da cabeça e não saibam o que fazer ao dinheiro? Tirando o facto de ainda não ter percebido, aos 28 anos, que existe no futebol uma regra chamada fora-de-jogo, nas teias da qual é apanhado entre cinco a dez vezes em cada hora e meia; de ter uma fraca figura e ir ao chão com um assopro; de ser uma anedota de cada vez que ensaia um drible; de não marcar um golo de fora da área; de não fazer a mínima ideia do que é jogar futebol, no sentido colectivo do termo, atrapalhando muitas vezes quem sabe; tirando isso, dizia, Inzaghi é um dos melhores pontas-de-lança do Mundo. Se der jeito para o caso, talvez seja até o melhor de todos.
PÉ-COXINHO – O Milan-Chievo do passado domingo foi exemplar, respeitando algumas características que se repetem todas as semanas por esse Mundo fora. Um jogo fantástico entre uma potência feita de nomes próprios, diminuída por crise de confiança, e um conjunto de jogadores sem nome, agigantados por um trajecto perfeito no campeonato italiano. Como nem todos os filmes acabam como deviam, aconteceu o mais habitual na vida: ganhou o mais forte no fim de uma história intensa, atribulada e emocionante, suficiente para deixar os adeptos a roer unhas até ao derradeiro apito do árbitro. O Milan ganhou três pontos, mas no momento de “sprintar” para uma posição privilegiada entre os primeiros da tabela, mostrou que continua a andar ao pé-coxinho.
PAOLO MALDINI – Mas em S. Siro passaram-se mais coisas extraordinárias. Carlo Ancelotti só venceu porque, a perder, optou ao intervalo por alterações na defesa (se fosse em Portugal caía o Carmo e a Trindade...), lançando o veterano Costacurta para sustentar uma casa em constantes sobressaltos. E também porque, na hora da verdade, Paolo Maldini, o maior jogador italiano dos últimos anos – não o de maior talento, mas o melhor em toda a dimensão do que é um futebolista –, resolveu dar uma das mais espantosas lições de carácter, coragem e liderança de que há memória, acompanhando a aula com uma qualidade técnica, táctica e física difícil de encontrar ainda hoje no contexto europeu.
CACHECOL – Confirmada a ideia de que a experiência continua a ser importante no futebol, fundamental no sector defensivo – todas as grandes equipas têm um bom central a rondar os 30 anos –, e que o desequilíbrio nem sempre é provocado apenas pelo talento, o fenómeno Chievo chegou a S. Siro, baralhou as cartas, distribuiu-as, jogou e perdeu por acaso. A derrota, aliás, constituiu o único factor não controlado de um futebol feito de estudo e alegria; organização e liberdade; músculo e talento; disciplina e responsabilidade. Uma equipa feliz, unida na convicção de um trabalho e na esperança de um futuro melhor. Uma equipa fascinante na qual o guarda-redes tem o número 10, o treinador vai para o banco de cachecol e um brasileiro de nome Eriberto, em tempos extremo rápido e sem consistência, se transformou num jogador simplesmente fantástico. Que, ou muito me engano, não ficará ali muito tempo.