1 É uma rocha quase inultrapassável no território onde habita e que lhe cabe defender; um condutor exímio que atinge velocidade alucinante nas épicas viagens até ao lado oposto do campo; e ainda tem argumentos técnicos que desequilibram na zona onde se desenham os assaltos ao cofre-forte adversário. É uma espécie de três em um, excecional na gestão de cada momento e cada vez melhor na articulação de todos eles. Nos últimos 30 anos, o futebol português teve laterais-direitos sólidos e regulares (João Pinto, Secretário e José Carlos); competentes sem pompa (Veloso, Abel Xavier e Paulo Ferreira); artistas adaptados a funções diferentes (Miguel e João Pereira). Neste lapso temporal, Danilo é a máquina mais perfeita que pisou os relvados nacionais no desempenho daquela função.
2 Fisicamente não tem debilidades (rápido, forte e potente) e o arsenal técnico é tão vasto que, em determinada fase da carreira, chegou a ser médio no Santos e nas seleções jovens do Brasil – no Benfica era esperado como substituto de Ramires e não como concorrente de Maxi Pereira. No Dragão, Vítor Pereira recusou-lhe a desejada abrangência e encetou o processo de cristalização como lateral. Se o ponto de partida o leva para a frente, depurou a articulação com os parceiros defensivos para que os quatro funcionem como um só; aprimorou a ação longe da bola e deu eficácia às diagonais defensivas interiores no apoio aos centrais. Para atingir a plenitude só lhe falta calibrar alguns gestos e movimentos necessários à promoção do equilíbrio coletivo.
3 Danilo concentra qualidades raras em número e expressão: tem a responsabilidade de um defesa e o sentido de aventura de um avançado; tem aperfeiçoado cada ação atrás e alargado preponderância à frente; conjuga o espírito bélico aplicado na procura da bola à articulação primorosa com todo o sector recuado; à intensidade revelada na zona de definição agrega cada vez mais soluções técnicas na aproximação à baliza. O perigo advém da simples presença que desestabiliza mas atinge dimensão estratosférica por ser tremendo no último passe; perfeito a ver, analisar e executar em qualquer circunstância; temível pela contundência com que chega, valor também traduzido na potência e precisão de tiros a média e longa distância, com qualquer dos pés (melhor o direito).
4 Não sendo o jogador mais talentoso da Liga, também não é o mais valorizado pelo mercado, porque essa nunca foi a vocação de atores oriundos de onde os holofotes não chegam. Durante algum tempo foi analisado em função do valor excessivo que o FC Porto pagou ao Santos pelo seu passe e que ultrapassou os 15 milhões de euros. Importante agora é olhar para o que joga, quanto cresceu, em que etapa da carreira se encontra e onde pode chegar. Aos 23 anos, é o único futebolista em Portugal que tem lugar (por talento, idade e nalguns casos pelas duas coisas) nas maiores potências do futebol mundial. Jogaria de caras no Bayern Munique (Lahm e Rafinha), no Real Madrid (Carvajal e Arbeloa), no Barcelona (Dani Alves e Montoya), no Atlético Madrid (Juanfran e Jesús Gámez) ou no Chelsea (Ivanovic e Azpilicueta). Está a caminho das estrelas. Lá chegará.
O emocionado adeus de Fredy
Fredy tinha 13 anos de casa, era um dos melhores jogadores do plantel e, sabe-se agora pelos testemunhos de companheiros, era também um líder do balneário. Não vale a pena iludir o que entra pelos olhos dentro: parte contrariado, resistindo às lágrimas mas não às emoções, a troco de verbas não tornadas públicas. Por ser um enorme futebolista, uma força aglutinadora do grupo e um elo de ligação à história e aos adeptos, noutro tempo seria considerado um jogador sem preço. A diferença é que, hoje, nem temos direito a saber o valor da transferência.
Um veterano com 18 anos
É escandaloso que, aos 18 anos, o bracarense Danilo revele a sabedoria, o entendimento do jogo, a calma, a visão e a regularidade de quem já descobriu todos os segredos do futebol como desporto coletivo. Se a juventude está associada ao feitiço de truques que divertem as bancadas mas subvertem a essência do jogo, há adolescentes que crescem impulsionados pelo espírito responsável de veteranos. Danilo já é um médio fabuloso, está em boas mãos (Sérgio Conceição) e tem pela frente longo processo de aquisição de competências. Quando o concluir, será uma referência mundial.
Benfica de Jesus sem comparação
JJ está mais interessado em fazer história do que em ficar rico; prefere o mimo ao ouro, pelo que o conceito de felicidade está mais relacionado com as vitórias do que propriamente com a conta bancária – e na Luz tem conseguido satisfazer os dois desígnios. Em cinco temporadas, ganhou dois títulos, perdeu outros tantos por acidente e só foi dominado pelo FC Porto de Villas-Boas. Meia dúzia de anos não chega para quebrar uma hegemonia de três décadas, mas ajudou a mudar o paradigma: o Benfica de JJ só não é campeão por acaso; o que ele herdou, só por milagre ganhava o título.