Três jogos consecutivos sem ganhar, 1 só ponto conquistado em 9 possíveis e a queda para o quinto lugar já atrás dos rivais Benfica e FC Porto. Este é o resumo dos últimos desempenhos leoninos na Liga Sagres. Não fora, pelo meio, a importantíssima vitória em Donetsk, na Ucrânia, em partida da Liga dos Campeões (sucesso que abriu as portas dos oitavos-de-final), e poder-se-ia falar em crise evidente, embora também seja justo dizer que, no ciclo de embates internos sem vencer, se incluem jogos com Benfica e FC Porto, sempre duelos complicados para os emblemas envolvidos.
Mas, independentemente do rendimento desportivo, creio que os problemas no Sporting são bem mais graves. E, desta vez, nem vou falar daquilo que considero serem uma série de erros estratégicos de Filipe Soares Francos. Sobre isso já opinei recentemente.
Paulo Bento, com o recente castigo aplicado a Miguel Veloso e Djaló (deixando-os de fora em Paços de Ferreira), deixou claro, pela enésima vez, que é um treinador que tem na disciplina um dos seus mandamentos fundamentais. Não questiono a opção. Mais: admito que qualquer técnico de sucesso tem, entre outras valências, de ser um disciplinador, alguém que não conviva bem com o "deixar andar", com o "está tudo bem".
Mas, ser disciplinador não pode significar impedir a comunicação, a discussão salutar, a troca de opiniões. Paulo Bento tem toda a legitimidade, enquanto líder de um grupo, para decidir quem é convocado, quem joga e em que posição. Mas pode e deve admitir, ainda por cima em privado, que determinando atleta, directa ou indirectamente (através dos seus representantes) manifeste a sua preferência por actuar nesta ou naquela posição.
Numa das suas últimas conferências de imprensa, Paulo Bento disse que "utilizarei sempre os jogadores em função dos interesses da equipa". Apoio, incondicionalmente, as palavras do técnico. Mas, é por isso mesmo, que sou obrigado a dizer que errou ao deixar de fora Miguel Veloso e Djaló no último encontro. A menos que alguém me consiga convencer que os futebolistas em causa não são importantes no grupo. E isso, pelo menos para mim, nem deve ser discutido. É óbvio que a importância dos atletas não lhes pode valer, automaticamente, um lugar no onze, mas daí a ficarem de fora da convocatória... vai enorme distância.
Avaliar, com rigor, tudo o que se passa na equipa é uma das missões essenciais de um líder. Mas, de seguida, tomar decisões correctas é ainda mais importante. Abdicar dos jogadores não é, na maioria dos casos, uma sanção lógica, pois essa, antes do mais, prejudica o colectivo, o rendimento da equipa. Se Paulo Bento está insatisfeito com o trabalho dos jogadores pode e deve propôr é que a SAD os castigue monetariamente. Essa é forma correcta de atingir apenas os prevaricadores e salvaguardar o grupo.
Mas, numa SAD onde um dos administradores insiste em dizer que não se passa nada com Vukcevic, quando horas depois o treinador assume que o futebolista "trabalha pouco" e tem "escassa vontade de jogar no Sporting", é fácil constatar o desnorte reinante.
PS - Segundo vários relatos, Paulo Bento terá considerado uma "pressão inaceitável" o facto do empresário de Miguel Veloso e Djaló ter discutido, em reunião com a SAD, o presente e o futuro dos seus representados. Sem ponta de ironia, admito que ainda não percebi qual é a pressão que incomoda ao treinador. É que todos os jogadores querem jogar (de preferência nas posições que mais gostam), auferir o salário mais alto possível e, naturalmente, tentar dar o "salto" quando a oportunidade surge. Menos normal, se calhar, é ver os elementos da SAD, em vésperas de um jogo importante, desconcentrar o treinador com questões que, em princípio, devem ser resolvidas pelos próprios. Passar esta informação para o técnico é que me parece uma "pressão inaceitável".