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Dois milagres em Portugal

Milagre 1. Quem visitar o site de Record pode ler os inúmeros elogios ao Papa João Paulo II que os nossos leitores cibernautas ali quiseram expressar. É o momento de reconhecer os esforços em prol da paz e da reconciliação ecuménica que o falecido sucessor de Pedro desenvolveu ao longo de um pontificado que fez dele uma figura de transcendente dimensão mesmo para os não católicos. Mas o que eu não esperava era o respeito absoluto com que o minuto de silêncio foi cumprido nos campos de todo o País, com as claques, por vezes tão criticadas, a aplaudirem a memória do “Papa que veio de longe”. Fantástico!

Milagre 2. Depois da gestão vitoriosa de Mário Rosa Freire, o Belenenses, dirigido ora por homens competentes, ora por almas bem intencionadas mas com pouco jeito para a função, conheceu dias difíceis que podiam ter acabado com o clube. Esse susto só foi banido de vez com a dedicação e o empenho das equipas que tiveram em Ramos Lopes e Sequeira Nunes os rostos visíveis, e que legam à nova direcção um trabalho notável que se torna indispensável prosseguir. E por muita consideração que me mereça, e merece, a candidatura de Mendes Palitos, no sábado vou votar na continuidade do que funcionou bem – vou votar Cabral Ferreira.

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Postiga

Talvez o FC Porto não tivesse ganho ao Gil Vicente e talvez este seu jovem ponta-de-lança não se reencontrasse tão depressa com os golos e voltasse a entrar nos carris de uma carreira tão promissora se Luiz Felipe Scolari não fosse o seleccionador nacional. Que outro responsável técnico da equipa de todos nós ousaria afrontar as opções portistas e manter na alta-roda do futebol português um jogador atirado no seu clube para o banco dos últimos minutos e para a tristeza e a ineficácia daí recorrentes? Não vale a pena filosofar muito sobre o assunto: Hélder Postiga só teve aquele êxito decisivo no último domingo porque, antes, Scolari lhe deu a oportunidade de marcar ao Canadá e à Eslováquia. Pode custar, mas é assim.

Mantorras

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0 caso do angolano tem algo a ver com o Além. Não sei se ele vai à bruxa, se tem algum desígnio diabólico ou se foi Deus que o contratou para anjo vermelho na Terra. O que sei é que quando Mantorras entra em campo, a bancada treme. Quando Mantorras corre, as pernas dos adversários emperram. Quando Mantorras toca na bola, os nervos dos opositores entram em colapso. Quando Mantorras remata, o guarda-redes fica com as luvas molhadas e a baliza aumenta de largura. Mantorras é a alegria do povo, o futebol na sua face mais lúdica, a esperança na vitória quando ela já parecia impossível. Mantorras é um génio em bruto, traído por um joelho. Alguém lá em cima ainda não sabe bem o que fazer com ele.

Liedson

Lá está: há sempre mais qualquer coisa a dizer sobre a pérola de Alvalade. Repare-se nos golos que o remoçado Sá Pinto – remoçado, pelos vistos, para o seu melhor e para o seu pior – perdeu na partida do Bessa, sozinho na frente da baliza. Recorde-se a seguir como começou a goleada leonina: bola metida após um ressalto na frente de Liedson que, já no lado direito da grande-área, teve o pormenor decisivo para o primeiro golo e talvez para a vitória – um pequeno desvio ainda mais para a direita, o toque de talento que lhe permitiu tirar eficácia à saída de William, que dispunha de um certo “tempo” para ter êxito e que, por arte pura de Liedson, o perdeu. O futebol será sempre um espectáculo ímpar com artistas destes.

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Luís Guilherme

O presidente da Comissão de Arbitragem da Liga, Luís Guilherme, bateu o pé para forçar a demissão do vogal da mesma comissão, Júlio Mouco, arguido no caso Apito Dourado e que dera sinais de querer voltar atrás no anunciado pedido de auto-suspensão do cargo. Fez bem porque Mouco acabou mesmo por sair e deixou que menos suspeições – injustas seguramente até pela actual situação de inocente do acusado – pairassem sobre uma comissão destinada à eterna suspeição – ou não vivêssemos em Portugal. Mas Luís Guilherme que me perdoe: o que ele fazia bem era ter igualmente batido com a porta. Primeiro, porque era tempo de mandar os descontentes pentear macacos, ou seja, eles que resolvam os problemas. Depois, porque a credibilização do futebol português passa por uma nova geração de dirigentes, de treinadores e de protagonistas do jogo. E também de opinadores e de jornalistas. Sem isso, serão mais uns anos a meter pregos no caixão.

Nelo Vingada

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Só o tempo, permitindo que a poeira assente, se torna o grande julgador de resultados e comportamentos. Não foram fáceis os primeiros tempos de Nelo Vingada em Coimbra, o sub-rendimento da equipa era evidente, a desmoralização era grande. O treinador precisou de dar o seu melhor, de atacar em diversas frentes e de ultrapassar a mais difícil das provas: a da desconfiança dos que não acreditavam ser possível a reviravolta e que tiravam ilações definitivas dos primeiros resultados, inevitavelmente negativos. Mas este técnico conhecedor e discreto sabia que o seu trabalho havia de dar frutos. E eles aí estão: a Académica fora da zona de despromoção, os adeptos e a alegria a voltarem às bancadas. A Briosa é outra vez uma festa.

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