_

Opinião
José María Gallego Gestor desportivo

Duas maneiras de ganhar um Mundial

Há finais que simplesmente identificam um campeão para a História. Outras, mais raras, acabam por marcar uma época, não pelo resultado, mas pelo que revelam sobre o caminho que o futebol decidiu seguir. A de domingo, em Nova Jérsia, tem esse aroma. Não sei se ficará na memória pela qualidade do jogo. Sei que ficará pelo que representa.

Espanha e Argentina não são apenas duas grandes seleções que se encontraram no último jogo do torneio. São duas respostas diferentes à mesma pergunta: como se constrói um campeão? Uma responde com a paciência de um arquiteto. A outra, com a obstinação de quem ganhou tanto que deixou de acreditar em derrotas definitivas.

PUB

Comecemos pela Espanha, que chega a esta final sem precisar de pedir desculpa a ninguém. Já não é aquela seleção que vivia à sombra de 2010, recitando de cor os nomes de Xavi e Iniesta como quem reza um terço. É outra coisa. Luis de la Fuente construiu uma equipa capaz de mudar de protagonistas sem perder a identidade, e isso, mais do que qualquer nome próprio, é o que deve preocupar os adversários. Fabián Ruiz assumiu o comando do meio-campo e foi decisivo frente à Bélgica; Mikel Merino saiu do banco para marcar a Portugal e voltou a ser determinante mais tarde. Um selecionador capaz de deixar Pedri no banco numa meia-final de um Campeonato do Mundo sem que isso provoque um debate nacional possui algo que muito poucos treinadores conseguem alcançar: autoridade tranquila.

A vitória sobre a França foi muito mais do que uma qualificação para a final. Confirmou que esta Espanha defende tão bem como ataca. Ter sofrido apenas um golo até às meias-finais resume a solidez de uma equipa que, desde o Europeu de 2024, deixou de ser uma promessa para se transformar numa candidata permanente aos grandes títulos. Chegar a esta final com possibilidades reais de conquistar o segundo Mundial da sua história, dezasseis anos depois de Joanesburgo, não é fruto do acaso. É a consequência lógica de um trabalho que ninguém interrompeu a meio do caminho.

E é precisamente aqui que a reflexão começa a incomodar um pouco outros países.

PUB

Do outro lado aparece uma Argentina que talvez não jogue melhor do que ninguém, mas que continua determinada a não perder quando realmente importa. Sofreu contra Cabo Verde, contra o Egito, contra a Suíça e sofreu de forma quase indecente frente a uma Inglaterra que esteve a um remate de escrever a sua própria história de redenção. Esteve em desvantagem na meia-final, deu a volta ao resultado, sempre com a assinatura de Messi nas duas assistências da reviravolta. Aos 39 anos, o argentino disputa a terceira final de um Campeonato do Mundo, um feito que, até agora, apenas o mítico Cafu tinha conseguido. Há qualquer coisa de comovente e, ao mesmo tempo, desesperadamente eficaz nesta Argentina de Scaloni: a convicção de que competir bem vale tanto como jogar bonito e de que um título conquistado com sofrimento ocupa exatamente o mesmo espaço na vitrina. Se vencer, será a primeira seleção a revalidar um Campeonato do Mundo desde o Brasil de 1958 e 1962. Não é um pormenor. Demonstra a dificuldade de uma competição que, infelizmente para os amantes do futebol, obriga a esperar quatro anos por uma nova oportunidade.

E Portugal, onde fica no meio de tudo isto?

Cabe-lhe olhar de fora, o que já não é pouco depois do que aconteceu este mês. Há treze meses, em Munique, derrotou esta mesma Espanha na final da Liga das Nações, numa noite resolvida nos penáltis que ainda hoje é recordada com orgulho. Foi a demonstração de que Portugal tem qualidade suficiente para discutir qualquer jogo de igual para igual. Isso continua a ser verdade e ninguém o deve pôr em causa. Mas o futebol tem uma crueldade elegante: não perdoa distrações e os ciclos mudam muito mais depressa do que gostaríamos de admitir. Há poucos dias, nos oitavos de final deste Mundial, foi essa mesma Espanha quem eliminou Portugal, graças a um golo tardio de Mikel Merino, um lance que muito provavelmente colocou um ponto final na carreira internacional de Cristiano Ronaldo. Entre Munique e Dallas passaram apenas treze meses. Tempo suficiente para que tudo mudasse de lado.

PUB

A resposta portuguesa a essa eliminação talvez diga mais sobre o país do que a própria derrota. Em vez de dar continuidade a um projeto para que amadurecesse, a Federação mudou de selecionador em poucos dias e apostou em Jorge Jesus, aos 71 anos, para a sua primeira experiência à frente de uma seleção nacional. Pode revelar-se uma boa decisão; o seu currículo fala por si. Mas convém não confundir essa escolha com continuidade. Trata-se de uma rutura motivada pela urgência, exatamente o contrário do que fez a Espanha depois de perder finais ou meias-finais importantes. A Roja manteve o rumo, protegeu o projeto e teve paciência. A Espanha que hoje disputa o título é a mesma que Portugal derrotou na Alemanha e a mesma que, mais tarde, eliminou a equipa portuguesa no Texas. A diferença nunca esteve na qualidade dos jogadores. Esteve na paciência de quem liderou o projeto.

Do talento português já ninguém duvida. A questão continua a ser outra: saber se o país está disposto a esperar o tempo necessário para que um projeto dê frutos ou se continuará a procurar sempre a solução que promete resultados imediatos. É uma pergunta incómoda, mas talvez seja precisamente esta final que nos obrigue a fazê-la.

Para além do resultado, este jogo representa também o confronto entre dois símbolos do futebol contemporâneo: a Europa contra a América do Sul, o campeão do Mundo frente ao campeão da Europa, a capacidade argentina para resistir contra a ambição espanhola de dominar os jogos. É Messi, provavelmente numa das últimas grandes noites da sua carreira, frente a uma geração espanhola que mal tinha começado a ver futebol quando ele já conquistava títulos. Poucas finais reúnem com tanta clareza o fim de uma era e o nascimento de outra em noventa minutos.

PUB

Não sei quem vai levantar a Taça do Mundo, nem me atrevo a fazer um prognóstico. O que sei é que há finais que não se limitam a entregar um troféu. Também ajudam a explicar o momento que o futebol atravessa. E esta, estou convencido, será uma delas. Nós, do lado de fora, faríamos bem em olhar menos para o resultado de domingo e muito mais para o processo que, no fim, permite a uma equipa ou a uma seleção alcançar um grande objetivo.

Por José María Gallego
Deixe o seu comentário
PUB
PUB