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Tirando essa lamechice da evocação da final de Viena, em 1987, que colocou frente a frente - há cerca de 28 anos - o Bayern e o FC Porto mai-los seus calcanhares (de Madjer), evocação essa que Lopetegui e Guardiola atiraram para o cesto dos papéis com um ar de enfado, quando sobre ela foram questionados, o jogo de quarta-feira entre portistas e bávaros teve quase todos os condimentos de um "desafio colossal", como antecipadamente o havia definido Julen Lopetegui.
Um estádio cheio, vibrante, galvanizado por um começo empolgante do FC Porto, que não teve medo do "colosso" e apertou o Bayern, como se o Mundo fosse acabar depois daquela hora e meia. Essa foi a melhor opção que Lopetegui poderia ter feito e que resultou quase na perfeição: o FC Porto conseguiu um belo resultado no Dragão, aumentando substancialmente as possibilidades de seguir para as meias-finais, embora o Bayern - com alguns jogadores recuperados - tenha ainda uma palavra a dizer na eliminatória, uma vez que o golo marcado fora pode ser um trunfo, considerando que a defesa portista, sem Danilo nem Alex Sandro, dois esteios da equipa, vai apresentar-se desfalcada e, por isso, sem a sua máxima força.
Havia, pois, duas formas de olhar para o Bayern: para o papão histórico-moderno, agora numa fase de transformação operada por um dos melhores treinadores do Mundo (Guardiola), o que não deixa de provocar sempre algumas tensões internas, absolutamente perceptíveis, quando um treinador estrangeiro se propõe alterar o "status quo" e ameaçar, inclusive, a mentalidade dominante; ou para uma das equipas mais fortes da actualidade, mas atingida na sua espinha dorsal através da eclosão de uma corrente de lesões mais ou menos imparável e que há muito vinha perturbando o sono e a proverbial bonomia de Guardiola.
Lopetegui não teve medo, percebeu a situação e decidiu partir para a exploração de um Bayern, conjunturalmente menos papão e, por isso, perfeitamente ao alcance de - como dizer? -… ser papado. Ainda faltam pelo menos 90 minutos, mas o que o FC Porto fez ao Bayern, mesmo a um Bayern amputado, merece desde já os mais amplos elogios. Mas suscita algumas questões, adiante afloradas.
Bascos e catalães têm uma coisa em comum: a fibra dos que, visceralmente, têm uma apetência especial para lutar por causas e, portanto, pelas suas "autonomias", sejam elas políticas, culturais, sociais ou apenas no plano dos princípios. Por isso, temos visto Lopetegui a agarrar-se a algumas das ideias em que acredita, embora com o bom senso suficiente para não chocar frontalmente com a "estrutura" que encontrou e Guardiola, noutra dimensão, a fazer o mesmo, e a entrar em choque com o departamento médico do clube, habituado a gerir as situações clínicas de acordo com a autonomia conferida pela prática da sua jurisdição, sem o "ferrete" da área técnico-desportiva.
Aliás, esta primeira mão da eliminatória entre o FC Porto e o Bayern, já muito rescaldada em termos técnico-tácticos e das generalidades que, a propósito, sempre se repetem nestas ocasiões, deveria merecer outra atenção relativamente ao que se passou com os respectivos departamentos médicos:
1) O FC Porto recupera milagrosamente Jackson Martínez, o seu jogador mais relevante;
2) O Bayern não recupera nenhuma das suas pedras nucleares.
Consequências conjunturais:
1) O FC Porto ganha qualidade na zona de finalização e, com ela, toda a equipa ganha nas suas movimentações basilares;
2) O Bayern não acrescenta valor ao jogo e, em certos momentos, dá a sensação de ser uma equipa banal (banalizada pela voragem portista).
Consequências estruturais:
1) O FC Porto reforça o poder de consolidação entre a equipa técnica e as pedras angulares da estrutura;
2) O Bayern vê o seu departamento médico - com uma chefia de pouco menos de 40 anos - a demitir-se em bloco, certamente na sequência das declarações produzidas por Guardiola no seguimento do lançamento da partida no Dragão.
Creio que faz todo o sentido suscitar, a partir daqui, o debate: Jackson Martínez não jogava desde 6 de Março (Braga) e, cinco semanas depois, aparece em grande estilo, com ritmo, totalmente envolvido na manobra colectiva da equipa, como se não tivesse estado sem competição durante 5 semanas. Quebrou, a esse respeito, todos os cânones do futebol. Apesar da grande evolução ao nível da recuperação física/clínica e da modernização/sofisticação dos departamentos médicos, não se pode dizer que o nível de "forma" apresentado pelo colombiano seja uma coisa normal. Mas é, certamente... de boa ciência.
Ganhou Lopetegui, ganhou Quaresma, ganhou o FC Porto, mas também o departamento médico. É bom não esquecer.
JARDIM DAS ESTRELAS - ****
Quaresma reformatado
A "semana azul" obriga a relevar o rendimento de Quaresma diante do Bayern, mas sobretudo a relação profissional que se estabeleceu entre o jogador e Lopetegui. Este não gostava da atitude do jogador. O jogador não gostava da atitude do treinador. Pareciam condenados a desentenderem-se. O bom senso de ambos prevaleceu. E quem ganhou foi o FC Porto.
O CACTO
Ninguém faz nada?
A Federação e a Liga têm de arranjar mecanismos que regulem as relações negociais entre diferentes SAD. Não podemos continuar a assistir os emblemas mais poderosos pegarem na sua bolsa de excedentários e colocarem-nos em clubes do mesmo quadro competitivo, deixando ao seu livre arbítrio a respectiva utilização. Jesus diz que os emprestados não devem jogar contra a "equipa-mãe". É um critério. Mas carece de regulamentação inequívoca e de aplicação para todos. Ninguém pode assumir acordos verbais porque, ao fazê-lo, corre o risco, até, de descida de divisão. Mas o problema não se esgota nos emprestados. É preciso verificar estes mecanismos de sinalização de passes a troco de determinadas verbas, como acontece entre Benfica e Belenenses, mas situações similares já aconteceram noutros tempos com outros emblemas. A integridade das competições está corrompida. Não são apenas os árbitros que podem ajudar a ganhar campeonatos.