1 Se há lição que o futebol nos proporcionou ao longo do tempo é que as respostas emocionais das plateias se alheiam do conceito de fidelidade, são indiferentes à justiça e nem sempre se deixam condicionar pela gratidão devida aos artistas que, em determinado momento, lhes encheram a alma. A história do jogo está cheia de casos, muitas vezes inverosímeis à primeira vista, de heróis transformados em réus só porque os adeptos decidiram pôr fim ao estado de graça de semanas, meses e até anos, por norma justificados pelo seu peso na vida do clube. Serve isto para lembrar que o futebolista está, muitas vezes, à mercê dos profetas do momento, essa espécie sem memória nem convicções, capaz de defender uma coisa e logo a seguir o seu contrário, fazendo depender a grosseria de um gesto eficaz ou de um erro com influência no resultado.
2 Cristiano vive fase conturbada no Real Madrid, porque nada do que fez em seis anos de clube (e bateu quase todos os recordes) é suficiente para travar os súbitos ímpetos recriminatórios de adeptos, dirigentes e até alguma comunicação social. O diferendo levanta dúvidas quanto ao futuro. Porque as críticas não têm sustentação, deve tirar conclusões e agir em conformidade, salvaguardada a parte financeira inerente à condição de jogador que é, ele próprio, empresa gigantesca. Tanto quanto possível, e perante esses impulsos passionais de circunstância agora virados contra ele, CR7 terá de responder na mesma moeda, isto é, com o mesmo sentido de imediato. Se nada do que fez até agora é suficiente para travar comportamentos miseráveis, indignos e preconceituosos, ganha força a opção de ir pregar para outra freguesia. O mais depressa que puder.
3 Como se viu frente ao Espanyol, CR7 continua a ser o sol de clarividência nas sombras do desvario em que se tornou o Real Madrid de Ancelotti; o aventureiro que ilumina a aura de génio sempre que toca na bola e resgata esperança dos escombros de um sistemático desastre coletivo. Aos 30 anos, é insustentável olhar para o futuro como se estivesse, permanentemente, a responder perante um tribunal do Santo Ofício; é revoltante fazer o balanço de seis anos como abono de família madridista e sentir-se condenado a jogar sob tortura, vítima de quem devia ajoelhar-se à sua passagem ou mesmo beijar-lhe os pés, responsáveis pelas maiores alegrias da última década. CR7 já devia estar a salvo de instintos primários, não pela excelência do passado longínquo mas pelos 58 golos em 53 jogos da presente época.
4 O diálogo entre jogador e público pressupõe comunicação instantânea: um oferece talento, os outros pagam com aplausos. O problema entre Real Madrid e CR7 é o exagero, porque o português atingiu nível estratosférico e acomodou-se no patamar divino onde só cabem os deuses do clube mais ganhador da história do futebol. Por isso, qualquer assobio ou outra manifestação de desagrado encerra ingratidão sem limites e uma falta de grandeza escandalosa. CR7 já sabe que nem os 311 golos pelo clube (já só tem Raúl pela frente) lhe dão crédito para travar a fúria inconcebível de quem levou anos a idolatrá-lo. A etapa no Bernabéu não acabou mas o divórcio começa a fazer sentido. Para o fim de carreira que merece, Ronaldo terá sempre o refúgio de Manchester, onde um povo nostálgico o aguarda com paixão e de lágrimas nos olhos, pronto a fazê-lo feliz.
Agora o acaso é falhar o título
Ser campeão no Benfica por três vezes em seis anos é um feito extraordinário
Jorge Jesus já só aceita comparações com as figuras maiores da lenda encarnada: Otto (quatro vezes campeão), Guttmann, Hagan e Eriksson, todos com as mesmas três vitórias. O feito é tão mais relevante quando conseguido em pleno ciclo de hegemonia do FC Porto. Nos anos anteriores à chegada de Jesus, a águia festejou o título uma vez, por acaso, com Trapattoni. A diferença em seis anos é essa: exceção feita ao FC Porto de André Villas-Boas, agora só por acaso o Benfica não é campeão.
Exemplo de Lito serve para Marco
Não há treinadores perfeitos, há homens certos para determinados contextos e alguns projetos
Sporting e Belenenses viveram em permanente conflito porque os presidentes atribuíram aos seus treinadores a tarefa redutora de melhorar o que lhes foi dado, impedindo-os de uma intervenção mais abrangente. Em muitas fases da época, Marco Silva e Lito Vidigal chocaram com a realidade quando era suposto adaptarem-se a ela e serem felizes. A insistência com que um deles (Lito) alertou para o desfasamento entre o que desejava (crédito pela salvação e lançamento de uma candidatura europeia) e o que lhe permitiram fazer conduziu à rotura. Em Alvalade o fim será o mesmo.
Só Lopetegui tinha esperança
O final da temporada azul e branca está a ser mais traumatizante do que era de esperar
Julen Lopetegui transmitiu a imagem de um homem só no Restelo, a começar pela diferença entre a ambição do discurso e a ação dos jogadores. Frente ao Belenenses, o FC Porto foi uma equipa leve, dispersa e conformada; que cometeu quase tantos erros como nos vinte jogos anteriores, prova de que, afinal, o título era uma simples miragem. Ficam ainda duas imagens marcantes: o drama de um homem ajoelhado, de mão na cara, vergado ao insucesso, e o desvario de destruir a murro o banco de suplentes, perante o ar misericordioso dos parceiros de odisseia.
Por Rui Dias