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É tão importante para José Mourinho no Chelsea como era para Jorge Jesus no Benfica. Qualquer treinador sonha ter um jogador tão talentoso e fiável a desempenhar funções de tão grande responsabilidade para a produção global da equipa.
1 Conta Valdano que Manolo Sanchis, seu companheiro no Real Madrid e membro da Quinta del Buitre (ao lado de Michel, Martin Vasquez, Pardeza e, claro, Butragueño), se realizou como segunda figura num tempo em que podia reclamar estatuto de protagonista. Um dia, a poucas horas de entrar em campo, acordou da sesta e, quando se juntou aos companheiros, deixou no ar uma questão: “Com quem jogamos hoje?” Era só com o Barcelona. Matic desconecta do Mundo, mas só em campo. Tanto lhe faz que estejam mil, dez mil ou cem mil pessoas nas bancadas; que o jogo seja na Luz ou em Stamford Bridge; em Arouca ou em Manchester. Prova de que se compromete com a causa que defende e assume como preocupação maior o respeito pelo futebol.
2 Matic influencia por presença. Dá o exemplo. É um líder silencioso que se impõe atrás, à frente e na zona central, porque dispõe de qualidades técnicas perfeitas para médio, tendo físico de central ou ponta-de-lança: é poderoso no jogo aéreo; indomável nos duelos individuais (com a vantagem de não cometer faltas em zonas perigosas); sumptuoso na condução da bola (que, nos seus pés, é como se viajasse num cofre-forte) e no sentido organizativo que o orienta – porque não se limita ao senso comum dos passes para o lado e para trás, acrescenta perigo à ação com as roturas que provoca na muralha defensiva adversária. Não é normal um futebolista com 1,94 m e 82 kg ser tão ágil, coordenado e esclarecido. Um dos seus grandes méritos é mesmo entender o que o futebol tem de guerra, caça, xadrez e até póquer.
3 Não teme a bola e estimula a organização do jogo à custa de associações curtas, que vão comprometendo toda a equipa na progressão participada, mas também de lançamentos à distância, prova de que, mesmo se não parece à primeira vista, possui ampla visão do que se passa à volta. Não recusa o trabalho mais sujo e em tudo revela tremenda elegância – o que, se não chega para ganhar jogos, também não serve para perdê-los. É notável vê-lo assimilar, num abrir e fechar de olhos, a ideia e o estilo da equipa que representa; comprometer-se com o projeto e ser tão importante para José Mourinho no Chelsea como era para Jorge Jesus no Benfica. Qualquer treinador sonha ter um jogador tão talentoso e fiável a desempenhar funções de responsabilidade tão elevada para a produção global da equipa.
4 É impressionante como, em tão pouco tempo, Matic assimilou todos os princípios, movimentos, linhas estratégicas e conceitos táticos de uma das mais estruturadas equipas da atualidade; é uma imensa prova de talento e inteligência que tenha conseguido, automaticamente, não só integrar-se numa orquestra de referência à escala planetária, assente em vasta e complexa cadeia de cumplicidades, como ainda melhorá-la à custa de qualidade técnica, visão e restantes argumentos individuais que dimensionam o coletivo. Vê-lo dominar todos os segredos estratégicos que fundamentam o futebol do Chelsea, pisando palcos de elite como se estivesse a brincar no jardim da rua onde nasceu, valida a convicção segundo a qual é, neste momento, e com margem de erro reduzida, o melhor médio-centro do Mundo.
Estalou o verniz aos cavalheiros
Durante três anos, as derrotas foram todas por culpa de Mourinho e as vitórias resultaram de ações rebeldes promovidas pelos jogadores. Diziam então os críticos que o Real Madrid não se revia na cruzada contra os árbitros promovida por Mou. Que era feio. Pois bem, nem um ano passou e já estalou o verniz aos cavalheiros. Perderam (e bem) com o rival e desferiram ataque fortíssimo à arbitragem. Com razão, porque Mallenco é dos árbitros mais incompetentes de que há memória; sem ela, porque a derrota não se explica pelos erros do juiz.
A grande lição que o Estoril deu
Julgou que fez um golo mas não foi considerado; sofreu outro que valeu e ainda ficou a jogar com menos um antes do intervalo, por expulsão não de um qualquer, mas do seu melhor jogador (Evandro). Face a tanta contrariedade, o que fez a equipa de Marco Silva? Foi igual a si própria, pegou na bola e continuou a jogar, com os fundamentos que o treino lhe confere, sinal de que vale sempre a pena ter uma ideia construtiva do futebol. No fim, empatou o jogo e, mesmo que também pudesse tê-lo perdido, esteve à beira de ganhá-lo. Neste momento, poucos em Portugal teriam conseguido tanto.
Bebé é puzzle para completar
Bebé foi brilhante no segundo golo que apontou ao Arouca. As suas armas como avançado são temíveis, a principal das quais a capacidade para pegar na bola e agir como um TGV, derrubando todos os obstáculos que lhe aparecem pela frente – de alguns até se consegue desviar com engenho. Quando a coisa lhe corre bem, recupera a convicção de que tem potencial ilimitado; quando corre mal (a maior parte das vezes), acentua a ideia de que lhe falta entender o futebol como jogo de equipa e valorizar as suas chaves coletivas. No dia em que completar o puzzle será jogador para um grande.