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Ninguém me tira da cabeça que o impasse das negociações entre o Sporting e os representantes de Carrillo resulta, em grande parte, da adaptação muito difícil que o presidente dos leões está a fazer, com a resistência possível, aos ditames do futebol-negócio.
É bom não perder de vista que, quando Bruno de Carvalho chegou a Alvalade, o Sporting estava atolado em problemas de natureza financeira, suportados em esquemas, não necessariamente ilícitos, que são a ponta do icebergue desse universo repleto de contradições, abusos e zonas nebulosas chamado, precisamente, futebol-negócio.
Quando Bruno de Carvalho chegou ao Sporting já lá estava Carrillo, contratado em 2011. O Sporting, tentando contrariar a sua tendência autofágica, mas afundando-se cada vez mais nela, negociava com fundos de investimento e recorria a todo o tipo de parcerias para viabilizar certos negócios. Conseguiu assegurar o concurso de alguns jogadores, como foi o caso de Carrillo, com dinheiro que entrou sem saber muito bem em que condições (empréstimo de Zahavi ou 50% dos direitos económicos? - dúvida essa que está expressa no último Relatório e Contas), mas parece pacífico que esses expedientes, regra geral, resultaram muito mal, considerando os mais elevados interesses da SAD leonina. De facto, não faz sentido que um clube com fama de formador e patrocinador do desenvolvimento de jogadores como Cristiano Ronaldo, Luís Figo, Ricardo Quaresma, Simão Sabrosa, etc., não tenho o proveito de ganhar MUITO dinheiro com a venda de jogadores.
Não é fácil para Bruno de Carvalho ser contra ou discordar dos mecanismos que estão subjacentes às transferências de jogadores e, ao mesmo tempo, ter de lidar com eles, seja através dos mensageiros dos fundos de investimento seja através dos empresários, que não têm mais nenhum outro objectivo senão ganhar (muito) dinheiro. Por isso, têm a imagem de salteadores. Bruno de Carvalho poderia ter resolvido o assunto de renovação mais cedo? Poder, podia. Simplesmente, não nos podemos esquecer que BdC era um ‘leão’ juvenil e estava a tomar contacto com a ‘selva’ do futebol há pouco tempo e trazia com ele o canivete de um certo romantismo. Não nos podemos esquecer igualmente que, apesar do reconhecimento de enorme potencial, o peruano era um futebolista intermitente, a apagar e a acender, sem pegar de estaca. Até à chegada de Jesus. O treinador do Sporting trouxe com ele a ‘ratice’ do ‘velho’ futebol e sabe que, perante as realidades, é preciso dançar ao ritmo da música. A pista está torta? Mas ainda assim é preciso dançar, sem deixar de lutar para que um dia a pista esteja direita. O ‘caso’ Carrillo não é mais do que um choque de concepções e não é mais do que um anacronismo. Ninguém me tira da cabeça que, neste caso concreto, negocialmente, e antes da chegada de JJ, foram ditas coisas (algumas das quais no recato de quatro paredes) capazes de separar as partes, ao ponto de uma delas, agora inflexível, desejar ‘vingança’…
Os empresários têm muita força e acabam por imiscuir-se, directa ou indirectamente, na gestão dos clubes de futebol. O caso do Valencia, que promete fazer correr muita tinta, é paradigmático. Um magnata de Singapura (Peter Lim) sonhou comprar um clube na Europa. Arquitectou o plano e nele incluiu uma das figuras que, pelo seu conhecimento, mais poderia ajudá-lo a alcançar o objectivo (Jorge Mendes). Vem agora um ex-vice do Valencia, Miguel Zorío, acusar Lim, Mendes e ainda o ex-presidente Amadeo Salvo de uma espécie de conspiração no sentido de, através da compra de jogadores da ‘fábrica’ Mendes, muitos deles especialmente inflacionados, se alcançar o financiamento necessário à compra do Valencia, em cuja arquitectação — diz a denúncia — cabem ‘apropriações indevidas’.
Nessa acusação dá-se o exemplo da compra de João Cancelo, "um jogador que não jogava na primeira equipa do Benfica, mas que ainda assim custou 15M€".
Vieira está nos antípodas de Carvalho: não apenas negoceia com fundos de investimento e empresários, como fez de Jorge Mendes um parceiro essencial e estratégico. O sucesso de Mendes é notório, mas cresceu e inchou tanto – fazendo do Benfica um dos seus ‘póneis’ de carrossel — que neste momento corre o risco de rebentar.
Jardim das estrelas -- *
'Complicómetro de Lopetegui'
Apesar do apoio institucional interno, apesar das soluções colocadas à disposição no plantel mais rico do futebol português, Lopetegui tem uma tendência especial para ligar o ‘complicómetro’. Baralha a equipa, baralha os jogadores, não gera rotinas, tira e põe, põe e tira, numa postura nevrótica que prejudica o FC Porto. Com menos soluções, inventaria menos. Que desperdício!
O cacto
Populismo -- que perigo!
Quando Luís Filipe Vieira (LFV) afastou Rui Gomes da Silva (RGS) da SAD do Benfica — a contrapartida era mantê-lo administrador mas tinha de sair do espaço de comentário televisivo — talvez não tenha ponderado a possibilidade de ter gerado um potencial ‘concorrente’. De modo talvez involuntário, LFV acicatou RGS a investir num registo crescentemente mais populista e aparentemente ‘mais benfiquista’. Desse registo, muitas vezes abusivo e a roçar uma certa irracionalidade que achamos no futebol, não resultaria qualquer dano especial para o Benfica se RGS não fosse vice-presidente do clube. Assim, LFV contraiu dois problemas: um certo talibanismo dialéctico associado à imagem do Benfica (aliás, a criar raízes noutras tribunas) e a gestação de um rival, quiçá já apontado às próximas eleições do grande clube da Luz.
Não é apenas o populismo que se torna perigoso. É o ódio e o fanatismo, que não deveriam ter lugar no Desporto. As insinuações de doping lançadas sobre os jogadores do FC Porto, a propósito da derrota no Dragão, ou têm prova documental ou atiram a imagem do Benfica para a lama. Porque o Benfica não precisa destes artifícios para justificar derrotas. Que pode fazer LFV?…