Opinião
Rui Santos

Football Leaks - a ponta do icebergue

As revelações feitas na internet pelo Football Leaks, que estão a causar grande impacto no futebol nacional - não tanto pelos conteúdos mas pela forma, pelo 'timing' e pelo frenesim causado pela tentativa de descoberta da origem - precisam de ser lidas com cuidado. É necessário perceber qual o objectivo desta súbita descarga de informação, com revelação de documentos, à partida, confidenciais. Deve notar-se que muita da informação despejada não é totalmente nova. Há uma parte documental que vem comprovar 'apenas' algumas informações veiculadas na comunicação social. O que surpreende é o detalhe e, repito, o suporte documental.

Nada disto me surpreende e é uma consequência, não apenas das clássicas rivalidades, estas absolutamente normais, mas amplificadas, de forma negativa, por um conjunto de circunstâncias que estão a mexer com o tecido futebolístico nacional. Em primeiro lugar, as revelações acontecem num momento de especial competitividade entre Benfica, FC Porto e Sporting. Os dois mais recentes títulos de campeão nacional conquistados pelo clube da Luz quebraram os longos ciclos de vitórias do FC Porto. Neste tempo, o Sporting - como diz o povo - fez o papel do cão que ladra mas não morde. Acontece, porém, que o fenómeno de bipolarização entre o FC Porto e o Benfica foi colocado em causa pela intenção, pelo discurso e pelo investimento de um Sporting que, confessadamente, não quer ficar mais para trás na discussão pelo título e para isso juntou um argumento capital: a contratação do ex-treinador do Benfica, Jorge Jesus. Foi a forma achada para que o cão ladrasse e… mordesse.

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Já todos havíamos compreendido que a forma como o ex-treinador dos encarnados saíra da Luz para entrar em Alvalade tinha gerado um fortíssimo terramoto com epicentro na Segunda Circular. As relações institucionais entre os três grandes, tirando algumas aproximações hipócritas, já não estavam boas e o cenário de confrontação entre Sporting e Benfica tornou-se mais grave, com o FC Porto, por via disso, a não ver rescaldado o falhanço de segundo título consecutivo em ambiente de fortíssimo investimento - com Lopetegui e uma 'camioneta' de novos jogadores.

Já se sabia que esta iria ser uma época particularmente agitada e não é por acaso que, nos fóruns de debate televisivo, os clubes fizeram as suas jogadas e investiram em protagonistas mais radicais - um perigo para a saúde pública. A este intrincado 'puzzle' há que ajuntar o clima de guerra vivido na órbita do Sporting, muito propício a vinganças, despeito e traições…

Num ambiente muito próximo do 'vale tudo', para além da possibilidade de estarmos perante um ou vários analistas de sistemas informáticos, com ferramentas poderosíssimas de intrusão, que lhes permitem espreitar pelo buraco da fechadura, não é de excluir a hipótese de envolvimento desta ou daquela família clubística, dentro do futebol. Pode ser mero 'voyeurismo', pode ser uma vingança perante a inoperacionalidade do jornalismo de investigação e de um certo conservadorismo no tratamento das questões mais fracturantes, mas pode ser muito mais. Não nos devemos esquecer de notícias que dão conta de haver 'espionagem' entre clubes grandes e não nos devemos esquecer que, na verdade, esta época, está muita coisa em jogo. Recordo, a talhe de foice, que nunca mais se apurou nada em relação ao célebre assalto aos escritórios da FPF…

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Seja lá o que for, o Football Leaks já demonstrou uma coisa: o futebol é tudo menos uma indústria transparente. Há muita falta de vontade de tornar as coisas claras e o tipo de acordos que são feitos correspondem, no mínimo, a sofisticadíssimas engenharias financeiras, com resultados muito duvidosos para os clubes e SAD. A regulação é escassa e a origem do dinheiro é cada vez mais duvidosa. Há-de haver razões para os passivos serem pornográficos. Este futebol-negócio da forma como é alimentado não promete grandes coisas. Começa a ver-se a ponta do icebergue.

NOTA - FC Porto e Benfica merecem referências especiais pelos seus desempenhos europeus.

NOTA 1 - [Eva] Carneiro foi o… bode expiatório de Mourinho para mais um assomo de afirmação de poder. Justifica-se que uma entrada em campo mal pensada, desportivamente, mas correcta do ponto de vista clínico, resulte numa espécie de despedimento?… Ou há outra parte da 'estória' que ainda não conhecemos?…

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NOTA 2 - O presidente do Benfica fez muito bem em criticar o comportamento de alguns adeptos em Madrid. Vieira sabe que a dureza da UEFA não se compara à macieza dos órgãos disciplinares nacionais. Neste aspecto, é preciso fazer mais quando as tochas são enviadas para o (próprio) relvado da Luz.

*Texto escrito com a antiga ortografia

JARDIM DAS ESTRELAS

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Quantos anos

para nascer

outro Cristiano?

para nascer

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Não sei quantos anos vão ser necessários para nascer, em Portugal, um jogador da estirpe de Cristiano Ronaldo, que acaba de se tornar no melhor marcador do Real Madrid de todos os tempos, com 324 golos, uma parte substancial dos 503 golos que já obteve ao longo da sua carreira e o coloca no top 10 dos maiores goleadores da história do futebol mundial. Já o escrevi várias vezes e não me canso de repetir: Cristiano Ronaldo é o produto mais aproximado do protótipo do jogador moderno. Concilia vocação com trabalho; talento com obsessão; habilidade com força física. É a fusão perfeita entre o homem-atleta e o homem-máquina. Com uma outra apetência extraordinária: a naturalidade e a facilidade como se converte num produto vendável, 'jogando' fora das quatro linhas, na área da publicidade e do marketing, como joga sobre o relvado. Notável!

O CACTO

PC e a FPF

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Pinto da Costa (PC) vê hoje Fernando Gomes (FG), presidente da FPF e ex-administrador do FCP, como uma das personalidades que mais prejudicou o 'sistema' da forma como, há uns anos, era caracterizado. O Benfica, por Vieira, aproveitou-se dessa fractura e nem PC nem o FCP têm, hoje, o 'poder total' de outros tempos. Por causa dessa perda de poder, PC não perde oportunidade de visar a FPF, como o fez agora, em razão da ausência federativa no jogo com o Chelsea. Pode a FPF queixar-se (?) de tratamento desrespeitoso da 'máquina portista' em relação aos dirigentes federativos. Se ele acontece e se não houver MEDO, a FPF tem forma de corrigir, em sede disciplinar, esse alegado mau tratamento. Um presidente da FPF nunca pode deixar que questiúnculas de natureza pessoal possam colocar em causa obrigações institucionais. A FPF em circunstância alguma pode demitir-se do seu papel; dos seus direitos e deveres. E é isso que está a fazer.

Por Rui Santos
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