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O futebol será sempre uma sintomática imagem da sociedade que assiste – “é uma metáfora da vida”, dizia o sublime Albert Camus.
Em Portugal, o futebol está como o país. A classe média tende a tal confisco que corre o risco de desaparecer, incapaz de resistir aos sacrifícios ditados por um Estado insano.
Também os clubes médios estão a deixar de ser capazes de produzir espetáculo, afundados em dívidas e sem recurso a crédito. O campeonato que agora dá os primeiros passos ameaça ser um longo bocejo onde FC Porto e Benfica – o Sporting ainda não define para que lado tomba – passeiam goleadas sem o mínimo de oposição da maioria dos emblemas representados no campeonato.
Mas o problema não é apenas português. Na senda da máxima de Camus, o futebol marca a traço simples e grosso esta involução social a que chamam neoliberalismo e não é mais do que um prelúdio do sempre selvagem – cada um por si. Seja indivíduo ou nação.
Na última década assistiu-se em Espanha, por exemplo, a uma reação dos mais fortes contra regras de redistribuição das verbas dos direitos televisivos. Este regresso ao liberalismo na área da negociação dos direitos tem cavado um fosso entre fortes e fracos que torna os jogos muito menos atraentes. Exceção feita, é claro, aos Barcelona-Real, de outra galáxia. Se olharmos para o mercado global, a grande solução para manter dezenas de milhões presos ao ecrã sem adormecer talvez seja acabar com todos os outros emblemas e fazer dos jogos Barça-Real uma novela semanal. Ronaldo contra Messi, de agosto a junho. E por cá, com a Liga incapaz de exercer qualquer influência para uma mínima redistribuição do bolo cozinhado por Joaquim Oliveira, os ricos vendem as joias. Mas, se já não pode ser Hulk, que seja James contra Cardozo.
Todos os sábados em prime-time e só para quem paga a joia do cabo, mais a Sport TV. Já nem o futebol é dos pobres? Que barbaridade!