DECRETO – Ganhar será o único objectivo do futebol? A questão continua e continuará eternamente em aberto. O futebol é um jogo – e ninguém joga para perder –, mas envolve componentes de ordem social, emocionais, estéticas e afectivas que o transformam também num espectáculo – e quando se fala na grande indústria é a pensar nesta componente e não noutra. Na I Liga 2001/02, por exemplo, os confrontos entre Sporting, FC Porto e Benfica encheram os estádios e todos os jogos foram transmitidos pela televisão. Permitam só mais uma pergunta: se na véspera dissessem aos adeptos que, por decreto, os jogos seriam decididos da marca de grande penalidade ou através de moeda ao ar, é razoável pensar que 50, 60 ou 80 mil estariam nas bancadas?
A TRAGÉDIA – As palavras são de Cesar Luis Menotti: "O jogador deve estar condicionado ao facto de entrar num teatro onde há milhares de espectadores com os quais deve obter uma relação afectiva, oferecendo-lhe as emoções que procuram." Quando se desloca ao estádio, o adepto transporta a esperança de magia, faz um voto de confiança nos seus, procura ser um estímulo para ultrapassar as dificuldades e fazer parte de um cenário que contribua para ajudar a vencer o adversário. Por exemplo, o Sporting encheu as Antas, mas o Paços de Ferreira não. Se fosse, apenas, para ver ganhar o FC Porto, seguindo o grau das probabilidades, teria acontecido o contrário.
CENÁRIOS – Interpretando livremente o raciocínio de Menotti, a tragédia será quando, suportado na aprovação das bancadas, tudo for legítimo para chegar ao triunfo: enganar os árbitros com a mais variada gama de truques; agredir adversários desde que ninguém veja; ameaçar fiscais de linha para os obrigar a decidir a favor, não da verdade, mas dos "nossos" interesses. Ora aí está um problema que não afecta a União de Leiria. A equipa comandada por José Mourinho tem andado com a casa às costas e mesmo quando joga no seu estádio em obras é como se o estivesse a fazer em campo neutro. Frente ao Sp. Braga, foi perceptível que o Magalhães Pessoa obriga os jogadores a um esforço suplementar: serem eles próprios, sem a ajuda de cenários grandiosos, a fazer do jogo um espectáculo.
RELATO – O mérito leiriense para entrar na segunda metade da prova na luta pelos primeiros lugares, ao lado do FC Porto e à frente do Benfica, é total. O compromisso dos jogadores com as suas carreiras, o valor atribuído à auto-estima e o significado que dão ao jogo em si mesmo não tem palavras para os descrever. Se os competidores directos têm a ajuda de estádios cheios para os empurrar para vitórias que só chegam às vezes, a U. Leiria continua a ganhar no deserto, resistindo ao vazio e à falta de calor humano. Aconteça o que acontecer a partir daqui, mantenha ou não a onda vitoriosa por muito mais tempo, o terceiro lugar actual é uma obra fantástica de um grupo cujo valor ainda não foi reconhecido em toda a sua dimensão. Por enquanto, os adeptos leirienses, na sua esmagadora maioria, ficam em casa a ouvir o relato, à espera de uma vitória para comemorar. São pessoas que não saem de casa para ver a totalidade dos méritos da mais fascinante equipa da I Liga e, apesar de viverem felizes, não sabem o que estão a perder.