General Enzo Pérez

General Enzo Pérez

Nele coincidem a inteligência lógica do condutor que cumpre o senso comum e a inteligência criativa do artista que desestabiliza a rotina: faz o que deve nas zonas neutras, onde trabalha como funcionário igual aos outros, e ilumina com mestria a manobra ofensiva...

1 A partir do momento que passou a exercer na zona central do terreno, teve de estudar e aprender os fundamentos da enciclopédia que caracteriza e sustenta boa parte do futebol benfiquista. Ninguém mais do que Enzo Pérez (por ser mais abrangente do que Luisão) precisa de estar identificado com o reportório tático introduzido por Jorge Jesus, que estabelece vastíssima cadeia de movimentos, posicionamentos, regras e tomadas de decisão – prova irrefutável de que também as grandes potências têm de responder a exercícios de memória nas mais diversas situações do jogo. É esse conhecimento cada vez maior dos princípios coletivos que faz de Enzo um futebolista raro, cuja dimensão vai muito para lá de obras-primas como a do espantoso golo ao Sporting.

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2 Em terrenos que o obrigam a conectar com quase toda a equipa, grande parte do funcionamento benfiquista depende da sua ação, da sua voz de comando, da precisão dos gestos e da escolha dos terrenos que pisa, sempre em articulação com os companheiros mais próximos. Agora que as tarefas na sala de máquinas estão mais clarificadas e mais bem distribuídas pelo posicionamento menos expansionista de Fejsa, Enzo pode dedicar-se a depurar as suas melhores armas, aquelas que o aproximam da zona de definição. Por ser cada vez mais um jogador com visão de 360 graus, a sua vocação maior reside na forma como se coloca e age de frente para o jogo e para a baliza adversária.

3 Enzo é jogador de intensidade máxima, versátil, solidário e talentoso; que sabe cuidar do espaço, gerir o tempo e zelar pelo equilíbrio estrutural; que tem ampla visão e técnica para alimentá-la; que olha, vê, analisa e executa como se os quatro passos fossem apenas um. Extremo adaptado às mais complexas exigências da zona central, onde tudo se concebe e decide, vai acrescentando elementos fundamentais às funções de centro-campista: ótima relação com a bola e arte para resolver de acordo com cada zona e circunstância; seguro em ações individuais ou promovendo o jogo combinado; denominador comum em progressões curtas e participadas mas também pelo modo como alimenta o jogo direto e até longo. Porque estimulou o sentido de responsabilidade, sabe onde valorizar segurança e onde pode assumir riscos para fraturar a organização adversária.

4 Às imensas qualidades técnicas, Enzo acrescenta argumentos que lhe dimensionam o estatuto de um dos melhores médios do futebol atual. Nele coincidem a inteligência lógica do condutor que cumpre o senso comum e a inteligência criativa do artista que desestabiliza a rotina e inventa soluções prodigiosas: faz o que deve nas zonas neutras, onde trabalha como funcionário igual aos outros, e ilumina com mestria a manobra ofensiva, como general de um exército a invadir os terrenos militarizados da aproximação à baliza contrária, entre adversários sem pudor e armados até aos dentes. Sendo uma peça da máquina, Enzo Pérez oleia o seu funcionamento, como referência que melhora os companheiros e multiplica a produção coletiva. Poucos conjugam tantas virtudes (influência, eficácia e brilhantismo) no desempenho da função. É, cada vez mais, a joia da coroa encarnada.

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Sempre obrigado a provas de vida

Varela não caiu no goto dos adeptos portistas e, por isso, está sob escrutínio permanente

Obrigado a cíclicas provas de vida, como se tivesse constantemente de mostrar o que vale, o extremo do FC Porto e da Seleção não precisava de ir tão longe na afirmação de que está vivo e podem contar com ele. Em Barcelos, era imprevisível que pegasse na bola à saída do seu meio campo e fosse por ali fora, galgando terreno a alta velocidade, indiferente a quem lhe saiu ao caminho, até ao tiro final que bateu o guarda-redes. Não há grandes jogadores só porque fazem um grande golo; mas há grandes golos que não podem ser obra de um jogador qualquer.

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Já só restam Carrillo e Capel

O Sporting retomou a política de valorização da academia em detrimento da aposta no exterior

Carrillo e Capel são os resistentes da anterior opção que sobrepôs o mercado internacional à formação, exemplos de aposta em jogadores estrangeiros mais ou menos consagrados (todos internacionais) e que elevaram a folha salarial até níveis incomportáveis para os cofres leoninos. O peruano é esperança adiada e o espanhol é paixão dos adeptos, pelo que são elementos sobre os quais não é possível tomar decisões levianas. A aposta na prata da casa (Carlos Mané) e num elemento da Liga em fim de contrato com o Marítimo (Heldon) mostra que o processo de substituição começou bem.

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Grande mérito de Marco Silva

Diz-se que o treinador deve ser um especialista dos jogadores que tem à disposição

A reflexão sobre este conceito conduz a Marco Silva, líder do sensacional quarto classificado da Liga. O Estoril assenta numa ideia clara, em mensagem que todos assimilaram e na harmonia entre a proposta do comando e a resposta de quem executa. Em causa está o aparente milagre de ver uma equipa a jogar cada vez melhor com piores jogadores. Isto se considerarmos o início do percurso, em 2012 – Steven Vitória, Jefferson, Carlos Eduardo, Licá e Luís Leal seriam hoje titulares, num conjunto que não se ressentiu com a mudança. E isso é, em primeira instância, mérito do treinador.

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