Grande falhanço do "Plano Vieira"

Grande falhanço do "Plano Vieira"

Nas crónicas publicadas neste jornal e nas minhas intervenções públicas fui sempre chamando a atenção para a importância que a continuidade de Jesus teria para o Benfica e para o perigo de um dos rivais poder aproveitar a oportunidade de uma brecha na relação contratual entre o clube da Luz e o seu ex-treinador. E percebendo o desgaste e a iminência da ruptura entre Bruno de Carvalho e Marco Silva (ou vice-versa), em Alvalade, disse e escrevi, com muita antecedência, que a única forma do presidente do Sporting poder escapar aos efeitos decorrentes do afastamento de Marco Silva seria contratar Jorge Jesus. E foi o que aconteceu.

Ao contrário do que aconteceu há dois anos, em cujo momento Luís Filipe Vieira contrariou a opinião dos seus "conselheiros" e decidiu impor a continuidade de Jorge Jesus no comando técnico do Benfica, decisão que se revelou acertada pelos resultados conseguidos (bicampeonato), desta vez o presidente dos encarnados não fez nada para segurar o treinador que, nos últimos seis anos, com contributos diversos, obviamente, mudou (para muito melhor) a face do futebol benfiquista.

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É um erro histórico que pode comprometer a tendência de descolagem do Benfica em relação aos seus mais directos competidores (FC Porto e Sporting) e é um erro histórico que pode conhecer consequências negativas no processo de reeleição de Luís Filipe Vieira como presidente do Benfica em 2016.

O Benfica desprezou sempre a possibilidade de Jesus reforçar o Sporting até ao momento em que percebeu que esse facto se havia concretizado. Achava que tinha a situação controlada, através do eixo Vieira-Mendes. O "plano" era claro: ficar com Jorge Jesus só se ele aceitasse as novas linhas programáticas para o futebol do Benfica (maior aposta na formação, com rentabilização do investimento efectuado no Seixal) e se acedesse a baixar, significativamente, o ordenado. O "plano" (Vieira-Mendes) contemplava a hipótese de uma "recusa" de Jesus e aí funcionaria a capacidade de Jorge Mendes em arranjar colocação do treinador no estrangeiro. Aqui começaram os problemas. Jesus sonhava (alto) com o Manchester City, Manchester United, Real Madrid, Barcelona e PSG e Mendes o melhor que conseguia arranjar era um clube italiano, um clube médio inglês, clubes turcos e russos ou um "grande contrato" em paragens mais longínquas como os Emirados ou mesmo a China. No "plano de Vieira" não estava contemplada a hipótese de Jesus rumar ao Sporting. Conclui-se, portanto, que o plano do Benfica falhou - e falhou porque na reunião da passada segunda-feira (último encontro entre Jesus e Vieira) o presidente dos encarnados não fez nada para convencer o treinador a ficar, convicto de que tinha a situação perfeitamente controlada. Vieira acabou por entregar Jesus ao Sporting, com as consequências que o futuro apurará.

Agora vêm os defeitos todos porque Jesus não aceitou a sugestão de ir para-um-certo-estrangeiro: egocentrismo, ingratidão, mercenarismo. Como é que foi possível conviver com um treinador tão virado para seu umbigo, tão pouco solidário e tão esfomeado por dinheiro durante 6-anos-6, o que nunca antes tinha acontecido, consecutivamente, com outro treinador? E como é que alguém tão pródigo na propaganda da defesa de valores, atacando o seu rival do Norte nessa medida, é capaz de apagar da fotografia oficial que assinala a conquista pelo Benfica do bicampeonato o treinador que teve um contributo inestimável nessa proeza? Como se pode qualificar um gesto destes?

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Do "plano" constava ainda, no caso de Jesus não aceder às novas exigências (programáticas e contratuais), a aquisição de Rui Vitória, há muito assinalado como o técnico ideal para se encaixar naquilo que era o desejo de Vieira: baixo perfil, ex-treinador das camadas jovens do Benfica com vocação para aproveitar jovens talentos, bom trabalho realizado nos clubes por onde passou. A ver vamos se a ida de Jesus para Alvalade vai confirmar, ou não, esta parte do "plano", porque o Benfica pode ver-se na contingência de querer "responder ao Sporting" (e a Jesus) e tem Marco Silva mesmo à mão de semear. Em que posição vai ficar Rui Vitória?!

Desportivamente, não tenho dúvida alguma que Jesus - como fez no Benfica - vai mudar a face do futebol do Sporting. E vai permitir a Bruno de Carvalho exercer a sua (real) condição de presidente. Não vai precisar de estar atrás de todas as cortinas, porque sabe que alguém com capacidade de liderança fará o que tem de fazer, nos aspectos directamente relacionados com o balneário. A minha convicção é que o Sporting vai, rapidamente, jogar um futebol de outra dimensão. O que o Benfica perdeu, o Sporting vai ganhar. Não me parece que o Benfica possa estar tranquilo, mesmo considerando que o Sporting tem ainda muitas coisas a explicar no âmbito desta "bombástica" operação.

JARDIM DAS ESTRELAS

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Marco Silva no Benfica?

Tudo o que se passou entre o presidente Bruno de Carvalho e o (ex) treinador do Sporting, Marco Silva, foi lamentável.

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Num projecto desportivo, mesmo com forte carga presidencialista, como era o caso do Sporting, o treinador é uma peça fundamental. O treinador tem de respeitar o presidente; o presidente tem de respeitar o treinador. E ambos têm se de fazer respeitar. O que se passou com o Sporting foi exactamente o contrário deste princípio. Marco Silva deixou de respeitar Bruno de Carvalho e Bruno de Carvalho deixou de respeitar Marco Silva. Perdeu o Sporting, mesmo com o que conseguiu ganhar e não parecem restar muitas dúvidas de que o treinador geriu melhor, publicamente, a situação.

Não me parece que os argumentos utilizados pelo Sporting para justificar o despedimento sejam suficientemente consistentes. Os tribunais di-lo-ão. Os elevados custos da contratação de Jesus não justificam a saída encontrada: o despedimento de Marco Silva é iníquo. O Sporting fez uma época positiva.

Fica difícil a Vieira não contratar Marco Silva e confiar que a sua competência seja suficiente para "guiar" um barco tão grande como o do Benfica. Um Benfica-Sporting (Supertaça) a abrir a época, com Marco no Benfica e Jesus no Sporting, seria muito interessante. Mesmo que assim não seja, a temporada de 2015-16 promete. Ai se promete.

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