Expressa qualidade preciosa em jovens com futuro por definir: está sempre disponível para aprender e não tem medo de ser feliz. Fábio Coentrão tem, por fim, um concorrente à altura. O futebol português ganhou um grande jogador.
1 A linha lateral dá-lhe sentido de orientação; a intimidade com a bola permite-lhe alimentar as ações com drible seguro e passe criterioso; por ser inteligente na ocupação do espaço e solidário na entrega, conjuga eficácia defensiva com sucessivos movimentos de rutura do outro lado do campo. Nunca se esconde na esquerda recuada do palco, porque rejeita o comodismo e a timidez é apenas um estado de espírito transitório; como ultrapassa facilmente a fronteira da vulgaridade, é normal vê-lo desempenhar papéis principais em peças nas quais parecia condenado a ser ator secundário. Poucos como Raphael Guerreiro têm a arte de obrigar o foco dos holofotes a procurá-lo naquela zona escondida onde pouco ou nada de relevante costuma acontecer.
2 Assente em versatilidade notável, tem dinâmica ofensiva apreciável, suportada em processos simples e ideias claras. Atrás é um defesa concentrado, no meio é um condutor seguro e à frente é um extremo com soluções técnicas superiores. É uma espécie de três em um, que deslumbrou nos sub-21 e não desiludiu quando foi chamado de emergência à Seleção principal. Para quem o desconhecia, foi surpreendente detetar-lhe tantas soluções: a velocidade é acompanhada pela precisão de gestos e movimentos; acelerar, travar, chocar, arrancar outra vez e mudar de direção são etapas de uma arte que domina totalmente; alimenta o jogo combinado mas tem armas poderosas para ser ator principal de curtas-metragens deslumbrantes cujo final é normalmente feliz.
3 Porque nada lhe caiu do céu, teve de ser consciente, mas também aventureiro, atrevido e ambicioso, para agarrar as oportunidades que Rui Jorge e Fernando Santos lhe concederam. Ao serviço do Lorient já atingiu a Seleção; basta-lhe agora subir mais um ou outro degrau para cumprir o desígnio de transformar-se num símbolo apetecível do futebol moderno. Mesmo sabendo que precisa de vencer os efeitos de uma estrutura genética desfavorável – 1,70 m e 67 kg são valores irreverentes para um defesa – é preciso nas marcações, correto nas dobras e rigoroso no posicionamento; sabe manter as distâncias e é exímio nas relações de força que estabelece com os adversários diretos; cumprindo bem o que deve fazer por si, articula bem cada movimento com os outros. Por estilo e participação no jogo pode tornar-se no Jordi Alba da Seleção.
4 Raphael harmoniza o turbo nas pernas com requisitos futebolísticos imprescindíveis para cumprir a missão de defesa e alimentar as alucinantes viagens de ida e volta pelo flanco. A expressão de inocência esconde um jogador da cabeça aos pés, que assume riscos e nunca se limita; um miúdo com máscara de cidadão comum que atrás cumpre com discrição e na frente surge como desequilibrador; um ator secundário que parte incógnito, chega com nome próprio e não raras vezes acaba como protagonista. Conquista nacional, que os franceses já lamentam nos mais variados quadrantes, expressa qualidade preciosa em jovens com futuro por definir: está sempre disponível para aprender e não tem medo de ser feliz. Fábio Coentrão tem, por fim, um concorrente à altura. O futebol português ganhou um grande jogador.
Tiba e Hernâni são fantásticos
Dois acima dos outros: Tiba e Hernâni. O bracarense mandou no campo de batalha; defendeu, atacou, uniu atrás e desequilibrou à frente; foi solidário na luta pela bola e líder na gestão do jogo ofensivo. Aos 26 anos, é um médio com lugar em qualquer dos grandes. Aos 23 anos, o vimaranense é um fenómeno. Tem tudo o que precisa para interferir nos jogos a partir das faixas: talento, velocidade, coragem, irreverência, drible, definição, potência e fôlego para exercer na hora e meia. Quando conjugar tanta virtude durante três meses seguidos, será uma estrela europeia.
Ronaldo e Messi de outro mundo
Ronaldo e Messi contradizem a sólida tendência que o futebol desenhou a partir dos anos 70: superioridade das defesas sobre os ataques; do coletivo sobre o individual; da tática sobre o talento. O jogo sempre gerou grandes intérpretes mas não se regenerou ao ponto de inventar goleadores como os heróis das décadas de 30, 40 e 50. Com 3 golos ao Sevilha, La Pulga tornou-se no melhor marcador de sempre da Liga espanhola, superando heróis criados só pela eficácia do último toque. CR7 atingiu os 400 golos. Não foi o futebol que mudou. Ronaldo e Messi é que não são deste Mundo.
Jonas candidato a rei dos golos
Jonas é, ele próprio, uma enciclopédia do espaço ofensivo. O brasileiro sabe tudo sobre a função que desempenha e conhece todas as soluções de catálogo; adivinha com impressionante facilidade ressaltos, intenções de uns e outros, bem como as falhas que abrem caminho ao golo. Mas é mais do que isso, porque para lá da teoria dispõe de argumentos técnicos notáveis para tirar partido de cada situação favorável. Se o melhor marcador da Liga só tem 8 golos (Talisca), Jonas, que só tem 2, ainda é candidato a rei dos goleadores. É o que dizem os 7 golos apontados num total de 6 jogos.