1 Um dia, por motivos não explicados na totalidade (nunca foi clara a origem do conflito e o modo como se desenvolveu até à decisão final), treinou-se, meteu-se no carro, abandonou o estágio e foi à vida dele. A deserção custou-lhe condenação de afastamento perpétuo por Paulo Bento e a imagem imaculada de uma carreira beliscada pelo ato irrefletido. O caso confirmou a necessidade de mecanismos internos para que a Seleção não esteja à mercê de atos isolados: de jogadores que decidem unilateralmente que não voltam a jogar com as quinas ao peito mas também de treinadores cujas decisões não assentam em convicções técnicas mas na defesa de valores que excedem as suas competências – o único castigo legítimo foi a suspensão de um ano pela FPF.
2 Ricardo Carvalho está condenado a fazer parte da lenda por ser, ele próprio, uma das mais completas enciclopédias futebolísticas de sempre, pela forma como valoriza classe, precisão, estética, influência e eficácia. Atingiu o topo da consideração universal porque estimulou a arte de chegar aos factos centésimos de segundo antes de ocorrerem, processo através do qual comete o sacrilégio, só ao alcance dos sobredotados, de se antecipar ao tempo. Porque a intuição é a velocidade de ponta da inteligência, é o prodígio que concentra quase todos os elementos de que um central precisa para exercer a função; porque adivinha quase tudo o que acontece à volta, não depende excessivamente do físico, assumindo a grandeza de subalternizar grosseria, picardia e contundência entre as características dominantes.
3 Vê-lo fechar diagonais defensivas; manter a marcação em zonas problemáticas; avaliar tempos de contenção e desarme no confronto com os mais habilidosos; compensar com sentido posicional o espaço perdido por circunstâncias várias, constitui experiência gratificante para quem gosta de futebol. Ricardo Carvalho é um fenómeno a gerir situações de vantagem mas também a corrigir erros instantaneamente; continua a ser um grande central visto de modo isolado mas é melhor ainda quando tem de dividir a ação com o parceiro do lado. Pouco lhe falta para atingir a fiabilidade absoluta, porque é frio no calor da luta e quente no gelo da indiferença. Feitas as contas, continua a cumprir uma das máximas do futebol: joga simples nas situações mais delicadas.
4 Ricardo Carvalho passou toda uma carreira a colecionar génios da bola; a enfrentar artistas de soluções milagrosas e a metê-los no bolso como se fosse a coisa mais fácil do Mundo. Na prateleira das conquistas eternas figuram estrelas como Van Nistelrooy, Henry, Rooney, CR7, Tévez, Agüero, Villa, Messi, Ibrahimovic... Aos 36 anos, e apesar do período em que viveu longe da Seleção Nacional, continua a ser o Imperador do futebol português e o herdeiro dileto dos maiores génios defensivos da história (Germano Figueiredo e Humberto Coelho). Com o instinto depurado pela experiência e o físico tratado com o esmero de um perfeccionista, continua a honrar o estatuto que o coloca entre os defesas-centrais mais extraordinários das últimas duas décadas à escala planetária. Só comparável a Laurent Blanc, Jaap Stam, John Terry, Thiago Silva e Piqué.
Contas do título passam por Nani
O leão resgatou Nani ao inferno de Manchester, onde já poucos acreditavam no seu talento – como se lá tivessem melhor... Ao consegui-lo, o Sporting reforçou-se com o melhor jogador da Liga (apesar de Enzo, Gaitán e Jackson), um daqueles que dimensionam a equipa de que fazem parte e têm armas suficientes para interferir na decisão do próprio campeonato. O exército que Marco Silva construiu e está a consolidar continua a mostrar a sua força. Com a inclusão de um génio absoluto como Nani, mesmo a seis pontos do líder, é um sério candidato ao título.
Jonas promete jogo e golos
Jonas está a ser protagonista de arranque espetacular como jogador do Benfica: quatro golos em dois jogos, para lá do valor contabilístico, servem para abrir o apetite para o que aí vem. Na Covilhã, para lá do hat trick, o brasileiro mostrou que conhece o espaço em que se movimenta, domina todas as suas regras específicas e não é apanhado de surpresa em circunstância alguma. Sem físico de atleta, é inteligente, instintivo, rápido, hábil e eficaz nos movimentos de acesso à baliza. Sem ele, o Benfica não teria ganho na Covilhã. É forte candidato a titular. E a promessa de muito golo.
A rotatividade de Lopetegui
Lopetegui revelou confiança quase insolente na capacidade para gerir um plantel sobre o qual assumiu toda a responsabilidade técnica. O que quis, o FC Porto deu-lhe; o que não quis já era tarde para devolver à procedência (Quaresma e Evandro acima de todos). O clima começa a ser perigoso, porque o dragão está cada vez mais à mercê de tropeções comprometedores. A rotatividade será uma questão menor se os jogadores entenderem os seus fundamentos e revelarem abertura mental para o aceitarem. Grave mesmo é sentir que a equipa perdeu identidade e joga cada vez menos.