Jackson e o apelo dos deuses

Jackson e o apelo dos deuses

1 - Um dia, entre os 80 e 90, os jogadores do Milan foram apanhados de surpresa: Silvio Berlusconi estava à entrada dos balneários como se fosse porteiro. Impulsionado pela crise de resultados, o presidente dirigiu-se a Milanello para dizer, a cada elemento do plantel, uma frase muito simples: “Bom-dia, eu estou com Sacchi!”

Jorge Nuno Pinto da Costa não precisa de fazê-lo no FC Porto porque, muitas vezes contra tudo e todos, é um eterno aliado do treinador. Foi o que aconteceu com Paulo Fonseca, cujo insucesso tem várias explicações coletivas mas também individuais. Tomemos como exemplo Jackson Martínez, melhor marcador da Liga. O colombiano, jogador sempre comprometido e ambicioso, entrou num ciclo de resignação à fatalidade, inibindo-se por nervos, pressão ou simples tristeza.

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2 - Ao contrário de muitos, que só na iminência do golo se excitam e fazem explodir todo o arsenal de agressividade que os torna temíveis , Cha Cha Cha transporta soluções imprevistas e contundentes em todo o espaço de ataque. Para lá de frieza e precisão próprias de atirador indomável, com pé direito, esquerdo e de cabeça, Jackson é extraordinário a movimentar-se por campos minados como se estivesse a passear no quintal da sua casa; é espantoso que, colocado perante as mais complexas e exigentes situações do jogo, atue como se estivesse a mexer nas gavetas lá de casa ou a arrumar papéis que ficaram soltos em cima da secretária. A simplificação é um talento precioso em qualquer atividade.

3 - No momento de tomar decisões, Jackson prima por escolher quase sempre a melhor opção. Raramente se engana, por exemplo, quando solicita apoio ou prossegue em esforços individuais que o levam ao momento de ajustar contas com o guarda-redes. Nessa altura, de nada lhe vale o ar esforçado, sofredor, bondoso e inocente que suscita comiseração exterior pelas agruras que passou até ali chegar. É tarde para desviá-lo do objetivo que traçou: já tem os sentidos despertos e comporta-se como um assassino profissional, despojado de emoções. Apesar de tudo, não é um ponta-de-lança autossuficiente. Para expressar o manancial de argumentos técnicos e táticos que possui necessita de ser apoiado por fora (Quaresma e Varela) e por dentro (dificuldade maior, principalmente depois da saída de Lucho).

4 - Jackson tem coragem e sentido de oportunidade; técnica sublime em todos os gestos que importam para a vida que escolheu; astúcia nos movimentos e personalidade para interferir na história dos jogos. Nas últimas semanas cumpriu com o esforço, contribuiu com a entrega e respondeu com serviços mínimos como se fosse um simples funcionário; mas faltou-lhe intensidade para tentar as decisões épicas, magistrais e deslumbrantes, só possíveis quando impulsionadas por instinto, intuição, confiança e felicidade – e foi a imagem interior de superação que aproximou Ghilas da titularidade. Os deuses abandonaram Jackson mesmo que, apesar da quebra, não tenha deixado de marcar – 6 golos nos dois meses e meio de 2014. Para voltar a ser o melhor avançado da Liga, só precisa de redescobrir a paixão que perdeu algures pelo caminho desta época.

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Barça de Tata em descalabro

O Barcelona resulta de um grande projeto futebolístico e institucional com mais de 40 anos

Há uma história por detrás de quem deu ao jogo algumas das melhores equipas de sempre. A de Pep Guardiola foi a expressão máxima de um estilo agregado a ideia clara, com sentido estético apurado e que foi posta em prática por filhos da casa com qualidade superior. Atingir a perfeição levou muitos anos, num percurso que juntou à beleza a força esmagadora dos resultados. O projeto entrou em colapso, prova de que destruir é muito mais fácil e rápido. Tata Martino é o rosto do descalabro. Mas os responsáveis pelo crime são muitos mais.

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Dúvidas no meio de tanta asneira

Não é normal uma arbitragem concentrar tantos erros como a de Vasco Santos em Setúbal

Nem tudo configura um escândalo. Há falhas de bradar aos céus, outras explicáveis ao abrigo da falibilidade humana e uma derradeira que não é possível esclarecer cabalmente. O problema é este: depois de um golo mal anulado e de outro que foi mas não devia ter sido, ambos por má avaliação do fora-de-jogo; depois de um penálti legítimo ou não e de outro que é uma absoluta anedota, o crédito do árbitro e seus assistentes ficou reduzido a zero. Sim, parece que a bola entrou no cabeceamento de Slimani. Mas como conceder o benefício da dúvida a quem cometeu tanto e tão grave disparate?

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Luisão é a chave do êxito da águia

Há jogadores que, por estatuto e função, têm de tomar decisões ao longo de hora e meia

Luisão coordena toda a ação defensiva, articula os movimentos sem bola e define os tempos de entrada aos lances. Ou seja, é a força aglutinadora do coletivo e um jogador de fiabilidade quase absoluta nos despiques individuais em que participa. Se parte do sucesso encarnado na presente época passa pelo momento em que fechou a porta de acesso à sua baliza, o capitão tornou-se elemento decisivo na época encarnada. Pode ser menos reconhecido, mas é mais preponderante do que os artistas geniais e os atiradores com pontaria afinada que vivem à sua frente. Já entrou na história do Benfica.

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