James é um hino ao futebol

James é um hino ao futebol

El Bandido tem colecionado milagres e dado nome próprio a sucessivas obras-primas; é um profeta em estado de graça, fonte de inspiração para os companheiros, de esperança para o seu povo e de reconhecimento para os adeptos em geral. O Brasil que se cuide.

1 A tecnologia de ponta do futebol, por mais interesses que tenha em Hollywood ou Wall Street, continua a ser a rua, a pobreza e a degradação do dia a dia. Os maiores artistas da história do jogo têm origem nesses cenários e recusam utilizar catálogos de soluções conhecidas: preferem inventar a cada instante. James Rodríguez é um génio que se expressa com a bola nos pés porque, no sítio onde nasceu, não havia outra solução para tirá-lo da miséria, incitá-lo a sonhar e permitir-lhe a vitória social que parecia impossível de atingir. A alcunha remete para esses tempos de privação (El Bandido) mas o modo como se expressa confere-lhe o perfil de príncipe que junta ao engano, à mentira e ao despudor de ações e atitudes, a grandeza do estilo, da elegância, da nobreza, do comportamento e da liderança.

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2 É muito mais do que um malabarista a quem, uma vez por outra, as coisas saem bem. James resolve situações por habilidade mas acrescenta-lhe o entendimento global do jogo; pode sair de apertos fintando armadilhas pela eficácia do talento individual mas tem a visão necessária para antecipar o que vem a seguir; passa um, dois, três adversários mas nunca se desvia do objetivo final, prova de que, para lá das cavalgadas solitárias, o seu estilo é perfeito para as associações curtas de progressão participada. No fim de contas, e tal como se tem visto no Brasil, é um jogador com armas individuais tremendas, que entende o futebol como larga cadeia de factos e movimentos cuja gestão é feita para evitar surpresas.

3 James recusa ser candidato a herói solitário, porque não tem tiques exibicionistas, não pretende embriagar o público com o espetáculo exclusivo da sua arte e nunca dá ao treinador motivos para ser acusado de indisciplina. Na seleção colombiana conseguiu o que procurou sem êxito no FC Porto e no Monaco: dar rédea solta à intuição e ter liberdade para criar, atingindo assim a felicidade plena, sem a qual o esforço, as obrigações solidárias e a repressão tática costumam ser tormenta insustentável. Por ser o denominador comum da equipa e dispor de um talento que se expressa pelo engano, eleva a mentira ao estado coletivo. Quando pega na bola e se vira para a baliza, parece um homem só. Mas quando abre o livro e toma decisões, é notório que a cumplicidade com a equipa lhe permite envolver mais intervenientes no processo de burla.

4 El Bandido faz parte da reserva espiritual de um futebol que nos foge por entre os dedos, como contracorrente ao estilo geométrico e pré-fabricado que uniformiza comportamentos. O som que gera e as emoções que provoca em cada lance são o hino que todos os adeptos desejam ouvir. Tem colecionado milagres e dado nome próprio a sucessivas obras-primas; é um profeta em estado de graça, fonte de inspiração para os companheiros, de esperança para o seu povo e de deslumbramento para os adeptos em geral. Ao fim de quatro jogos, cinco golos e de a FIFA o ter considerado por três vezes o melhor em campo, ocupa o trono de melhor jogador do Mundial até ao momento. Na ausência de Falcão, é o guia colombiano à terra prometida. O Brasil que se cuide. Ele não está para brincadeiras.

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Laranja Mecânica renega passado

Os arautos do futebol ofensivo, alicerçado no sentido de aventura que criou cumplicidades com milhões de adeptos, e a Holanda do risco assumido para chegar à vitória, que fez a vida negra aos pragmáticos que jogavam para não perder, sofrem duro golpe com o conceito de Van Gaal – no seguimento do que já fizera Van Marwijk. Até ao momento, as críticas têm caído em saco roto, porque as vitórias indiciam que a equipa está no bom caminho. Mas porque a sorte não dura sempre, um dia destes perde, vai para casa e nada terá a que se agarrar.

Matuidi indigno mas não expulso

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Com os árbitros é o mesmo. Matuidi tem entrada assassina sobre Onazi nas barbas do juiz. O nigeriano fica inutilizado e Marc Geiger pune o agressor com o cartão amarelo. É inacreditável que o americano tenha reduzido a ação indigna do francês, com consequências graves para a vítima, à simples advertência. Mesmo considerando critérios distintos, é miserável que Pepe tenha sido expulso por tão pouco e Matuidi tenha permanecido em jogo após tão grave atentado à integridade do adversário. Também neste capítulo há casos que não podem merecer dúvidas: os muito graves e os virtuais.

Quando Slimani entra na história

Slimani foi a personificação do extraordinário espírito de entreajuda e do compromisso com a bandeira que os argelinos revelaram. O equilíbrio começou nessa abordagem guerreira mas prosseguiu na qualidade futebolística. O avançado do Sporting passou duas horas a lutar, a tabelar, a levar a bola, a ganhar lances de cabeça nas duas áreas e até no meio-campo, onde funcionou como arma tática de referência – respondeu a todas as solicitações longas do guarda-redes. Pode não ter sido brilhante. Mas ganhou direito a tornar-se inesquecível. Que é outra forma de entrar na história.

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