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JOAQUIM SEMEANO: A atracção das luzes

O SPORTING Clube Lourinhanense, clube filiado na Associação de Futebol de Lisboa e um dos principais, a par do Torreense, de toda a chamada Região do Oeste, vê a hora aproximar-se rápida e dramaticamente: o tempo de "filiação" no Sporting Clube de Portugal está a acabar. O clube de Alvalade vai investir, como se sabe, numa equipa B, a exemplo do que já fizeram o Benfica e o FC Porto. O protocolo com os "leões do oeste" chega ao fim.

No último sábado, o nosso jornal lançou um olhar sobre esse futuro a breve prazo do clube da Lourinhã. Deixando de ser "satélite" do gigante Sporting, o Lourinhanense vai perder grande parte dos seus actuais futebolistas e também o próprio treinador, Fernando Mendes. Embora se mantenha a dúvida acerca da manutenção de algum apoio por parte do clube de Alvalade, as perspectivas são as mais pessimistas. O Lourinhanense, que sob a "protecção" do Sporting saltou de um relativo anonimato na III Divisão para um maior destaque no escalão secundário, beneficiando da qualidade dos jovens jogadores cedidos pelo clube de Alvalade, arrisca-se a ficar, subitamente, à beira de um abismo. Sem jogadores, sem treinador e, pelos vistos, também sem presidente, já que o actual líder do clube, Alfredo Santos, já tornou pública a sua intenção de não se recandidatar no cargo.

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Entretanto, faltam duas semanas para a realização de eleições e, até ao momento em que este texto é escrito, não apareceu qualquer candidato à sucessão de Alfredo Santos.

E talvez se perceba porque não aparece ninguém. Terminada a ligação ao Sporting, bem se pode perguntar: o que ganhou o clube da Lourinhã com tal acordo? Compensou a subida ao escalão secundário? Melhoraram as estruturas? Ficou o clube mais conhecido a nível nacional? Certamente que sim, na resposta a esta última questão. Mas todas as dúvidas se levantam em relação às outras. Dando prioridade aos jovens saídos dos escalões de formação de Alvalade, o clube votou a um relativo esquecimento os da sua região. Trocou por uma maior competitividade e consequente visibilidade aquela que deveria ser a sua função principal, a abertura de espaços e práticas desportivas para as pessoas da sua terra, com as quais se deve identificar. Os chamados “pequenos” clubes não podem envergonhar-se do seu estatuto, importantíssimo e decisivo no desenvolvimento do país, e não podem virar as costas à sua própria identidade, porque não arranjam outra de um momento para o outro. Penso que estas são as diferenças fundamentais entre um clube como o Lourinhanense e um como, por exemplo, o Sporting. Há uma dignidade fundamental no papel dos pequenos clubes, aos quais se compreende uma ocasional atracção pelas luzes mas se deve exigir sempre a noção da realidade que os suporta e envolve.

Sinceramente, parece-me que, em toda esta ligação, o Sporting e os jovens jogadores foram os mais beneficiados, embora também no que respeita ao aproveitamento do trabalho nos escalões jovens continue muito por debater e fazer. As luzes que momentaneamente iluminaram o Lourinhanense vão, tudo o indica, apagar-se rapidamente, e os "leões do oeste" correm o risco de ficar, subitamente, às escuras. Penso que esta é uma história exemplar, que merece ser lembrada sempre que alguém pensar em clubes-satélites ou similares.

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